
Cinco lies de psicanlise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos















VOLUME XI
(1910[1909])





















         
         
         



PREFCIO ESPECIAL PARA A EDIO BRASILEIRA DE ANNA FREUD
         
         
         Produzir e editar em portugus uma Edio Standard das obras de Freud constitui ingente tarefa, na qual aqueles que participaram so dignos de louvores. 
Quando, como na Psicanlise, o pioneiro de uma nova disciplina formulou novos conceitos revolucionrios e empregou novos termos, seus tradutores precisam no somente 
de conhecimentos e habilidade, como tambm de uma inventividade criadora no ampliar os vocbulos existentes que ultrapassam de muito as fronteiras do comum.
         Esta nova edio em portugus substitui uma anterior, malograda, que saiu de circulao. Sobre esta, apresenta a imensa vantagem de ser no apenas completa, 
mas uma traduo direta do texto original em alemo, sem que se utilizasse qualquer traduo intermediria.
         No tenho nenhuma dvida em meu esprito de que o prprio autor a acolheria com todo o entusiasmo. 
         Anna Freud
         Londres, fevereiro de 1970
         
         
         
         
         
















CINCO LIES DE PSICANLISE (1910 [1909])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS (JAMES STRACHEY)
         BER PSYCHOANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1910 Leipzig e Viena: Deuticke. P. 62 (2 ed. 1912, 3 ed. 1916, 4 ed. 1919, 5 ed. 1920, 6 ed. 1922, 7 ed. 1924, 8 ed. 1930; todas sem modificaes.)
         1924 G.S., 4, 349-406. (Ligeiramente modificada.)
         1943 G.W., 8, 3-60. (No modificada da G.S.)
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         `The Origin and Development of Psychoanalysis'
         1910 Am. J. Psychol., 21 (2 e 3), 181-218. (Tr. H. W. Chase.)
         1910 Em Lectures and Addresses Delivered before the Departments of Psychology and Pedagogy in Celebration of the Twentieth Anniversary of the Opening of 
Clark University, Worcester, Mass., Parte I, pp. 1-38. (Reimpresso da acima mencionada.)
         1924 Em An Outline of Psychoanalysis, ed. Van Teslaar, Nova Iorque: Boni and Liveright. Pp. 21-70. (Reedio da acima mencionada.)
         
         A presente traduo inglesa, inteiramente nova, com o ttulo diferente de Five Lectures on Psycho-Analysis,  de James Strachey.
         
         Em 1909, a Clark University, Worcester, Massachusetts, comemorou o vigsimo ano de sua fundao, e seu presidente, o Dr. G. Stanley Hall, convidou Freud 
e alguns de seus principais seguidores (C. G. Jung, S. Ferenczi, Ernest Jones e A. A. Brill) para participarem das celebraes e receberem graus honorficos. Foi 
em dezembro de 1908 que Freud recebeu pela primeira vez o convite, mas foi somente no outono seguinte que esse convite se concretizou, tendo as cinco conferncias 
de Freud sido pronunciadas na segunda-feira, 6 de setembro de 1909, e nos quatro dias subseqentes. Isto, conforme declarou o prprio Freud na ocasio, foi o primeiro 
reconhecimento oficial da novel cincia, havendo ele descrito em seu Autobiogra-phical Study (Estudo Autobiogrfico) 1925d, Captulo V), como, ao subir ao estrado 
para pronunciar suas conferncias, `isso lhe pareceu a concretizao de um incrvel devaneio'.
         As conferncias (em alemo, naturalmente) foram, de acordo com a prtica quase universal de Freud, pronunciadas de improviso e, conforme nos informa o Dr. 
Jones, sem notas e depois de muito pouco preparo. Foi somente depois de sua volta a Viena que ele foi induzido, a contragosto, a escrev-las. Esse trabalho somente 
foi concludo na segunda semana de dezembro, mas sua memria verbal era to boa que, segundo nos assegura o Dr. Jones a verso impressa `no fugia muito da exposio 
original'. Sua primeira publicao foi feita numa traduo inglesa no American Journal of Psychology no incio de 1910, mas o original em alemo apareceu pouco depois 
sob a forma de panfleto em Viena. O trabalho tornou-se popular e teve vrias edies; em nenhuma delas, contudo, houve qualquer alterao de substncia, salvo quanto 
 nota de rodap acrescentada em 1923 bem no incio, aparecendo somente no Gesammelte Schriften e Gesammelte Werke, nos quais Freud retirou suas expresses de gratido 
a Breuer. Um exame da atitude modificada de Freud quanto a Breuer encontrar-se- na Introduo do Editor a Studies on Hysteria (Estudos sobre a Histeria), Standard 
Ed., 2, XXVI ss.
         Durante toda sua carreira Freud sempre estava pronto a apresentar exposies de suas descobertas. J publicara ele alguns curtos relatos de psicanlise, 
mas esse grupo de conferncias foi o primeiro numa escala ampliada. Essas exposies naturalmente variavam de dificuldade de acordo com o auditrio para o qual se 
destinavam, devendo essas ser consideradas como as mais simples, mormente quando postas em confronto com a grande srie de Introductory Lectures (Conferncias Introdutrias) 
pronunciadas alguns anos depois (1916-17). No obstante, apesar de todos os acrscimos que iriam ser feitos  estrutura da psicanlise durante o prximo quartel 
de um sculo, essas conferncias ainda proporcionam admirvel quadro preliminar que exige muito pouca correo. E do elas uma excelente idia da facilidade e clareza 
de estilo e do irrestrito sentido de forma que tornou Freud um conferencista to notvel quanto  exposio.
         Considerveis trechos da traduo anterior (1910) deste trabalho foram includos na General Selection from the Works of Sigmund Freud (Seleo Geral dos 
Trabalhos de Sigmund Freud), de Rickman (1937, 3-43).
         
         NOTA DO EDITOR BRASILEIRO
         
         A presente traduo brasileira, diretamente do alemo,  da autoria de Durval Marcondes (Professor de Psicologia Clnica da Universidade de S. Paulo e Presidente 
da Associao Brasileira de Psicanlise) e de J. Barbosa Corra (Professor de Clnica Mdica da Escola Paulista de Medicina). Feita para a Companhia Editora Nacional, 
data de 1931. Foi ligeiramente modificada por Jayme Salomo (Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanlise do Rio de Janeiro).
         
         
         Carta enviada por Sigmund Freud ao Professor Durval Marcondes agradecendo a primeira traduo brasileira de um de seus livros.
         
         CINCO LIES DE PSICANLISE
         
         Pronunciadas por Ocasio das Comemoraes
         do Vigsimo Aniversrio da Fundao da
         CLARK UNIVERSITY, WORCESTER
         MASSACHUSETTS
         Setembro de 1909
         
         Ao
         DR. G. STANLEY HALL, Ph. D., LL. D. 
         Presidente da Clark University 
         Professor de Psicologia e Pedagogia
         Este Trabalho  Penhoradamente Dedicado
         
         PREFCIO PARA AS CINCO LIES DE PSICANLISE DE DURVAL MARCONDES
         
         As lies que se seguem foram pronunciadas em lngua alem por Freud, em 1909, na "Clark University" em Worcester (Estados Unidos), por ocasio do vigsimo 
aniversrio dessa instituio, e a convite de seu presidente, o eminente psiclogo Stanley Hall. Elas constituem a primeira exposio sistemtica que Freud fez de 
sua teoria e, embora no envolvam as aquisies mais recentes da psicanlise, so, a meu ver, a leitura mais apropriada para quem aborda pela primeira vez a obra 
do mestre.
         A psicanlise estava longe de ter, naquela poca, a importncia e o renome que hoje desfruta. Se  exato que j em 1907 ela era estudada e utilizada pelo 
notvel psiquiatra Bleuler e por seus assistentes, na clnica de Zurique; e que j em 1908 se reunia em Salisburgo o primeiro congresso psicanaltico internacional, 
nem por isso as novas idias eram bem recebidas nas rodas cientficas oficiais, onde as afirmaes sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses esbarravam 
quase sempre com os preconceitos de uma falsa moral. Da a alta significao para a jovem doutrina teve a sua consagrao na ctedra de Worcester. "Na Europa, escreveu 
Freud, eu me sentia como um proscrito; ali me via acolhido pelos melhores como um igual. A psicanlise no era mais, portanto, uma concepo delirante, mas se tornara 
uma parte preciosa da realidade."
         Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Morvia, tendo passado aos quatro anos para Viena, onde fez seus estudos. Formou-se em Medicina em 1881. 
Ainda estudante, entrou, em 1876, a trabalhar no laboratrio de fisiologia de Ernst Brcke, sob cuja direo efetuou pesquisas de histologia nervosa. Depois de formado, 
ingressou no servio do grande psiquiatra Theodor Meynert, tendo-se dedicado, por essa poca, a estudos de neuroanatomia. Antes de entregar-se definitivamente  
investigao psicanaltica, publicou vrios trabalhos sobre afeces orgnicas do sistema nervoso, tais como as afasias e as encefalopatias infantis. Entre 1885 
e 1886 foi discpulo de Charcot, em Paris, e acompanhou, em 1889, em Nancy, as experincias de Bernheim sobre o hipnotismo. A influncia de ambos nas concepes 
iniciais da teoria psicanaltica poder ser bem avaliada nestas "Cinco Lies".
         Essas concepes tiveram sua primeira expresso na nota prvia que Freud publicou em 1893 com o Dr. Breuer, intitulada "Sobre o Mecanismo Psquico dos Fenmenos 
Histricos", a que se seguiu, em 1895, o livro, tambm em colaborao, "Estudos Sobre a Histeria."
         * * *
         A vida de Freud tem sido toda ela uma luta incessante pela verdade. Exposto, pela sua coragem de afirmar, ao antema das escolas psiquitricas dominantes, 
preferiu suportar por muito tempo a dureza de um verdadeiro exlio intelectual a ceder naquilo que era o honesto resultado de sua investigao. Desde o comeo de 
sua carreira profissional, o amor  certeza cientfica f-lo prejudicar deliberadamente a clnica em incio pela tenacidade em pesquisar em seus doentes o exato 
determinismo dos sintomas. Sua obra fundamenta-se na mais demorada e paciente observao dos fatos. H cerca de quarenta anos que ele se dedica diariamente a oito, 
nove, dez, s vezes mesmo onze anlises de uma hora cada uma, podendo-se, portanto, dizer que passou toda uma existncia debruado sobre a alma dos neurticos. O 
impiedoso rigor para com as prprias convices chegou, s vezes, ao ponto de faz-lo adiar por vrios anos a publicao de seus trabalhos at que a experincia 
ulterior proporcionasse a confirmao de suas descobertas. "Minha A Interpretao de Sonhos", diz ele, "e meu Fragmento de uma Anlise de um Caso de Histeria (o 
caso de Dora) foram retidos por mim - se no pelos nove anos aconselhados por Horcio - em todo caso por quatro ou cinco anos antes que me decidisse a public-los."
         Compreende-se, portanto, que quem adquiriu uma viso nova dos fatos  custa de to penosos sacrifcios, se tenha recusado a mudar de idia ante a presso 
de uma crtica partidria, que se no baseia na verificao objetiva. Essa justificada intransigncia de Freud foi, no obstante, tachada de dogmatismo, o que no 
impede, porm, que novos dados da observao direta e imparcial confirmem e completem cada vez mais as suas concluses.
         
         "Os homens so fortes enquanto representam uma idia forte." Em sua aureolada velhice, Freud assiste presentemente ao triunfo gradual e seguro de seus princpios, 
cujo enunciado j no constitui uma blasfmia. Eles conquistam paulatinamente o lugar que lhes cabe na cincia dos fenmenos espirituais e se vo tornando aceitos 
pelos mais legtimos representantes da psiquiatria moderna. Existe, na verdade, quem insista em rejeitar as conseqncias tericas da psicanlise sem lhe conhecer 
sequer os mtodos. Mas aos poucos iro chegando os ltimos retardatrios. "Quem sabe esperar no necessita fazer concesses."
         So Paulo, novembro de 1931.
         Durval Marcondes.
         
         
         
         
         
         
         PRIMEIRA LIO
         
         SENHORAS E SENHORES, - Constitui para mim sensao nova e embaraosa apresentar-me como conferencista ante um auditrio de estudiosos do Novo Mundo. Considerando 
que devo esta honra to somente ao fato de estar meu nome ligado ao tema da psicanlise, ser esse, por conseqncia, o assunto de que lhes falarei, tentando proporcionar-lhes, 
o mais sinteticamente possvel, uma viso de conjunto da histria inicial e do ulterior desenvolvimento desse novo processo semiolgico e teraputico.
         Se algum mrito existe em ter dado vida  psicanlise, a mim no cabe, pois no participei de suas origens. Era ainda estudante e ocupava-me com os meus 
ltimos exames, quando outro mdico de Viena, o Dr. Joseph Breuer, empregou pela primeira vez esse mtodo no tratamento de uma jovem histrica (1880-1882). Ocupemo-nos, 
pois, primeiramente, da histria clnica e teraputica desse caso, a qual se acha minuciosamente descrita nos Studies on Hysteria (Estudos Sobre a Histeria) [1895d] 
que mais tarde publicamos, o Dr. Breuer e eu.
         Mas, preliminarmente, uma observao. Vim a saber, alis com satisfao, que a maioria de meus ouvintes no pertence  classe mdica. No cuidem, porm, 
que seja necessria uma especial cultura mdica para acompanhar minha exposio. Caminharemos por algum tempo ao lado dos mdicos, mas logo deles nos apartaremos, 
para seguir, com o Dr. Breuer, uma rota absolutamente original.
         
         A paciente do Dr. Breuer, uma jovem de 21 anos, de altos dotes intelectuais, manifestou, no decurso de sua doena, que durou mais de dois anos, uma srie 
de perturbaes fsicas e psquicas mais ou menos graves. Tinha uma paralisia espstica de ambas as extremidades do lado direito, com anestesia, sintoma que se estendia 
por vezes aos membros do lado oposto; perturbaes dos movimentos oculares e vrias alteraes da viso; dificuldade em manter a cabea erguida; tosse nervosa intensa; 
repugnncia pelos alimentos e impossibilidade de beber durante vrias semanas, apesar de uma sede martirizante; reduo da faculdade de expresso verbal, que chegou 
a impedi-la de falar ou entender a lngua materna; e, finalmente, estados de `absence' (ausncia), de confuso, de delrio e de alterao total da personalidade, 
aos quais voltaremos mais adiante a nossa ateno.
         Ao terem notcia de semelhante quadro mrbido, os senhores tendero, mesmo no sendo mdicos, a supor que se trate de uma doena grave, provavelmente do 
crebro, com poucas esperanas de cura, e que levar rapidamente o enfermo a um desenlace fatal. Os mdicos podem, entretanto, assegurar-lhes que, numa srie de 
casos com fenmenos da mesma gravidade, justifica-se outra opinio muito mais favorvel. Quando tal quadro mrbido  encontrado em indivduo jovem do sexo feminino, 
cujos rgos vitais internos (corao, rins etc.) nada revelam de anormal ao exame objetivo, mas que sofreu no entanto violentos abalos emocionais, e quando, em 
certas mincias, os sintomas se afastam do comum, j os mdicos no consideram o caso to grave. Afirmam que no se trata de uma afeco cerebral orgnica, mas desse 
enigmtico estado que desde o tempo da medicina grega  denominado histeria e que pode simular todo um conjunto de graves perturbaes. Nesses casos no consideram 
a vida ameaada e at acham provvel o restabelecimento completo. Nem sempre  fcil distinguir a histeria de uma grave doena orgnica. No nos importa, porm, 
precisar aqui como se faz um diagnstico diferencial desse gnero, bastando-nos a certeza de que o caso da paciente de Breuer era daqueles em que nenhum mdico experimentado 
deixaria de fazer o diagnstico de histeria. Podemos tambm acrescentar, consoante a histria clnica, no s que a afeco lhe apareceu quando estava tratando do 
pai, que ela adorava e cuja grave doena havia de conduzi-lo  morte, como tambm que ela, por causa de seus prprios padecimentos, teve de abandonar a cabeceira 
do enfermo.
         
         At aqui nos tem sido vantajoso caminhar ao lado dos mdicos mas breve os deixaremos. No devem os senhores esperar que o diagnstico de histeria, em substituio 
ao de afeco cerebral orgnica grave, possa melhorar consideravelmente para o doente a perspectiva de um auxlio mdico. Se a medicina  o mais das vezes impotente 
em face das leses cerebrais orgnicas, diante da histeria o mdico no sabe, do mesmo modo, o que fazer, tendo de confiar  providencial natureza a maneira e a 
ocasio em que se h de cumprir seu esperanoso prognstico.
         Com o rtulo de histeria pouco se altera, portanto, a situao do doente, enquanto que para o mdico tudo se modifica. Pode-se observar que este se comporta 
para com o histrico de modo completamente diverso que para com o que sofre de uma doena orgnica. Nega-se a conceder ao primeiro o mesmo interesse que d ao segundo, 
pois no obstante as aparncias, o mal daquele  muito menos grave. Mas acresce outra circunstncia: o mdico, que, por seus estudos, adquiriu tantos conhecimentos 
vedados aos leigos, pode formar uma idia da etiologia das doenas e de suas leses, como, por exemplo, nos casos de apoplexia ou de tumor cerebral, idia que at 
certo ponto deve ser exata, pois lhe permite compreender os pormenores do quadro mrbido. Em face, porm, das particularidades dos fenmenos histricos, todo o seu 
saber e todo o seu preparo em anatomia, fisiologia e patologia deixam-no desamparado. No pode compreender a histeria, diante da qual se sente como um leigo, posio 
nada agradvel a quem tenha em alta estima o prprio saber. Os histricos ficam, assim, privados de sua simpatia. Ele os considera como transgressores das leis de 
sua cincia, tal como os crentes consideram os hereges: julga-os capazes de todo mal, acusa-os de exagero e de simulao, e pune-os com lhes retirar seu interesse.
         O Dr. Breuer no mereceu certamente essa censura com relao  sua paciente. Embora no pretendesse, no princpio, cur-la, no lhe negou, entretanto, interesse 
e simpatia, o que lhe foi provavelmente facilitado pelas elevadas qualidades de esprito e de carter da jovem, das quais ele nos d testemunho na histria clnica 
que redigiu. Sua carinhosa observao proporcionou-lhe bem logo o caminho que lhe permitiu prestar  doente os primeiros auxlios.
         Havia-se notado que nos estados de `absence' (alterao da personalidade acompanhada de confuso), costumava a doente murmurar algumas palavras que pareciam 
relacionar-se com aquilo que lhe ocupava o pensamento. O mdico, que anotara essas palavras, colocou a moa numa espcie de hipnose e repetiu-as, para incit-la 
a associar idias. A paciente entrou, assim, a reproduzir diante do mdico as criaes psquicas que a tinham dominado nos estados de `absence' e que se haviam trado 
naquelas palavras isoladas. Eram fantasias profundamente tristes, muitas vezes de potica beleza - devaneios, como podiam ser chamadas - que tomavam habitualmente 
como ponto de partida a situao de uma jovem  cabeceira do pai doente. Depois de relatar certo nmero dessas fantasias, sentia-se ela como que aliviada e reconduzida 
 vida normal. Esse bem-estar durava muitas horas e desaparecia no dia seguinte para dar lugar a nova `absence', que cessava do mesmo modo pela revelao das fantasias 
novamente formadas.  foroso reconhecer que a alterao psquica manifestada durante as `absences' era conseqncia da excitao proveniente dessas fantasias intensamente 
afetivas. A prpria paciente, que nesse perodo da molstia s falava e entendia ingls, deu a esse novo gnero de tratamento o nome de `talking cure' (cura de conversao) 
qualificando-o tambm, por gracejo, de `chimney sweeping' (limpeza da chamin).
         Verificou-se logo, como por acaso, que, limpando-se a mente por esse modo, era possvel conseguir alguma coisa mais que o afastamento passageiro das repetidas 
perturbaes psquicas. Pode-se tambm fazer desaparecer sintomas quando, na hipnose, a doente recordava, com exteriorizao afetiva, a ocasio e o motivo do aparecimento 
desses sintomas pela primeira vez. `Tinha havido, no vero, uma poca de calor intenso e a paciente sofria de sede horrvel, pois, sem que pudesse explicar a causa, 
viu-se, de repente, impossibilitada de beber. Tomava na mo o cobiado copo de gua, mas assim que o tocava com os lbios, repelia-o como hidrfoba. Nesses poucos 
segundos, ela se achava evidentemente em estado de absence. Para mitigar a sede que a martirizava, vivia somente de frutas, meles etc. Quando isso j durava perto 
de seis semanas, falou, certa vez, durante a hipnose, a respeito de sua "dama de companhia" inglesa, de quem no gostava, e contou ento com demonstraes da maior 
repugnncia que, tendo ido ao quarto dessa senhora, viu, bebendo num copo, o seu cozinho, um animal nojento. Nada disse, por polidez. Depois de exteriorizar energicamente 
a clera retida, pediu de beber, bebeu sem embarao grande quantidade de gua e despertou da hipnose com o copo nos lbios. A perturbao desapareceu definitivamente.
         Permitam-me que os detenha alguns momentos ante esta experincia. Ningum, at ento, havia removido por tal meio um sintoma histrico nem penetrado to 
profundamente na compreenso da sua causa. O descobrimento desses fatos devia ser de ricas conseqncias, se se confirmasse a esperana de que outros sintomas da 
doente - e talvez a maioria - se houvessem originado do mesmo modo e do mesmo modo pudessem ser suprimidos. Para verific-los, Breuer no mediu esforos e pesquisou 
sistematicamente a patogenia de outros sintomas mais graves. E realmente era assim. Quase todos se haviam formado desse modo, como resduos - como `precipitados', 
se quiserem - de experincias emocionais que, por essa razo, foram denominadas posteriormente `traumas psquicos'; e o carter particular a cada um desses sintomas 
se explicava pela relao com a cena traumtica que o causara. Eram, segundo a expresso tcnica, determinados pelas cenas cujas lembranas representavam resduos, 
no havendo j necessidade de consider-los como produtos arbitrrios ou enigmticos da neurose. Registremos apenas uma complicao que no fora prevista: nem sempre 
era um nico acontecimento que deixava atrs de si os sintomas; para produzir tal efeito uniam-se na maioria dos casos numerosos traumas, s vezes anlogos e repetidos. 
Toda essa cadeia de recordaes patognicas tinha ento de ser reproduzida em ordem cronolgica e precisamente inversa - as ltimas em primeiro lugar e as primeiras 
por ltimo - sendo completamente impossvel chegar ao primeiro trauma, muitas vezes o mais ativo, saltando-se sobre os que ocorreram posteriormente.
         Os senhores desejam, por certo, que lhes apresente outros exemplos de produo de sintomas histricos, alm do da hidrofobia originada pela repugnncia 
diante do co que bebia no copo. Para manter-me, porm, no meu programa, devo limitar-me a poucas ilustraes. Assim, relata Breuer que as perturbaes visuais da 
doente remontavam a situaes como aquelas em que `estando a paciente com os olhos marejados de lgrimas, junto ao leito do enfermo, perguntou-lhe este, de repente, 
que horas eram, e, no podendo ela ver distintamente, forou a vista, aproximando dos olhos o relgio, cujo mostrador lhe pareceu ento muito grande - devido  macropsia 
e ao estrabismo convergente. Ou se esforou em reprimir as lgrimas para que o enfermo no as visse.' Todas as impresses patognicas provinham, alis, do tempo 
em que ela se dedicava ao pai doente. `Uma noite velava muito angustiada junto ao doente febricitante e estava em grande ansiedade porque se esperava de Viena um 
cirurgio para oper-lo. Sua me ausentara-se por algum tempo e Anna, sentada  cabeceira do doente, ps o brao direito sobre o espaldar da cadeira. Caiu em estado 
de semi-sonho e viu, como se viesse da parede, uma cobra negra que se aproximava do enfermo para mord-lo. ( muito provvel que no campo situado atrs da casa algumas 
cobras tivessem de fato aparecido, assustando anteriormente a moa e fornecendo agora o material de alucinao.) Ela quis afastar o ofdio, mas estava como que paralisada; 
o brao direito, que pendia no espaldar, achava-se "adormecido", insensvel e partico, e, quando ela o contemplou, transformaram-se os dedos em cobrinhas cujas 
cabeas eram caveiras (as unhas). Provavelmente procurou afugentar a cobra com a mo direita paralisada e por isso a anestesia e a paralisia da mesma se associaram 
com a alucinao da serpente. Quando esta desapareceu, aterrorizada, quis rezar, mas no achou palavras em idioma algum, at que, lembrando-se duma poesia infantil 
em ingls, pode pensar e rezar nessa lngua. Com a reconstituio dessa cena durante a hipnose foi removida a paralisia espstica do brao direito, que existia desde 
o comeo da molstia, e teve fim o tratamento.
         Quando, alguns anos mais tarde, comecei a empregar nos meus prprios doentes o mtodo semitico e teraputico de Breuer, fiz experincias que concordam 
com as dele. Numa senhora de cerca de quarenta anos existia um tic (tique) sob a forma de um especial estalar da lngua, que se produzia quando a paciente se achava 
excitada e mesmo sem causa perceptvel. Originara-se esse tique em duas ocasies nas quais, sendo desgnio dela no fazer nenhum rumor, o silncio foi rompido contra 
sua vontade justamente por esse estalido. Uma vez, foi quando com grande trabalho conseguira finalmente fazer adormecer seu filhinho doente, e desejava, no ntimo, 
ficar quieta para o no despertar; outra vez, quando numa viagem de carro com os dois filhos, por ocasio de uma tempestade, assustaram-se os cavalos e ela cuidadosamente 
quisera evitar qualquer rudo para que os animais no se espantassem ainda mais. Dou esse esse exemplo dentre muitos outros que se acham consignados nos Studies 
on Hysteria (Estudos Sobre a Histeria).
         Senhoras e Senhores. Se me permitem uma generalizao - inevitvel numa exposio to breve - podemos sintetizar os conhecimentos at agora adquiridos na 
seguinte frmula: os histricos sofrem de reminiscncias. Seus sintomas so resduos e smbolos mnmicos de experincias especiais (traumticas). Uma comparao 
com outros smbolos mnmicos de gnero diferente talvez nos permita compreender melhor esse simbolismo. Os monumentos com que ornamos nossas cidades so tambm smbolos 
dessa ordem. Passeando em Londres, vero, diante de uma das maiores estaes da cidade, uma coluna gtica ricamente ornamentada - a Charing Cross. No sculo XIII, 
um dos velhos reis plantagenetas, que fez transportar para Westminster os restos mortais de sua querida esposa e rainha Eleanor, erigiu cruzes gticas nos pontos 
em que havia pousado o esquife. Charing Cross  o ltimo desses monumentos destinados a perpetuar a memria do cortejo fnebre. Em outro ponto da cidade, no muito 
distante da London Bridge, vero uma coluna moderna e muito alta, chamada simplesmente `The Monument', cujo fim  lembrar o grande incndio que em 1666 irrompeu 
ali perto e destruiu boa parte da cidade. Tanto quanto se justifique a comparao, esses monumentos so tambm smbolos mnmicos como os sintomas histricos. Mas 
que diriam do londrino que ainda hoje se detivesse compungido ante o monumento erigido em memria do enterro da rainha Eleanor, em vez de tratar de seus negcios 
com a pressa exigida pelas modernas condies de trabalho, ou de pensar satisfeito na jovem rainha de seu corao? Ou de outro que, em face do `Monument' chorasse 
a incinerao da cidade querida, reconstruda depois com tanto brilho? Como esses londrinos pouco prticos, procedem, entretanto, os histricos e neurticos: no 
s recordam acontecimentos dolorosos que se deram h muito tempo, como ainda se prendem a eles emocionalmente; no se desembaraam do passado e alheiam-se por isso 
da realidade e do presente. Essa fixao da vida psquica aos traumas patognicos  um dos caracteres mais importantes da neurose e dos que tm maior significao 
prtica.
         
         Desde j aceito a objeo que provavelmente os senhores formularam refletindo sobre a histria da paciente de Breuer. Todos os traumas que influram na 
moa datavam do tempo em que ela cuidava do pai doente, e os sintomas que apresentava podem ser considerados como simples sinais mnmicos da doena e da morte dele. 
Correspondem, portanto, a uma manifestao de luto, e a fixao  memria do finado, to pouco tempo depois do traspasse, nada representa de patolgico; corresponde 
antes a um processo emocional normal. Reconheo que na paciente de Breuer a fixao aos traumas nada tem de extraordinrio. Mas em outros casos - como no tique por 
mim tratado, cujos fatores datavam mais de quinze e dez anos -,  muito ntido o carter da fixao anormal ao passado. A doente de Breuer nos haveria de oferecer 
oportunidade de apreciar a mesma fixao anormal, se no tivesse sido tratada pelo mtodo catrtico to pouco tempo depois do traumatismo e da ecloso dos sintomas.
         At aqui apenas discorremos sobre as relaes entre os sintomas histricos e os fatos da vida da doente, mas dois outros elementos da observao de Breuer 
podem tambm indicar-nos como conceber tanto o mecanismo da molstia como o do restabelecimento.
         Quanto ao primeiro,  preciso salientar que a doente de Breuer em quase todas as situaes teve de subjugar uma poderosa emoo, em vez de permitir sua 
descarga por sinais apropriados de emoo, palavras ou aes. No trivialssimo incidente relativo ao cozinho de sua dama de companhia, por considerao a esta ela 
no deixou sequer transparecer a sua profunda averso; velando  cabeceira do pai, estava sempre atenta para que o doente no lhe percebesse a ansiedade e a penosa 
depresso. Ao reproduzir posteriormente estas mesmas cenas diante do mdico, a energia afetiva ento inibida manifestava-se intensamente, como se estivera at ento 
represada. Alm disso, o sintoma - resduo desta cena - atingia a mxima intensidade quando durante o tratamento ia-se chegando  sua causa, para desaparecer completamente 
quando esta se aclarava inteiramente. Por outro lado, pode-se verificar que era intil recordar a cena diante do mdico se, por qualquer razo, isto se dava sem 
exteriorizao afetiva. Era pois a sorte dessas emoes, que podemos imaginar como grandezas variveis o que regulava tanto a doena como a cura. Tinha-se de admitir 
que a doena se instalava porque a emoo desenvolvida nas situaes patognicas no podia ter exteriorizao normal; e que a essncia da molstia consistia na atual 
utilizao anormal das emoes `enlatadas'. Em parte ficavam estas como carga contnua da vida psquica e fonte permanente de excitao para a mesma; em parte se 
desviavam para inslitas inervaes e inibies somticas, que se apresentavam como os sintomas fsicos do caso. Para este ltimo mecanismo propusemos o nome de 
`converso histrica'. Demais, uma certa parte de nossas excitaes psquicas  conduzida normalmente para a inervao somtica, constituindo aquilo que conhecemos 
por `expresso das emoes'. A converso histrica exagera ento essa parte da descarga de um processo mental catexizado emocionalmente; ela representa uma expresso 
mais intensa das emoes, conduzida por nova via. Quando uma corrente de gua se escoa por dois canais, num deles o lquido se elevar, logo que no outro se interponha 
um obstculo. Como vem, estamos quase chegando a uma teoria puramente psicolgica da histeria, onde assinalamos o primeiro lugar para os processos afetivos.
         Uma segunda observao de Breuer obriga-nos agora a atribuir grande significao aos estados de conscincia para a caracterstica dos fatos mrbidos. A 
doente de Breuer exibia, ao lado de seu estado normal, vrios outros de `absence', confuso e alteraes do carter. Em estado normal ela ignorava totalmente as 
cenas patognicas ou pelo menos havia rompido a conexo patognica. Sob hipnose era possvel, depois de considervel esforo, trazer tais cenas  memria, e por 
este trabalho de evocao os sintomas eram removidos. Ficaramos em grande perplexidade para interpretar esse fato se a experincia do hipnotismo j no nos tivesse 
indicado o caminho. Pelo estudo dos fenmenos hipnticos tornou-se habitual a concepo, a princpio estranhvel, de que num mesmo indivduo so possveis vrios 
agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes entre si, sem que um `nada saiba' do outro, e que podem se alternar entre si em sua emerso  conscincia. 
Casos destes, tambm ocasionalmente, aparecem de forma espontnea, sendo ento descritos como exemplos de `double consciente'. Quando nessa diviso da personalidade 
a conscincia fica constantemente ligada a um desses dois estados, chama-se esse o estado mental `conscience'e o que dela permanece separado o `inconsciente'. Nos 
conhecidos fenmenos da chamada `sugesto ps-hipntica', em que uma ordem dada durante a hipnose  depois, no estado normal, imperiosamente cumprida, tem-se um 
esplndido modelo das influncias que o estado inconsciente pode exercer no consciente, modelo esse que permite sem dvida compreender o que ocorre na manifestao 
da histeria. Breuer resolveu admitir que os sintomas histricos apareciam em estados mentais particulares que chamava `hipnides'. As excitaes durante esses estados 
hipnides tornam-se facilmente patognicas porque no encontram neles as condies para a descarga normal do processo de excitao. Origina-se ento, do processo 
de excitao, um produto anormal - o sintoma - que, como corpo estranho, se insinua no estado normal, escapando a este, por isso, o conhecimento da situao patognica 
hipnide. Onde existe um sintoma, existe tambm uma amnsia, uma lacuna da memria, cujo preenchimento suprime as condies que conduzem  produo do sintoma.
         Receio que esta parte de minha exposio no lhes parea muito clara. Os presentes devem, contudo, ser indulgentes; trata-se de concepes novas e difceis 
que talvez no possam fazer-se muito mais claras, prova de que nossos conhecimentos ainda no progrediram muito. A teoria de Breuer, dos estados hipnides, tornou-se 
alis embaraante e suprflua, e foi abandonada pela psicanlise moderna. Mais tarde me ouviro falar, nem que seja sucintamente, das influncias e processos que 
era mister descobrir atrs das fronteiras dos estados hipnides, por Breuer fixadas. Ho de ter tido tambm a impresso, sem dvida justa, de que a pesquisa de Breuer 
s lhes pode dar uma teoria muito incompleta e uma explicao insuficiente dos fenmenos observados; porm as teorias completas no caem do cu e com toda a razo 
desconfiaro se algum lhes apresentar, logo no incio de suas observaes, uma teoria sem falhas, otimamente rematada. Tal teoria certamente s poder ser filha 
de sua especulao e nunca o fruto da pesquisa imparcial e desprevenida da realidade.
         
         SEGUNDA LIO
         
         SENHORAS E SENHORES, - Quase ao mesmo tempo em que Breuer praticava a talking cure (cura de conversao) com sua paciente, comeava o grande Charcot, em 
Paris, com as doentes histricas da Salptrire, as investigaes de onde havia de surgir nova concepo da enfermidade. Estes resultados no podiam, naquela ocasio, 
ser conhecidos em Viena. Quando, porm, cerca de dez anos mais tarde, Breuer e eu publicvamos nossa `Preliminary Communication' (Comunicao Preliminar) sobre o 
mecanismo psquico dos fenmenos histricos, relacionada com o tratamento catrtico da primeira doente de Breuer [1893a], j nos achvamos de todo sob a influncia 
das pesquisas de Charcot. A nosso ver, os acontecimentos patognicos de nossos doentes, isto , os traumas psquicos, eram equivalentes dos traumas fsicos cuja 
influncia nas paralisias histricas fora precisada por Charcot; e a hiptese dos estados hipnides de Breuer nada mais  que o reflexo da reproduo artificial 
daquelas paralisias traumticas, que Charcot obtivera durante a hipnose.
         O grande observador francs, de quem fui discpulo em 1885 e 1886, no era propenso s concepes psicolgicas. Foi seu discpulo Pierre Janet que tentou 
penetrar mais intimamente os processos psquicos particulares da histeria, e ns seguimos-lhes o exemplo, tomando a diviso da mente e a dissociao da personalidade 
como ponto central de nossa teoria. Segundo a de Janet, que leva em grande conta as idias dominantes na Frana sobre o papel da hereditariedade e da degenerao, 
a histeria  uma forma de alterao degenarativa do sistema nervoso, que se manifesta pela fraqueza congnita do poder de sntese psquica. Os pacientes histricos 
seriam, desde o princpio, incapazes de manter como um todo a multiplicidade dos processos mentais, e da a dissociao psquica. Se me for permitida uma comparao 
trivial mais precisa, direi que o paciente histrico de Janet lembra uma pobre mulher que saiu a fazer compras e volta carregada de pacotes. No podendo s com dois 
braos e dez dedos conter toda a pilha, cai-lhe primeiro um embrulho; ao inclinar-se para levant-lo, cai-lhe outro, e assim sucessivamente. Contrariando, porm, 
esta suposta fraqueza mental dos pacientes histricos, podem observar-se neles, alm dos fenmenos de capacidade diminuda, outros, por assim dizer compensadores, 
de exaltao parcial da eficincia. Durante o tempo em que a doente de Breuer esquecera a lngua materna e outros idiomas exceto o ingls, era tal a facilidade com 
que falava este ltimo, que chegava a ponto de ser capaz, diante de um livro alemo, de traduzi-lo  primeira vista, perfeita e corretamente.
         
         Quando eu, mais tarde, prosseguia sozinho as pesquisas iniciadas por Breuer, fui levado a outro ponto de vista a respeito da dissociao histrica (a diviso 
da conscincia). Era fatal essa divergncia, alis decisiva para o resultado futuro, visto que eu no partia, como Janet, de experincias de laboratrio e sim do 
trabalho teraputico.
         O que sobretudo me impelia era a necessidade prtica. O procedimento catrtico, como Breuer o praticava, exigia previamente a hipnose profunda do doente, 
pois s no estado hipntico  que tinha este o conhecimento das ligaes patognicas que em condies normais lhe escapavam. Tornou-se-me logo enfadonho o hipnotismo, 
como recurso incerto e algo mstico; e quando verifiquei que apesar de todos os esforos no conseguia hipnotizar seno parte de meus doentes, decidi abandon-lo, 
tornando o procedimento catrtico independente dele. Como no podia modificar  vontade o estado psquico dos doentes, procurei agir mantendo-os em estado normal. 
Parecia isto a princpio empresa insensata e sem probabilidade de xito. Tratava-se de fazer o doente contar aquilo que ningum, nem ele mesmo, sabia. Como esperar 
consegui-lo? O auxlio me veio da recordao de uma experincia de Bernheim, singularssima e instrutiva, a que eu assistira em Nancy [em 1889]. Bernheim nos havia 
ento mostrado que as pessoas por ele submetidas ao sonambulismo hipntico e que nesse estado tinham executado atos diversos, s aparentemente perdiam a lembrana 
dos fatos ocorridos, sendo possvel despertar nelas tal lembrana, mesmo no estado normal. Quando interrogadas a propsito do que havia acontecido durante o sonambulismo, 
afirmavam de comeo nada saber; mas se ele no cedia, insistindo com elas e assegurando-lhes que era possvel lembrar, a recordao vinha sempre de novo  conscincia.
         Procedi do mesmo modo com os meus doentes. Quando chegvamos a um ponto em que nos afirmavam nada mais saber, assegurava-lhes que sabiam, que s precisavam 
dizer, e ia mesmo at afirmar que a recordao exata seria a que lhes apontasse no momento em que lhes pusesse a mo sobre a fronte. Dessa maneira pude, prescindindo 
do hipnotismo, conseguir que os doentes revelassem tudo quanto fosse preciso para estabelecer os liames existentes entre as cenas patognicas olvidadas e os seus 
resduos - os sintomas. Esse processo era, porm, ao cabo de algum tempo, extenuante, inadequado para uma tcnica definitiva.
         No o abandonei, contudo, sem tirar, das observaes feitas, concluses decisivas. Vi confirmado, assim, que as recordaes esquecidas no se haviam perdido. 
Jaziam em poder do doente e prontas a ressurgir em associao com os fatos ainda sabidos, mas alguma fora as detinha, obrigando-as a permanecer inconscientes. A 
existncia desta fora pode ser seguramente admitida, pois sentia-se-lhe a potncia quando, em oposio a ela, se intentava trazer  conscincia do doente as lembranas 
inconscientes. A fora que mantinha o estado mrbido fazia-se sentir como resistncia do enfermo.
         Nesta idia de resistncia alicercei ento minha concepo acerca dos processos psquicos na histeria. Para o restabelecimento do doente mostrou-se indispensvel 
suprimir estas resistncias. Partindo do mecanismo da cura, podia-se formar idia muito precisa da gnese da doena. As mesmas foras que hoje, como resistncia, 
se opem a que o esquecido volte  conscincia deveriam ser as que antes tinham agido, expulsando da conscincia os acidentes patognicos correspondentes. A esse 
processo, por mim formulado, dei o nome de `represso' e julguei-o demonstrado pela presena inegvel da resistncia.
         Podia-se ainda perguntar, sem dvida, que fora era essa e quais as condies da represso, em que reconhecemos agora o mecanismo patognico da histeria. 
Um exame comparativo das situaes patognicas, conhecidas graas ao tratamento catrtico, permitia dar a conveniente resposta. Tratava-se em todos os casos do aparecimento 
de um desejo violento mas em contraste com os demais desejos do indivduo e incompatvel com as aspiraes morais e estticas da prpria personalidade. Produzia-se 
um rpido conflito e o desfecho desta luta interna era sucumbir  represso a idia que aparecia na conscincia trazendo em si o desejo inconcilivel, sendo a mesma 
expulsa da conscincia e esquecida, juntamente com as respectivas lembranas. Era, portanto, a incompatibilidade entre a idia e o ego do doente, o motivo da represso; 
as aspiraes individuais, ticas e outras, eram as foras repressivas. A aceitao do impulso desejoso incompatvel ou o prolongamento do conflito teriam despertado 
intenso desprazer; a represso evitava o desprazer, revelando-se desse modo um meio de proteo da personalidade psquica.
         Dos muitos casos por mim observados quero relatar-lhes um apenas, no qual so patentes os aspectos determinantes e a vantagem da represso. Para no me 
afastar do meu propsito, sou forado a resumir esta histria clnica, deixando de lado importantes hipteses. A paciente era uma jovem que perdera recentemente 
o pai, depois de tomar parte, carinhosamente, nos cuidados ao enfermo - situao anloga  da doente de Breuer. Nascera, quando a irm mais velha se casou, uma simpatia 
particular para o novo cunhado, que se mascarava por disfarce de ternura familiar. Esta irm adoeceu logo depois e veio a falecer durante a ausncia da minha doente 
e de sua me. Estas foram chamadas urgentemente, sem notcia completa do doloroso acontecimento. Quando a moa chegou ao leito da morta, correu-lhe na mente, por 
um rpido instante, uma idia mais ou menos assim: `ele agora est livre, pode desposar-me.' -nos lcito admitir como certo que esta idia, denunciando-lhe  conscincia 
o intenso amor que sem o saber tinha ao cunhado, foi logo entregue  represso pelos prprios sentimentos revoltados. A jovem adoeceu com graves sintomas histricos 
e quando comecei a trat-la tinha esquecido no s aquela cena junto ao leito da irm, como tambm o concomitante sofrimento indigno e egosta. Mas recordou-se de 
tudo durante o tratamento, reproduziu o incidente patognico com sinais de intensa emoo, e curou-se.
         Talvez possa ilustrar o processo de represso e a necessria relao deste com a resistncia, mediante uma comparao grosseira, tirada de nossa prpria 
situao neste recinto. Imaginem que nesta sala e neste auditrio, cujo silncio e cuja ateno eu no saberia louvar suficientemente, se acha no entanto um indivduo 
comportando-se de modo inconveniente, perturbando-nos com risotas, conversas e batidas de p, desviando-me a ateno de minha incumbncia. Declaro no poder continuar 
assim a exposio; diante disso alguns homens vigorosos dentre os presentes se levantam, e aps ligeira luta pem o indivduo fora da porta. Ele est agora `reprimido' 
e posso continuar minha exposio. Para que, porm, se no repita o incmodo se o elemento perturbador tentar penetrar novamente na sala, os cavalheiros que me satisfizeram 
a vontade levam as respectivas cadeiras para perto da porta e, consumada a represso, se postam como `resistncias'. Se traduzirmos agora os dois lugares, sala e 
vestbulo, para a psique, como `consciente' e `inconsciente', os senhores tero uma imagem mais ou menos perfeita do processo de represso.
         Os senhores podem ver desde logo onde est a diferena entre nossa concepo e a de Janet. No atribumos a diviso psquica  incapacidade inata para a 
sntese da parte do aparelho psquico, mas explicamo-lo dinamicamente pelo conflito de foras mentais contrrias, reconhecendo nele o resultado de uma luta ativa 
da parte dos dois agrupamentos psquicos entre si. De nossa concepo surgem novos problemas, em grande nmero. Os conflitos psquicos so excessivamente freqentes; 
observa-se com muita regularidade o esforo do eu para se defender de recordaes penosas, sem que isso produza a diviso psquica.  foroso, portanto, admitir 
que outras condies so tambm necessrias para que do conflito resulte a dissociao. Concordo de boa-vontade que com a hiptese da represso, estamos no no remate, 
mas antes no limiar de uma teoria psicolgica; s passo a passo podemos avanar, esperando que um trabalho posterior mais aprofundado aperfeioe os conhecimentos.
         Os presentes devem abster-se de examinar o caso da doente de Breuer sob o ponto de vista da represso: essa histria clnica no se presta para isso porque 
foi obtida sob o influxo do hipnotismo. S prescindido deste ltimo podero perceber a resistncia e a represso, e formar idia exata do processo patognico real. 
A hipnose encobre a resistncia, deixando livre e acessvel um determinado setor psquico, em cujas fronteiras, porm, acumula as resistncias, criando para o resto 
uma barreira intransponvel.
         O que de mais importante nos proporcionou a observao de Breuer foi esclarecer as relaes dos sintomas com as experincias patognicas ou traumas psquicos, 
resultado que no devemos deixar de focalizar agora sob o ponto de vista da teoria da represso.  primeira vista, com efeito, no se percebe como, partindo da represso, 
se pode chegar  formao dos sintomas. Em lugar de trazer uma complicada deduo terica, prefiro retornar  comparao que h pouco nos serviu. Suponhamos que 
com a expulso do perturbador e com a guarda  porta no terminou o incidente. Pode muito bem ser que o sujeito, irritado e sem nenhuma considerao, continue a 
nos dar que fazer. Ele j no est aqui conosco; ficamos livres de sua presena, dos motejos, dos apartes, mas a expulso foi por assim dizer intil, pois l de 
fora ele d um espetculo insuportvel, e com berros e murros na porta nos perturba a conferncia mais do que antes. Em tais conjunturas poderamos felicitar-nos 
se o nosso honrado presidente, Dr. Stanley Hall, quisesse assumir o papel de medianeiro e pacificador. Iria parlamentar com o nosso intratvel companheiro e voltaria 
pedindo-nos que o recebssemos de novo, garantindo-nos um comportamento conveniente daqui por diante. Graas  autoridade do Dr. Hall, condescendemos em desfazer 
a represso, voltando a paz e o sossego. Eis uma representao muito apropriada da misso que cabe ao mdico na teraputica psicanaltica das neuroses.
         Agora, para diz-lo sem rebuos: chegamos  convico, pelo exame dos doentes histricos e outros neurticos, de que a represso das idias, a que o desejo 
insuportvel est apenso, malogrou. Expeliram-nas da conscincia e da lembrana; com isso os pacientes se livraram aparentemente de grande soma de dissabores. Mas 
o impulso desejoso continua a existir no inconsciente  espreita de oportunidade para se revelar, concebe a formao de um substituto do reprimido, disfarado e 
irreconhecvel, para lanar  conscincia, substituto ao qual logo se liga a mesma sensao de desprazer que se julgava evitada pela represso. Esta substituio 
da idia reprimida - o sintoma -  protegida contra as foras defensivas do ego e em lugar do breve conflito, comea ento um sofrimento interminvel. No sintoma, 
a par dos sinais do disfarce, podem reconhecer-se traos de semelhana com a idia primitivamente reprimida. Pelo tratamento psicanaltico desvenda-se o trajeto 
ao longo do qual se realizou a substituio, e para a recuperao  necessrio que o sintoma seja reconduzido pelo mesmo caminho at a idia reprimida.
         Uma vez restitudo  atividade mental consciente aquilo que fora reprimido - e isso pressupe que considerveis resistncias tenham sido desfeitas - o conflito 
psquico que desse modo se originara e que o doente quis evitar, alcana, orientado pelo mdico, uma soluo mais feliz do que a oferecida pela represso. H vrias 
dessas solues para rematar satisfatoriamente conflito e neurose, as quais, em determinados casos, podem combinar-se entre si. Ou a personalidade do doente se convence 
de que repelira sem razo o desejo e consente em aceit-lo total ou parcialmente, ou este mesmo desejo  dirigido para um alvo irrepreensvel e mais elevado (o que 
se chama `sublimao' do desejo), ou, finalmente, reconhece como justa a repulsa. Nesta ltima hiptese o mecanismo da represso, automtico por isso mesmo insuficiente, 
 substitudo por um julgamento de condenao com a ajuda das mais altas funes mentais do homem - o controle consciente do desejo  atingido.
         Desculpem-me se porventura no logrei apresentar-lhes mais compreensivelmente estes pontos de vista capitais do mtodo teraputico hoje denominado `psicanlise'. 
A dificuldade no est s na novidade do assunto. A natureza dos desejos incompatveis que, no obstante a represso, continuam a dar sinal de si no inconsciente, 
e os elementos determinantes subjetivos e constitucionais que devem estar presentes em qualquer pessoa antes do malogro da represso podem ocorrer e um substituto 
ou sintoma ser formado - sobre tudo isto procurarei esclarecer em algumas observaes posteriores.
         
         TERCEIRA LIO
         
         SENHORAS E SENHORES, - Nem sempre  fcil dizer a verdade, mormente quando  mister ser conciso, e por isso vejo-me obrigado a corrigir uma inexatido que 
cometi na ltima conferncia. Dizia-lhes eu que quando, posto de lado o hipnotismo, eu forava os doentes a comunicarem o que lhes viesse  mente - pois que saibam, 
apesar de tudo, aquilo que supunham ter esquecido, e a idia que lhes brotasse havia de certamente conter em si o que se procurava -, pude, com efeito, verificar 
que o primeiro pensamento surgido trazia o elemento desejado e se revelava como a continuao inadvertida da lembrana. Isto, porm, nem sempre  certo; foi por 
amor  conciso que o apresentei com essa singeleza. Na realidade, s nas primeiras vezes aconteceu que pela simples presso de minha parte exatamente o esquecido 
que buscvamos se apresentasse. Continuando a empregar o mtodo, vinham pensamentos despropositados, que no poderiam ser o procurado e que os prprios doentes repeliam 
como inexatos. J no adiantava insistncia e poder-se-ia de novo lamentar o abandono do hipnotismo.
         Neste estado de perplexidade vali-me de um pressuposto cuja exatido cientfica foi anos depois demonstrada pelo meu amigo C. G. Jung, de Zurique, e seus 
discpulos. Devo afirmar que s vezes  muito til ter um pressuposto. Eu tinha em alto conceito o rigor do determinismo dos processos mentais e no podia crer que 
uma idia concebida pelo doente com ateno concentrada fosse inteiramente espontnea, sem nenhuma relao com a representao mental esquecida e por ns procurada. 
Que no fosse idntica a esta, explicava-se satisfatoriamente pela situao psicolgica suposta. Duas foras antagnicas atuavam no doente; de um lado, o esforo 
refletido para trazer  conscincia o que jazia deslembrado no inconsciente; de outro lado a resistncia, j nossa conhecida, impedindo a passagem para o consciente 
do elemento reprimido ou dos derivados deste. Se fosse igual a zero ou insignificante a resistncia, o olvidado se tornaria consciente sem deformao. Podemos admitir 
que seja tanto maior a deformao do elemento procurado quanto mais forte a resistncia que o detiver. O pensamento que no doente vinha em lugar do desejado, tinha 
origem idntica  de um sintoma; era uma nova substituio artificial e efmera do reprimido e tanto menos semelhante a ele quanto maior a deformao que tivesse 
de sofrer sob a influncia da resistncia. Ele devia mostrar, porm, certa parecena com o procurado, em virtude da sua natureza de sintoma; e desde que a resistncia 
no fosse muito intensa, seria possvel, partindo da idia, lobrigar o oculto que se buscava. O pensamento devia comportar-se em relao ao elemento reprimido com 
uma aluso, como uma representao do mesmo por meio de palavras indiretas.
         Conhecemos, no domnio da vida psquica normal, exemplos em que situaes anlogas s que admitimos produzem resultados semelhantes.  o caso do chiste. 
O problema da tcnica psicanaltica forou-me a estudar o mecanismo da formao das pilhrias. Quero expor-lhes apenas um desses exemplos, alis uma anedota da lngua 
inglesa.
         Diz a anedota: Por uma srie de empresas duvidosas, dois comerciantes tinham conseguido reunir grandes cabedais e esforavam-se para penetrar na boa sociedade. 
Entre outros, pareceu-lhes um meio conveniente fazerem-se retratar pelo pintor mais notvel e mais careiro da cidade, cujo quadro fosse um acontecimento. Numa grande 
reunio foram inaugurados os custosssimos quadros, um ao lado do outro, e os dois proprietrios conduziram at a parede o mais influente crtico de arte a fim de 
obterem o valioso julgamento. O crtico examinou longamente o quadro, sacudiu a cabea como se achasse falta de alguma coisa e perguntou apenas, indicando o espao 
entre os dois quadros: `But where's the Saviour? (`Mas onde est o Redentor?') Vejo que todos se riem da boa pilhria; penetramos-lhes agora a significao. Os presentes 
compreendem que o crtico queria dizer: vocs so dois patifes como aqueles que ladearam o Cristo crucificado. Mas no o disse; em lugar disso exprimiu coisa que 
 primeira vista parece extraordinariamente abstrusa e fora de propsito, mas que logo depois reconhecemos como uma aluso  injria que lhe estava no ntimo, e 
que vale perfeitamente como substituto dela. No podemos esperar que numa anedota sejam encontradas todas as circunstncias que pressupomos na gnese das idias 
associadas dos nossos doentes; queremos todavia realar a identidade de motivao para a anedota e para a idia. Por que  que o nosso crtico no lhes falou claramente? 
Porque nele outras razes contrrias tambm atuavam ao lado do mpeto de diz-lo francamente, face a face. No deixa de ser perigoso desfeitear pessoas de que somos 
hspedes e que dispem de criadagem numerosa, de pulsos vigorosos. A sorte poderia ser a mesma que na conferncia anterior serviu de exemplo para a represso. Por 
tal razo o crtico atirou indiretamente a ofensa que estava ruminando, transfigurando-a numa `aluso com desabafo'. , a nosso ver, devido  mesma constelao que 
o paciente produz uma idia de substituio, mais ou menos distorcida, em lugar do elemento esquecido que procuramos.
         Senhoras e Senhores. Aceitando a proposta da Escola de Zurique (Bleuler, Jung e outros), convm dar o nome de `complexo' a um grupo de elementos ideacionais 
interdependentes, catexizados de energia afetiva. Vemos assim que partindo da ltima recordao que o doente ainda possui, em busca de um complexo reprimido, temos 
toda a probabilidade de desvend-lo, desde que o doente nos proporcione um nmero suficiente de associaes livres
         . Mandamos o doente dizer o que quiser, cnscios de que nada lhe ocorrer  mente seno aquilo que indiretamente dependa do complexo procurado. Talvez lhes 
parea muito fastidioso este processo de descobrir os elementos reprimidos, mas, asseguro-lhes,  o nico praticvel.
         No emprego desta tcnica o que ainda nos perturba  que com freqncia o doente se detm, afirmando no saber dizer mais nada, que nada mais lhe vem  idia. 
Se assim fosse, se o doente tivesse razo, o mtodo ter-se-ia revelado impraticvel. Uma observao atenta mostra, contudo, que as idias livres nunca deixam de 
aparecer.  que o doente, influenciado pela resistncia disfarada em juzos crticos sobre o valor da idia, retm-na ou de novo a afasta. Para evit-la pe-se 
previamente o doente a par do que pode ocorrer, pedindo-lhe renuncie a qualquer crtica; sem nenhuma seleo dever expor tudo que lhe vier ao pensamento, mesmo 
que lhe parea errneo, despropositado ou absurdo e, especialmente, se lhe for desagradvel a vinda dessas idias  mente. Pela observncia dessa regra garantimo-nos 
o material que nos conduz ao roteiro do complexo reprimido. 
         
         Esse material associativo que o doente rejeita como insignificante, quando em vez de estar sob a influncia do mdico est sob a da resistncia, representa 
para o psicanalista o minrio de onde com simples artifcio de interpretao h de extrair o metal precioso. Se diante de um doente quiserem os presentes ter um 
conhecimento rpido e provisrio dos complexos reprimidos, sem lhes penetrar na ordem e nas relaes, podem dispor da `experincia da associao', cuja tcnica foi 
aperfeioada por Jung (1906) e seus discpulos. Para o psicanalista este mtodo  to precioso quanto para o qumico a anlise qualitativa; prescindvel na teraputica 
dos neurticos,  indispensvel para a demonstrao objetiva dos complexos e para o estudo das psicoses, com tanto xito empreendido pela Escola de Zurique.
         No  o estudo das divagaes, quando o doente se sujeita  regras psicanalticas, o nico recurso tcnico para sondagem do inconsciente. Ao mesmo escopo 
servem dois outros processos: a interpretao de sonhos e o estudo dos lapsos e atos casuais.
         Confesso-lhes, prezados ouvintes, que estive longo tempo indeciso sobre se, em lugar desta rpida vista geral sobre todo o domnio da psicanlise, no seria 
prefervel expor-lhes minuciosamente a interpretao de sonhos. Motivo puramente subjetivo e aparentemente secundrio me deteve. Pareceu-me quase escandaloso apresentar-me 
neste pas de orientao prtica, como `onircrita', antes de mostrar-lhes qual a importncia a que pode aspirar esta velha e ridicularizada arte. A interpretao 
de sonhos  na realidade a estrada real para o conhecimento do inconsciente, a base mais segura da psicanlise.  campo onde cada trabalhador pode por si mesmo chegar 
a adquirir convico prpria, como atingir maiores aperfeioamentos. Quando me perguntam como pode uma pessoa fazer-se psicanalista, respondo que  pelo estudo dos 
prprios sonhos. Os adversrios da psicanlise, com muita habilidade, tm at agora evitado estudar de perto A Interpretao de Sonhos, ou tm oposto ao de longe 
objees superficialssimas. Se no repugna aos presentes, ao contrrio, aceitar as solues dos problemas da vida onrica, j no apresentam aos ouvintes dificuldade 
alguma as novidades trazidas pela psicanlise. 
         
         No se esqueam de que se nossas elaboraes onricas noturnas mostram de um lado a maior semelhana externa e o mais ntimo parentesco com as criaes 
da alienao mental, so, de outro lado, compatveis com a mais perfeita sade na vida desperta. No  nenhum paradoxo afirmar que quem fica admirado ante essas 
alucinaes, delrios ou mudanas de carter que podemos chamar `normais', sem procurar explic-los, no tem a menor probabilidade de compreender, seno como qualquer 
leigo, as formaes anormais dos estados psquicos patolgicos. E entre esses leigos os ouvintes podem contar atualmente, sem receio, quase todos os psiquiatras.
         Acompanhem-me agora numa rpida excurso pelo campo dos problemas do sonho. Quando acordados, costumamos tratar os sonhos com o mesmo desdm com que os 
doentes rejeitam as idias soltas despertadas pelo psicanalista. Desprezamo-los, olvidando-os em geral rpida e completamente. O nosso descaso funda-se no carter 
extico apresentado mesmo pelos sonhos que possuem clareza e nexo, e sobre a evidente absurdez e insensatez dos demais; nossa repulsa explica-se pelas tendncias 
imorais e menos pudicas que se patenteiam em muitos deles.  de todos sabido que a antigidade no compartilhou tal desapreo para com os sonhos. As camadas baixas 
do nosso povo, mesmo hoje, no esto totalmente desnorteadas na apreciao do valor dos sonhos, dos quais esperam, como os antigos, a revelao do futuro. Confesso-lhes 
que no tenho necessidade de nenhuma hiptese mstica para preencher as falhas de nossos conhecimentos atuais e por isso nunca pude descobrir nada que confirmasse 
a natureza proftica dos sonhos. Coisa muito diferente disso, embora assaz maravilhosa, se pode dizer a respeito deles.
         Em primeiro lugar, nem todos os sonhos so estranhos, incompreensveis e confusos para a pessoa que sonhou. Examinando os sonhos de criancinhas, desde um 
ano e meio de idade, verificaro que eles so extremamente simples e de fcil explicao. A criancinha sonha sempre com a realizao de desejos que o dia anterior 
lhe trouxe e que ela no satisfez. No h necessidade de arte divinatria para encontrar soluo to simples; basta saber o que se passou com a criana na vspera 
(`dia do sonho'). Estaria certamente resolvido, e de modo satisfatrio, o enigma do sonho, se o do adulto no fosse nada mais que o da criancinha: realizao de 
desejos trazidos pelo dia do sonho. E o  de fato. As dificuldades que esta soluo apresenta removem-se uma a uma, mediante a anlise minuciosa dos sonhos.
         A primeira objeo e a mais importante  a de que os sonhos dos adultos via de regra tm um contedo ininteligvel, sem nenhuma semelhana com a satisfao 
de desejos. Resposta: estes sonhos esto distorcidos, o processo psquico correspondente teria originariamente uma expresso verbal muito diversa. O contedo manifesto 
do sonho, recordado vagamente de manh e que, no obstante a espontaneidade aparente, se exprime em palavras com esforo, deve ser diferenciado dos pensamentos latentes 
do sonho que se tm de admitir como existentes no inconsciente. Esta deformao possui mecanismo idntico ao que j conhecemos desde quando examinamos a gnese dos 
sintomas histricos; e  uma prova da participao da mesma interao de foras mentais tanto na formao dos sonhos como na dos sintomas. O contedo manifesto do 
sonho  o substituto deformado para os pensamentos inconscientes do sonho. Esta deformao  obra das foras defensivas do ego, isto , das resistncias que na viglia 
impedem, de modo geral, a passagem para a conscincia, dos desejos reprimidos do inconsciente; enfraquecidas durante o sono, estas resistncias ainda so suficientemente 
fortes para s os tolerar disfarados. Quem sonha, portanto, reconhece to mal o sentido de seus sonhos, como o histrico as correlaes e a significao de seus 
sintomas.
         De que h pensamentos latentes do sonho e que entre eles e o contedo manifesto existe de fato o nexo aludido, os presentes se convencero pela anlise 
de sonhos, cuja tcnica se confunde com a da psicanlise. Pondo de lado a aparente conexo dos elementos do sonho manifesto, procuraro os senhores evocar idias 
por livre associao, partindo de cada um desses elementos e observando as regras da prtica psicanaltica. De posse deste material chegaro aos pensamentos latentes 
do sonho com a mesma perfeio com que conseguiram surpreender no doente o complexo oculto, por meio das idias sugeridas pelas associaes livres a partir dos sintomas 
e lembranas. Pelos pensamentos latentes do sonho, descobertos desse modo, pode-se ver sem mais nada como  justo equiparar o sonho dos adultos ao das crianas. 
O que agora, como verdadeiro sentido do sonho, substitui o seu contedo manifesto - e isto  sempre claramente compreensvel - liga-se s impresses da vspera e 
se patenteia como a realizao de um desejo no-satisfeito. O sonho manifesto que conhecem no adulto graas  recordao pode ento ser descrito como uma realizao 
velada de desejos reprimidos.
         Podem agora os ouvintes, por uma espcie de trabalho sinttico, examinar o processo mediante o qual os pensamentos inconscientes do sonho se disfaram no 
contedo manifesto. Esse processo, que denominamos `elaborao onrica',  digno de nosso maior interesse terico, porque em nenhuma outra circunstncia poderamos 
estudar melhor do que nele os processos psquicos, no-suspeitados, que se passam no inconsciente, ou, mais exatamente, entre dois sistemas psquicos distintos, 
como consciente e inconsciente. Entre tais processos psquicos recentemente descobertos ressaltam notavelmente o da condensao e o do deslocamento. A elaborao 
onrica  um caso especial da influncia recproca de agrupamentos mentais diversos, isto , o resultado da diviso psquica, e parece essencialmente idntico ao 
trabalho de deformao que transforma em sintomas os complexos cuja represso fracassou.
         Pela anlise dos sonhos descobriro os senhores ainda mais, com surpresa, porm do modo mais convincente possvel, o papel importantssimo e nunca imaginado 
que os fatos e impresses da tenra infncia exercem no desenvolvimento do homem. Na vida onrica a criana prolonga, por assim dizer, sua existncia no homem, conservando 
todas as peculiaridades e aspiraes, mesmo as que se tornam mais tarde inteis. Com fora irresistvel apresentar-se-lhes-o os processos de desenvolvimento, represses, 
sublimaes e formaes reativas, de onde saiu, da criana com to diferentes disposies, o chamado homem normal - esteio e em parte vtima da civilizao to penosamente 
alcanada.
         Quero ainda fazer notar que pela anlise de sonhos tambm pudemos descobrir que o inconsciente se serve, especialmente para a representao de complexos 
sexuais, de certo simbolismo, em parte varivel individualmente e em parte tipicamente fixo, que parece coincidir com o que conjecturamos por detrs dos nossos mitos 
e lendas. No seria impossvel que essas ltimas criaes populares recebessem, portanto, do sonho, a sua explicao.
         Impende-nos adverti-los finalmente de que no se deixem desorientar pela objeo de que aparecimento de pesadelos contradiz o nosso modo de entender o sonho 
como satisfao de desejos. Alm de que  necessrio interpretar os pesadelos antes de sobre eles poder firmar qualquer juzo, pode dizer-se de modo geral que a 
ansiedade que os acompanha no depende assim to simplesmente do contedo onirco, como muitos imaginam por ignorar as condies da ansiedade neurtica. A ansiedade 
 uma das reaes do ego contra desejos reprimidos violentos, e da perfeitamente explicvel a presena dela no sonho, quando a elaborao deste se ps excessivamente 
a servio da satisfao daqueles desejos reprimidos.
         Como vem, o estudo dos sonhos j estaria em si justificado, pelo fato de que proporciona concluses sobre coisas de que por outros meios dificilmente chegaramos 
a ter noo. Foi todavia no decorrer do tratamento psicanaltico dos neurticos que chegamos at ele. Pelo que at agora dissemos podem compreender facilmente que 
a interpretao de sonhos, quando no a estorvam em excesso as resistncias do doente, leva ao conhecimento dos desejos ocultos e reprimidos, bem como dos exemplos 
entretidos por este. Posso agora tratar do terceiro grupo de fenmenos psquicos cujo estudo se tornou recurso tcnico da psicanlise.
         Os fenmenos em questo so as pequenas falhas comuns aos indivduos normais e aos neurticos, fatos aos quais no costumamos ligar importncia - o esquecimento 
de coisas que deviam saber e que s vezes sabem realmente (por exemplo a fuga temporria dos nomes prprios), os lapsos de linguagem, to freqentes at mesmo conosco, 
na escrita ou na leitura em voz alta; atrapalhaes no executar qualquer coisa, perda ou quebra de objetos etc., bagatelas de cujo determinismo psicolgico de ordinrio 
no se cuida, que passam sem reparo como casualidades, como resultado de distraes, desatenes e outras condies semelhantes. Juntam-se ainda os atos e gestos 
que as pessoas executam sem perceber e, sobretudo, sem lhes atribuir importncia mental, como sejam trautear melodias, brincar com objetos, com partes da roupa ou 
do prprio corpo etc. Essas coisinhas, os atos falhos, como os sintomticos e fortuitos, no so assim to destitudas de valor como por uma espcie de acordo tcito 
e hbito admitir. So extraordinariamente significativas e quase sempre de interpretao fcil e segura, tendo-se em vista a situao em que ocorrem; verifica-se 
que mais uma vez exprimem impulsos e intenes que devem ficar ocultos  prpria conscincia, ou emanam justamente dos desejos reprimidos e dos complexos que, como 
j sabemos, so criadores dos sintomas e formadores dos sonhos. Fazem jus  mesma considerao que os sintomas, e o seu exame, tanto quanto o dos sonhos, pode levar 
ao descobrimento da parte oculta da mente. Por elas o homem trai, em regra, os mais ntimos segredos. Se se produzem com grande facilidade e freqncia, at em indivduos 
normais, cujos desejos inconscientes esto reprimidos de modo eficaz, isso se explica pela futilidade e inverossimilhana das mesmas. So porm do mais alto valor 
terico: testemunham a existncia da represso e da substituio mesmo na sade perfeita.
         Notaro desde logo que o psicanalista se distingue pela rigorosa f no determinismo da vida mental. Para ele no existe nada insignificante, arbitrrio 
ou casual nas manifestaes psquicas. Antev um motivo suficiente em toda parte onde habitualmente ningum pensa nisso; est at disposto a aceitar causas mltiplas 
para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade causal, que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma nica causa psquica.
         
         Se os ouvintes reunirem os meios que esto ao nosso alcance para descobrimento do que na vida mental jaz escondido, deslembrado e reprimido - o estudo das 
idias livremente associadas pelos pacientes, seus sonhos, falhas e aes sintomticas; se ainda juntarem a tudo isso o exame de outros fenmenos surgidos no decurso 
do tratamento psicanaltico e a respeito dos quais farei algumas observaes quando tratar da `transferncia' - chegaro comigo  concluso de que a nossa tcnica 
j  suficientemente capaz de realizar aquilo que se props: conduzir  conscincia o material psquico patognico, dando fim desse modo aos padecimentos ocasionados 
pela produo dos sintomas de substituio. O fato de enriquecermos e aprofundarmos durante o tratamento os nossos conhecimentos sobre a vida mental, dos sos e 
dos doentes, deve ser considerado apenas como estmulo especial a este trabalho e uma de suas vantagens.
         No sei se ficaram com a impresso de que a tcnica, atravs de cujo arsenal os conduzi, apresenta dificuldades especiais. Para mim, ela amolda-se perfeitamente 
aos seus fins. Mas no  menos certo tambm que no constitui prenda inata; tem de ser aprendida, como a histolgica ou a cirrgica. Talvez se espantem em saber 
que na Europa ouvi uma srie de juzos relativos  psicanlise expendidos por pessoas jejunas a respeito desta tcnica, que elas no exercitam, as quais pessoas 
ainda por ironia nos exigem lhes demonstremos a exatido de nossos resultados. No meio de tais opositores encontram-se sem dvida homens familiarizados com o raciocnio 
cientfico em outras matrias, incapazes de contestar, por exemplo, o resultado dum exame microscpico, s porque no o podem confirmar pela inspeo do preparado 
anatmico com a vista desarmada, e que no emitiriam parecer algum antes de minuciosa observao ao microscpio. Mas no tocante  psicanlise as circunstncias so 
realmente desfavorveis a um imediato assentimento. Quer a psicanlise tornar conscientemente reconhecido aquilo que est reprimido na vida mental, e todo aquele 
que a julga  homem com as mesmas represses, mantidas talvez  custa de penosos sacrifcios. Neles devem levantar-se, pois, as mesmas resistncias, como nos doentes, 
e estas se revestem facilmente das roupagens da impugnao intelectual, suscitando argumentos semelhantes aos que desfazemos nos doentes com a regra psicanaltica 
fundamental. Como nos doentes, podemos reconhecer em nossos adversrios notvel influxo afetivo na faculdade de julgamento, com prejuzo desta. O orgulho da conscincia 
que chega por exemplo a desprezar os sonhos pertence ao forte aparelhamento disposto em ns de modo geral contra a invaso dos complexos inconscientes. Esta  a 
razo por que to dificultoso  como vencer os homens da realidade do inconsciente e dar-lhes a conhecer qualquer novidade em contradio com seu conhecimento consciente.
         
         QUARTA LIO
         
         SENHORAS E SENHORES, - Desejam os ouvintes saber agora o que, com auxlio dos meios tcnicos descritos, logramos averiguar a respeito dos complexos patognicos 
e dos desejos reprimidos dos neurticos.
         Mas, antes de tudo, uma coisa: o exame psicanaltico relaciona com uma regularidade verdadeiramente surpreendente os sintomas mrbidos a impresses da vida 
ertica do doente; mostra-nos que os desejos patognicos so da natureza dos componentes instintivos erticos: e obriga-nos a admitir que as perturbaes do erotismo 
tm a maior importncia entre as influncias que levam  molstia, tanto num como noutro sexo.
         Bem sei que no se acredita de boa mente nesta minha afirmao. Mesmo os investigadores que me seguem solcitos os trabalhos psicolgicos so inclinados 
a julgar que eu exagero a participao etiolgica do fator sexual, e vm a mim perguntando por que outras excitaes mentais no ho de dar tambm motivo aos fenmenos 
da represso e formao de substitutivos. Por ora s lhes posso responder: no sei. Mas a experincia mostra que elas no tm a mesma importncia. Quando muito, 
reforam a ao do elemento sexual, mas nunca podem substitu-lo. Esta ordem de coisas no a determinei mais ou menos teoricamente. Quando, em 1895, publiquei com 
o Dr. J. Breuer os Estudos sobre a Histeria, ainda no tinha esta opinio; vi-me forado a adot-la quando as minhas experincias se tornaram mais numerosas e penetraram 
mais intimamente o problema. Senhores! Acham-se entre os presentes alguns de meus adeptos e amigos mais chegados, que viajaram comigo at Worcester. Se os interrogarem, 
ouviro que todos eles a princpio recebiam com a maior descrena a afirmao da importncia decisiva da etiologia sexual, at que pelo exerccio analtico pessoal 
foram obrigados a aceitar como sua prpria aquela afirmao.
         O modo de proceder dos doentes em nada facilita o reconhecimento da justeza da tese a que estamos aludindo. Em vez de nos fornecerem prontamente informaes 
sobre a sua vida sexual, procuram por todos os meios ocult-la. Em matria sexual os homens so em geral insinceros. No expem a sua sexualidade francamente; saem 
recobertos de espesso manto, tecido de mentiras, para se resguardarem, como se reinasse um temporal terrvel no mundo da sexualidade. E no deixam de ter razo; 
o sol e o ar em nosso mundo civilizado no so realmente favorveis  atividade sexual. Com efeito, nenhum de ns pode manifestar o seu erotismo francamente  turba. 
Quando porm seus pacientes tiverem percebido que durante o tratamento devem estar  vontade, se despojaro daquele manto de mentira, e s ento estaro os presentes 
em condies de formar juzo a respeito deste problema. Infelizmente, os mdicos no desfrutam nenhum privilgio especial sobre os demais homens no tocante ao comportamento 
na esfera da vida sexual, e muitos deles esto dominados por aquela mescla de lubricidade e afetado recato, que  o que governa a maioria dos `povos civilizados' 
nas coisas da sexualidade.
         Deixem-me prosseguir no relato das nossas contestaes. Em outra srie de casos o exame psicanaltico vem sem dvida ligar os sintomas no a fatos sexuais 
seno a acontecimentos traumticos comuns. Mas, por outra circunstncia, esta diferenciao perde todo valor. O trabalho de anlise necessrio para o esclarecimento 
completo e cura definitiva de um caso mrbido no se detm nos episdios contemporneos da doena; retrocede sempre, em qualquer hiptese, at a puberdade e a mais 
remota infncia do doente, para s a topar as impresses e acontecimentos determinantes da doena ulterior. S os fatos da infncia explicam a sensibilidade aos 
traumatismos futuros e s com o descobrimento desses restos de lembranas, quase regularmente olvidados, e com a volta deles  conscincia,  que adquirimos o poder 
de afastar os sintomas. Chegamos aqui  mesma concluso do exame de sonhos, isto , que foram os desejos duradouros e reprimidos da infncia que emprestaram  formao 
dos sintomas a fora sem a qual teria decorrido normalmente a reao contra traumatismos posteriores. Estes potentes desejos da infncia ho de ser reconhecidos, 
porm, em sua absoluta generalidade, como sexuais.
         Mas, agora sim, estou realmente certo do espanto dos ouvintes. `Existe ento - perguntaro - uma sexualidade infantil?' `A infncia no , ao contrrio, 
o perodo da vida marcado pela ausncia do instinto sexual?' No, meus senhores. No  verdade certamente que o instinto sexual, na puberdade, entre o indivduo 
como, segundo o Evangelho, os demnios nos porcos. A criana possui, desde o princpio, o instinto e as atividades sexuais. Ela os traz consigo para o mundo, e deles 
provm, atravs de uma evoluo rica de etapas, a chamada sexualidade normal do adulto. No so difceis de observar as manifestaes da atividade sexual infantil; 
ao contrrio, para deix-las passar desapercebidas ou incompreendidas  que  preciso certa arte.
         Por um feliz acaso acho-me em condies de chamar dentre os presentes uma testemunha em favor de minhas afirmaes. Eis aqui o trabalho do Dr. Sanford Bell, 
impresso em 1902, em The American Journal of Psychology. O autor  um "Fellow" da Clark University, o mesmo instituto em cujo seio nos achamos no atual instante. 
Nesse trabalho, intitulado `A Preliminary Study of the Emotion of Love Between the Sexes', publicado trs anos antes dos meus Three Essays on the Theory of Sexuality 
[1905d], (Trs Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade), escreve o autor, tal qual h pouco lhes dizia: `A emoo do amor sexual... no aparece pela primeira vez no 
perodo da adolescncia, como se tem pensado.' Procedendo ` americana', como diramos na Europa, reuniu durante 15 anos nada menos de 2.500 observaes positivas, 
das quais 800 so prprias. Dos sinais por que se revelam esses temperamentos namoradios, diz ele: `O esprito mais desprevenido, observando estas manifestaes 
em centenas de casais de crianas, no poder deixar de atribuir-lhes uma origem sexual. O mais rigoroso esprito satisfaz-se quando a estas observaes se juntam 
as confisses dos que em criana sentiram a emoo intensamente e cujas recordaes daquela poca so relativamente ntidas.' Aqueles dentre os ouvintes que no 
queriam acreditar na sexualidade infantil tero o maior assombro ouvindo que entre estas crianas, to cedo enamoradas, no poucas se encontram na tenra idade de 
trs, quatro ou cinco anos.
         No me admiraria se estas observaes de seu compatriota lhes merecessem mais crdito que as minhas. A mim mesmo foi-me dado obter recentemente um quadro 
mais ou menos completo das manifestaes instintivas somticas e das produes mentais num perodo precoce da vida amorosa infantil, graas  anlise empreendida, 
com todas as regras, pelo prprio pai de um menino de cinco anos atacado de ansiedade. Devo lembrar-lhes que meu amigo Dr. C. G. Jung h poucas horas, nesta mesma 
sala, lhes exps a observao de uma menina ainda mais nova, que pelo mesmo motivo do meu paciente (nascimento de um irmozinho) evidenciava quase os mesmos impulsos 
sensuais e idntica formao de desejos e complexos. [Cf. Jung, 1910.] No duvido, pois, de que os presentes se acabaro familiarizando com a idia, de incio to 
extica, da sexualidade infantil; memore-se o exemplo notvel do psiquiatra E. Bleuler, de Zurique, que h poucos anos dizia publicamente `que no compreendia minha 
teoria sexual' mas que de ento para c, pde, mediante observaes prprias, confirmar a sexualidade infantil em toda a extenso. (Cf. Bleuler, 1908.)
          faclima de explicar a razo por que a maioria dos homens, observadores mdicos e outros, nada querem saber da vida sexual da criana. Sob o peso da educao 
e da civilizao, esqueceram a atividade sexual infantil e no desejam agora relembrar aquilo que j estava reprimido. Se quisessem iniciar o exame pela auto-anlise, 
com uma reviso e interpretao das prprias recordaes infantis, haviam de chegar a convico muito diferente.
         Deixem que se dissipem as dvidas e examinemos juntos a sexualidade infantil, desde os primeiros anos. O instinto sexual se nos apresenta muito complexo, 
podendo ser desmembrado em vrios componentes de origem diversa. Antes de tudo,  independente da funo procriadora a cujo servio mais tarde se h de pr. Serve 
para dar ensejo a diversas espcies de sensaes agradveis que ns, pelas suas analogias e conexes, englobamos como prazer sexual. A principal fonte de prazer 
sexual infantil  a excitao apropriada de determinadas partes do corpo particularmente excitveis, alm dos rgos genitais, como sejam os orifcios da boca, nus 
e uretra e tambm a pele e outras superfcies sensoriais. Como nesta primeira fase da vida sexual infantil a satisfao  alcanada no prprio corpo, excludo qualquer 
objeto estranho, d-se-lhe o nome, segundo o termo introduzido por Havelock Ellis, de auto-erotismo. Zonas ergenas denominam-se os lugares do corpo que proporcionam 
o prazer sexual. O prazer de chupar o dedo, o gozo da suco,  um bom exemplo de tal satisfao auto-ertica partida de uma zona ergena. Quem primeiro observou 
cientificamente esse fenmeno, o pediatra Lindner (1879), de Budapeste, j o tinha interpretado como satisfao dessa natureza e descrito exaustivamente a transio 
para outras formas mais elevadas de atividade sexual. Outra satisfao da mesma ordem, nessa idade,  a excitao masturbatria dos rgos genitais, fenmeno que 
to grande importncia conserva para o resto da vida e que muitos indivduos no conseguem suplantar jamais. Ao lado dessas e outras atividades auto-erticas revelam-se, 
muito cedo, na criana, aqueles componentes instintivos do gozo sexual ou, como preferimos dizer, da libido, que pressupem como objeto uma pessoa estranha. Estes 
instintos aparecem em grupos de dois, um oposto ao outro, ativo e passivo: cito-lhes como mais notveis representantes deste grupo o prazer de causar sofrimento 
(sadismo) com o seu reverso passivo (masoquismo) e o prazer visual, ativo ou passivo. Do gozo visual ativo desenvolve-se mais tarde a sede de saber, como do passivo 
o pendor para as representaes artsticas e teatrais. Outras atividades sexuais infantis j incidem na `escolha do objeto', onde o principal elemento  uma pessoa 
estranha, a qual deve primordialmente sua importncia a consideraes relativas ao instinto de conservao. Mas a diferena de sexo ainda no tem neste perodo infantil 
papel decisivo; pode-se, pois, atribuir a toda criana, sem injustia, uma parcial disposio homossexual. Esta vida sexual infantil desordenada, rica mas dissociada, 
em que cada impulso isolado se entrega  conquista do gozo independentemente dos demais, experimenta uma condensao e organizao em duas principais direes, de 
tal modo que ao fim da puberdade o carter sexual definitivo est completamente formado. De um lado subordinam-se todos os impulsos ao domnio da zona genital, por 
meio da qual a vida sexual se coloca em toda a plenitude ao servio da propagao da espcie, passando a satisfao daqueles impulsos a s ter importncia como preparo 
e estmulo do verdadeiro ato sexual. De outro lado a escolha de objeto repele o auto-erotismo, de maneira que na vida ertica os componentes do instinto sexual s 
querem satisfazer-se na pessoa amada. Mas nem todos os componentes instintivos originrios so admitidos a tomar parte nesta fixao definitiva da vida sexual. J 
antes da puberdade, sob o influxo de educao, certos impulsos so submetidos a represses extremamente enrgicas, ao mesmo passo que surgem foras mentais - o pejo, 
a repugnncia, a moral - que como sentinelas mantm as aludidas represses. Chegando na puberdade a mar das necessidades sexuais, encontra nas mencionadas reaes 
psquicas diques de resistncia que lhe conduzem a corrente pelos caminhos chamados normais e lhe impedem reviver os impulsos reprimidos. Os mais profundamente atingidos 
pela represso so primeiramente, e sobretudo, os prazeres infantis coprfilos, isto , os que se relacionam com os excrementos, e, em segundo lugar, os da fixao 
s pessoas da primitiva escolha de objeto.
         Senhores. Um princpio de patologia geral afirma que todo processo evolutivo traz em si os germes de uma disposio patolgica e pode ser inibido ou retardado 
ou desenvolver-se incompletamente. Isto vale para o to complicado desenvolvimento da funo sexual que nem em todos os indivduos se desenrola sem incidentes que 
deixem aps si ou anormalidade ou disposies a doenas futuras por meio de uma regresso. Pode suceder que nem todos os impulsos parciais se sujeitem  soberania 
da zona genital; o que ficou independente estabelece o que chamamos perverso e pode substituir a finalidade sexual normal pela sua prpria. Segundo j foi dito, 
acontece freqentemente que o auto-erotismo no seja completamente superado, como testemunham as multiformes perturbaes aparecidas depois. A equivalncia primitiva 
dos sexos como objeto sexual pode conservar-se, e disso se originar no adulto uma tendncia homossexual, capaz de chegar em certas circunstncias at a da homossexualidade 
exclusiva. Esta srie de distrbios corresponde a entraves diretos no desenvolvimento da funo sexual: abrange as perverses e o nada raro infantilismo geral da 
vida sexual.
         A propenso  neurose deve provir por outra maneira de uma perturbao do desenvolvimento sexual. As neuroses so para as perverses o que o negativo  
para o positivo. Como nas perverses, evidenciam-se nelas os mesmos componentes instintivos que mantm os complexos e so os formadores de sintomas; mas aqui eles 
agem do inconsciente, onde puderam firmar-se apesar da represso sofrida. A psicanlise nos mostra que a manifestao excessivamente intensa e prematura desses impulsos 
conduz a uma espcie de fixao parcial - ponto fraco na estrutura da funo sexual. Se o exerccio da capacidade gentica normal encontra no adulto um obstculo, 
rompe-se a represso da fase do desenvolvimento justamente naquele ponto em que se deu a fixao infantil.
          muito possvel que me contestem dizendo que nada disto  sexualidade e que emprego a palavra num sentido mais extenso do que esto habituados a entender. 
Concordo. Mas pode-se perguntar se no tm antes utilizado os presentes o vocbulo em sentido nmio restrito, quando o limitam ao terreno da procriao. Sacrificam 
assim a compreenso das perverses, do enlaamento que existe entre estas, a neurose e a vida sexual normal, e os senhores se colocam em situao de no reconhecer, 
em seu verdadeiro significado, os primrdios, facilmente observveis, da vida ertica somtica e psquica das crianas. Qualquer que seja a opinio dos presentes 
sobre o emprego do termo, devem ter sempre em conta que o psicanalista considera a sexualidade naquele sentido amplo a que o conduziu a apreciao da sexualidade 
infantil.
         Volvamos ainda uma vez  evoluo sexual da criana. Temos aqui ainda muito que rever, porque nossa ateno foi dirigida mais para as manifestaes somticas 
da vida sexual do que s psquicas. A primitiva escolha de objeto feita pela criana e dependente de sua necessidade de amparo exige-nos ainda toda a ateno. Essa 
escolha dirige-se primeiro a todas as pessoas que lidam com a criana e logo depois especialmente aos genitores. A relao entre criana e pais no , como a observao 
direta do menino e posteriormente o exame psicanaltico do adulto concordemente demonstram, absolutamente livre de elementos de excitao sexual. A criana toma 
ambos os genitores, e particularmente um deles, como objeto de seus desejos erticos. Em geral o incitamento vem dos prprios pais, cuja ternura possui o mais ntido 
carter de atividade sexual, embora inibido em suas finalidades. O pai em regra tem preferncia pela filha, a me pelo filho: a criana reage desejando o lugar do 
pai se  menino, o da me se se trata da filha. Os sentimentos nascidos destas relaes entre pais e filhos e entre um irmo e outros, no so somente de natureza 
positiva, de ternura, mas tambm negativos, de hostilidade. O complexo assim formado  destinado a pronta represso, porm continua a agir do inconsciente com intensidade 
e persistncia. Devemos declarar que suspeitamos represente ele, com seus derivados, o complexo nuclear de cada neurose, e nos predispusemos a encontr-lo no menos 
ativo em outros campos da vida mental. O mito do rei dipo que, tendo matado o pai, tomou a me por mulher,  uma manifestao pouco modificada do desejo infantil, 
contra o qual se levantam mais tarde, como repulsa, as barreiras do incesto. O Hamlet de Shakespeare assenta sobre a mesma base, embora mais velada, do complexo 
do incesto.
         No tempo em que  dominada pelo complexo central ainda no reprimido, a criana dedica aos interesses sexuais notvel parte da atividade intelectual. Comea 
a indagar de onde vm as criancinhas, e com os dados a seu alcance adivinha das circunstncias reais mais do que os adultos podem suspeitar. Comumente o que lhe 
desperta a curiosidade  a ameaa material do aparecimento de um novo irmozinho, no qual a princpio s v um competidor. Sob a influncia dos impulsos parciais 
que nela agem, forma at numerosas `teorias sexuais infantis'. Chega a pensar que ambos os sexos possuem rgos genitais masculinos; que comendo  que se geram crianas; 
que estas vm ao mundo pela extremidade dos intestinos; que a cpula  um ato de hostilidade, uma espcie de subjugao. Mas justamente a falta de acabamento de 
sua constituio sexual e a deficincia de conhecimentos, especialmente no que se refere ao tubo genital feminino, foram o pequeno investigador a suspender o improfcuo 
trabalho. O prprio fato dessa investigao e as conseqentes teorias sexuais infantis so de importncia determinante para a formao do carter da criana e do 
contedo da neurose futura.
          absolutamente normal e inevitvel que a criana faa dos pais o objeto da primeira escolha amorosa. Porm a libido no permanece fixa neste primeiro objeto: 
posteriormente o tomar apenas como modelo, passando dele para pessoas estranhas, na ocasio da escolha definitiva. Desprender dos pais a criana torna-se portanto 
uma obrigao inelutvel, sob pena de graves ameaas para a funo social do jovem. Durante o tempo em que a represso promove a seleo entre os impulsos parciais 
de ordem sexual, e, mais tarde, quando a influncia dos pais, principal fator da represso, deve abrandar, cabem no trabalho educativo importantes deveres que atualmente, 
por certo, nem sempre so preenchidos de modo inteligente e livre de crticas.
         Senhoras e senhores. No julguem que com esta dissertao acerca da vida sexual infantil e do desenvolvimento psicossexual da criana nos tenhamos afastado 
da psicanlise e da teraputica das perturbaes nervosas. Se quiserem, podem definir o tratamento psicanaltico como simples aperfeioamento educativo destinado 
a vencer os resduos infantis.
         
         QUINTA LIO
         
         SENHORAS E SENHORES, - Com o descobrimento da sexualidade infantil e atribuindo aos componentes erticos instintivos os sintomas das neuroses, chegamos 
a algumas frmulas inesperadas sobre a natureza e tendncia destas ltimas. Vemos que os indivduos adoecem quando, por obstculos exteriores ou ausncia de adaptao 
interna lhes falta na realidade a satisfao das necessidades sexuais. Observamos que ento se refugiam na molstia, para com o auxlio dela encontrar uma satisfao 
substitutiva. Reconhecemos que os sintomas mrbidos contm certa parcela da atividade sexual do indivduo ou sua vida sexual inteira. No distanciar da realidade 
reconhecemos tambm a tendncia principal e ao mesmo tempo o dano capital do estado patolgico. Conjecturamos que a resistncia oposta pelos doentes  cura no seja 
simples, mas composta de vrios elementos. No somente o ego do doente se recusa a desfazer a represso por meio da qual se esquivou de suas disposies originrias, 
como tambm pode o instinto sexual no renunciar  satisfao vicariante enquanto houver dvida de que a realidade lhe oferea algo melhor.
         A fuga, da realidade insatisfatria para aquilo que pelos danos biolgicos que produz chamamos doena, no deixa jamais de proporcionar ao doente um prazer 
imediato; ela se d pelo caminho da regresso s primeiras fases da vida sexual a que na poca prpria no faltou satisfao. Esta regresso mostra-se sob dois aspectos: 
temporal, porque a libido, na necessidade ertica, volta a fixar-se aos mais remotos estados evolutivos - e formal, porque emprega os meios psquicos originrios 
e primitivos para manifestao da mesma necessidade. Sob ambos os aspectos a regresso orienta-se para a infncia, restabelecendo um estado infantil da vida sexual.
         Quanto mais profundamente penetrar-lhes a patognese das afeces nervosas, mais claramente vero os liames entre as neuroses e outras produes da vida 
mental do homem, ainda as mais altamente apreciadas. Ho de notar que ns, os homens, com as elevadas aspiraes de nossa cultura e sob a presso das ntimas represses, 
achamos a realidade de todo insatisfatria e por isso mantemos uma vida de fantasia onde nos comprazemos em compensar as deficincias da realidade, engendrando realizaes 
de desejos. Nestas fantasias h muito da prpria natureza constitucional da personalidade e muito dos sentimentos reprimidos. O homem enrgico e vencedor  aquele 
que pelo prprio esforo consegue transformar em realidade seus castelos no ar. Quando esse resultado no  atingido, seja por oposio do mundo exterior, seja por 
fraqueza do indivduo, este se desprende da realidade, recolhendo-se aonde pode gozar, isto , ao seu mundo de fantasia, cujo contedo, no caso de molstia, se transforma 
em sintoma. Em certas condies favorveis, ainda lhe  possvel encontrar outro caminho dessas fantasias para a realidade, em vez de se alhear dela definitivamente 
pela regresso ao perodo infantil. Quando a pessoa inimizada com a realidade possui dotes artsticos (psicologicamente ainda enigmticos) podem suas fantasias transmudar-se 
no em sintomas seno em criaes artsticas; subtrai-se desse modo  neurose e reata as ligaes com a realidade. (Cf. Rank, 1907). Quando com a revolta perptua 
contra o mundo real faltam ou so insuficientes esses preciosos dons,  absolutamente inevitvel que a libido, seguindo a origem da fantasia, chegue ao reavivamento 
dos desejos infantis, e com isso  neurose, representante, em nossos dias, do claustro aonde costumavam recolher-se todas as pessoas desiludidas da vida ou que se 
sentiam fracas demais para viver.
         Seja-me lcito referir neste ponto o que de mais importante pudemos conseguir pelo estudo psicanaltico dos nervosos, e vem a ser que as neuroses no tm 
um contedo psquico que, como privilgio deles, no se possa encontrar nos sos; segundo expressou C. G. Jung, aqueles adoecem pelos mesmos complexos com que lutamos 
ns, os que temos sade perfeita. Conforme as circunstncias de quantidade e da proporo entre as foras em choque, ser o resultado da luta a sade, a neurose 
ou a sublimao compensadora.
         Senhoras e senhores. No lhes falei at agora sobre a experincia mais importante, que vem confirmar nossa suposio acerca das foras instintivas sexuais 
da neurose. Todas as vezes que tratamos psicanaliticamente um paciente neurtico, surge nele o estranho fenmeno chamado `transferncia', isto , o doente consagra 
ao mdico uma srie de sentimentos afetuosos, mesclados muitas vezes de hostilidade, no justificados em relaes reais e que, pelas suas particularidades, devem 
provir de antigas fantasias tornadas inconscientes. Aquele trecho da vida sentimental cuja lembrana j no pode evocar, o paciente torna a viv-lo nas relaes 
com o mdico; e s por este ressurgimento na `transferncia'  que o doente se convence da existncia e do poder desses sentimentos sexuais inconscientes. Os sintomas, 
para usar uma comparao qumica, so os precipitados de anteriores eventos amorosos (no mais amplo sentido) que s na elevada temperatura da transferncia podem 
dissolver-se e transformar-se em outros produtos psquicos. O mdico desempenha nesta reao, conforme a excelente expresso de Ferenczi (1909), o papel de fermento 
cataltico que atrai para si temporariamente a energia afetiva aos poucos libertada durante o processo. O estudo da transferncia pode dar-lhes ainda a chave para 
compreenderem a sugesto hipntica de que a princpio nos servimos como meio tcnico de esquadrinhar o inconsciente dos doentes. Naquela poca o hipnotismo revelava-se 
um meio teraputico, mas constitua ao mesmo tempo um empecilho ao conhecimento cientfico da questo, removendo as resistncias psquicas de um certo territrio, 
para amonto-las como muralha intransponvel nos confins do mesmo. No pensem, alm disso, que o fenmeno da transferncia, a respeito do qual infelizmente pouco 
posso dizer aqui, seja produzido pela influncia da psicanlise. A transferncia surge espontaneamente em todas as relaes humanas e de igual modo nas que o doente 
entretm com o mdico;  ela, em geral, o verdadeiro veculo da ao teraputica, agindo tanto mais fortemente quanto menos se pensa em sua existncia. A psicanlise, 
portanto, no a cria; apenas a desvenda  conscincia e dela se apossa a fim de encaminh-la ao termo desejado. No posso certamente deixar o assunto da transferncia 
sem frisar que este fenmeno  decisivo no s para o convencimento do doente mas tambm do mdico. Sei que todos os meus adeptos s pela experincia prpria sobre 
a transferncia se convenceram da exatido das minhas afirmaes referentes  patognese das neuroses; posso perfeitamente compreender que ningum alcance um modo 
de julgar to seguro, enquanto no se faa psicanalista e no observe dessa maneira a ao da transferncia.
         Senhoras e senhores. Do ponto de vista intelectual, devemos levar em conta, julgo eu, que existem especialmente dois obstculos, dignos de nota, contra 
a aceitao das idias psicanalticas: primeiramente, a falta de hbito de contar com o rigoroso determinismo da vida mental, o qual no conhece exceo, e, em segundo 
lugar, o desconhecimento das singularidades pelas quais os processos mentais inconscientes se diferenciam dos conscientes que nos so familiares. Uma das formas 
de oposio mais espalhadas contra o emprego da psicanlise, tanto em doentes como em sos, se liga ao ltimo desses dois fatores. Teme-se que ela faa mal, tem-se 
medo de chamar  conscincia do doente os impulsos sexuais reprimidos, como se lhe oferecessem ento o perigo de aniquilar as mais altas aspiraes morais e o privassem 
das conquistas da civilizao. Nota-se que o doente apresenta feridas na vida psquica, mas receia-se tocar nelas, para no aumentar os sofrimentos. Podemos aceitar 
esta analogia. No devemos com efeito tocar em pontos doentes quando estamos certos de que com isso s provocamos dor e nada mais. Todos sabem, porm, que o cirurgio 
no deixa de examinar, palpando o foco da molstia, quando tem em vista realizar uma operao que h de proporcionar a cura completa. Ningum pensa j em incrimin-lo 
pelos inevitveis incmodos do exame nem pelos fenmenos ps-operatrios, desde que a operao tenha bom xito e que, mediante a agravao passageira do mal, o doente 
alcance a definitiva supresso do estado mrbido. Em relao  psicanlise, as condies so semelhantes; pode ela reivindicar os mesmos direitos que a cirurgia; 
a exasperao dos incmodos que impe ao doente durante o tratamento , uma vez observada a boa tcnica, incomparavelmente menor que a infligida pelo cirurgio, 
e em geral nem deve ser tomada em considerao diante da gravidade da molstia principal. A destruio do carter civilizado pelos impulsos instintivos libertados 
da represso  um desfecho temido mas absolutamente impossvel.  que este temor no leva em conta o que a nossa experincia nos ensinou com toda segurana: que 
o poder mental e somtico de um desejo, desde que se baldou a respectiva represso, se manifesta com muito mais fora quando inconsciente do que quando consciente; 
indo para a conscincia, s se pode enfraquecer. O desejo inconsciente escapa a qualquer influncia,  independente das tendncias contrrias, ao passo que o consciente 
 atalhado por tudo quando, igualmente consciente, se lhe opuser. O tratamento psicanaltico coloca-se assim como o melhor substituto da represso fracassada, justamente 
em prol das aspiraes mais altas e valiosas da civilizao.
         Que acontece geralmente com os desejos inconscientes libertados pela psicanlise, e quais os meios por cujo intermdio pretendemos torn-los inofensivos 
 vida do indivduo? Desses meios h vrios. O resultado mais freqente  que os mesmos desejos, j durante o tratamento, so anulados pela ao mental, bem conduzida, 
dos melhores sentimentos contrrios. A represso  substituda pelo julgamento de condenao efetuado com recursos superiores. Isso  possvel porque quase sempre 
temos de remover to-somente conseqncias de estados evolutivos anteriores do ego. Como o indivduo na poca se achava ainda incompletamente organizado, no pde 
seno reprimir o instinto inutilizvel; mas na fora e madureza de hoje, pode talvez dominar perfeitamente aquilo que lhe  hostil. Outro desfecho do tratamento 
psicanaltico  que os impulsos inconscientes, ora descobertos, passam a ter a utilizao conveniente que deviam ter encontrado antes, se a evoluo no tivesse 
sido perturbada. A extirpao radical dos desejos infantis no  absolutamente o fim ideal. Por causa das represses, o neurtico perdeu muitas fontes de energia 
mental que lhe teriam sido de grande valor na formao do carter e na luta pela vida. Conhecemos uma soluo muito mais conveniente, a chamada `sublimao', pela 
qual a energia dos desejos infantis no se anula mas ao contrrio permanece utilizvel, substituindo-se o alvo de algumas tendncias por outro mais elevado, qui 
no mais de ordem sexual. Exatamente os componentes do instinto sexual se caracterizam por essa faculdade de sublimao, de permutar o fim sexual por outro mais 
distante e de maior valor social. Ao reforo de energia para nossas funes mentais, por essa maneira obtido, devemos provavelmente as maiores conquistas da civilizao. 
A represso prematura exclui a sublimao do instinto reprimido; desfeito aquele, est novamente livre o caminho para a sublimao.
         No devemos deixar de contemplar tambm o terceiro dos possveis desenlaces do tratamento psicanaltico. Certa parte dos desejos libidinais reprimidos faz 
jus  satisfao direta e deve alcan-la na vida. As exigncias da sociedade tornam o viver dificlimo para a maioria das criaturas humanas, forando-as com isso 
a se afastarem da realidade e dando origem s neuroses, sem que o excesso de coero sexual traga maiores benefcios  coletividade. No devemos ensoberbecer-nos 
tanto, a ponto de perder completamente de vista nossa natureza animal, nem esquecer tampouco que a felicidade individual no deve ser negada pela civilizao. A 
plasticidade dos componentes sexuais, manifesta na capacidade de sublimarem-se, pode ser uma grande tentao a conquistarmos maiores frutos para a sociedade por 
intermdio da sublimao contnua e cada vez mais intensa. Mas assim como no contamos transformar em trabalho seno parte do calor empregado em nossas mquinas, 
de igual modo no devemos esforar-nos em desviar a totalidade da energia do instinto sexual da sua finalidade prpria. Nem o conseguiramos. E se o cerceamento 
da sexualidade for exagerado, trar consigo todos os danos duma explorao abusiva.
         No sei se da parte dos senhores consideraro como presuno minha a admoestao com que concluo. Atrevo-me apenas a representar indiretamente a convico 
que tenho, narrando-lhes uma anedota j antiga, cuja moralidade os senhores mesmo apreciaro. A literatura alem conhece um vilarejo chamado Schilda, de cujos habitantes 
se contam todas as espertezas possveis. Dizem que possuam eles um cavalo com cuja fora e trabalho estavam satisfeitssimos. Uma s coisa lamentavam: consumia 
aveia demais e esta era cara. Resolveram tir-lo pouco a pouco desse mau costume, diminuindo a rao de alguns gros diarimente, at acostum-lo  abstinncia completa. 
Durante certo tempo tudo correu magnificamente; o cavalo j estava comendo apenas um grozinho e no dia seguinte devia finalmente trabalhar sem alimento algum. No 
outro dia amanheceu morto o prfido animal; e os cidados de Schilda no sabiam explicar por que.
         Ns nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa rao de aveia no podemos esperar em geral trabalho de animal algum.
         Pelo convite e pela ateno com que me honraram, os meus agradecimentos.
         
         
         
         






LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANA DA SUA INFNCIA (1910)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS (JAMES STRACHEY)
         
         EINE KINDHEITSERINNERUNG DES LEONARDO DA VINCI
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1910 Leipzig e Viena: Deuticke. P. 71. (Schriften zur angewandten Seelenkunde, Heft 7)
         1919 2 ed. Mesmos editores, P. 76.
         1923 2 ed. Mesmos editores. P. 78.
         1925 G.S., 9, 371-454.
         1943 G.W., 8, 128-211.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         Leonardo da Vinci
         1916 Nova Iorque: Moffat, Yard. P. 130. (Trad. A. A. Brill.)
         1922 Londres: Kegan Paul. P. v + 130. (Mesmo tradutor, com prefcio de Ernest Jones.)
         1932 Nova Iorque: Dodd Mead. P. 139. (Reedio da traduo acima.)
         
         A traduo atual inglesa, com o ttulo modificado para `Leonardo da Vinci and a Memory of his Childhood',  inteiramente nova, feita por Alan Tyson.
         O interesse de Freud por Leonardo datava de longe, conforme o prova uma frase sua, em carta endereada a Fliess, em 9 de outubro de 1898 (Freud, 1950 a, 
Carta 98) na qual comentava que `Leonardo, que talvez fosse o mais famoso canhoto da histria, jamais tivera um caso de amor'. Este interesse no foi tampouco um 
interesse passageiro, pois nas respostas de Freud a um `questionrio' sobre seus livros prediletos (1907d) vamos encontrar uma referncia a um estudo de Merezhkovsky 
sobre Leonardo. Mas o verdadeiro estmulo para que escrevesse o presente trabalho parece ter surgido no outono de 1909, na figura de um de seus pacientes, o qual, 
conforme seu comentrio em carta a Jung, em 17 de outubro, parecia ter a mesma constituio de Leonardo sem, no entanto, possuir o seu gnio. Dizia, ainda, que estava 
esperando receber da Itlia um livro sobre a juventude de Leonardo. Este livro era a monografia, por Scognamiglio, mencionada em [1]. Aps ler este e outros livros 
sobre Leonardo, Freud discorreu sobre o assunto perante a Sociedade Psicanaltica de Viena, no dia 1 de dezembro; mas foi somente em princpios de abril de 1910 
que terminou de escrever o seu estudo, publicado em fins de maio.
         Freud fez uma srie de correes e acrscimos nas edies seguintes do livro. Entre eles, podemos ressaltar a pequena nota ao p da pgina sobre circunciso 
(ver em [2]), o resumo de um trecho de Reitler (ver em [3]) e a extensa citao de um trecho de Pfister (ver em [4]), todos includos na edio de 1919, e os comentrios 
sobre o desenho de Londres (ver em [5]), acrescentado em 1923.
         Este trabalho de Freud no foi o primeiro em que foram aplicados mtodos clnicos da psicanlise no estudo de vultos histricos do passado. Experincias 
nesse sentido j haviam sido feitas por outros, sobretudo por Sadger, que publicara estudos sobre Conrad Ferdinand Meyer (1908), Lenau (1909) e Kleis (1909). O prprio 
Freud nunca fizera um estudo biogrfico extenso dessa natureza, embora houvesse feito anlises fragmentrias de alguns escritores, baseadas em episdios contidos 
em seus respectivos trabalhos. De fato, em poca muito anterior, em 20 de junho de 1898, ele enviara a Fliess um estudo sobre uma historieta de C.F. Meyer, `Die 
Richterin', que esclarecia a vida infantil do autor (Freud, 1950a, Carta 91). A monografia sobre Leonardo, no entanto, no foi somente a primeira, mas, tambm, a 
ltima incurso extensa de Freud no terreno da biografia. O livro parece ter sido recebido com uma avalancha de crticas desfavorveis, que ultrapassaram os limites 
normais, o que evidentemente justificou a defesa antecipada, feita por Freud, com as observaes no comeo do captulo VI (ver em [1]), observaes que ainda hoje 
se aplicam aos autores e crticos de biografias.
          de admirar, no entanto, que at bem pouco tempo nenhum dos crticos deste trabalho se tenha detido naquilo que, sem dvida alguma,  o seu ponto mais 
fraco. Uma parte importante  desempenhada pela lembrana ou pela fantasia de Leonardo de ter sido visitado em seu bero por uma ave de rapina. O nome por ele usado 
para a ave, em suas anotaes, foi `nibio', que em italiano (em sua forma moderna, `nibbio') significa `milhafre'. No entanto, Freud, no decorrer de todo o seu estudo, 
usa a palavra alem `Geier', que em ingls s pode ser traduzida por `vulture' (em portugus `abutre').
         O equvoco de Freud parece ter-se originado de algumas das tradues alems de que se utilizou. Marie Herzfeld (1906), por exemplo, usa a palavra `Geier' 
em uma de suas verses da fantasia do bero, ao invs de `Milan', a palavra alem comum por `milhafre'. Mas, provavelmente, a influncia mais importante ter sido 
a traduo alem do livro de Merezhkovsky sobre Leonardo, o qual, a julgar pelo exemplar anotado pertencente  biblioteca de Freud, foi a sua grande fonte de informaes 
sobre Leonardo e onde provavelmente, pela primeira vez, veio a ter conhecimento daquela fantasia. Aqui, tambm, a palavra alem usada na fantasia do bero foi `Geier', 
embora o prprio Merezhkovsky usasse corretamente a palavra `korshun' que, em russo, significa `milhafre'.
         Diante desse equvoco, muitos leitores se sentiro inclinados a abandonar o estudo considerando-o sem valor. Ser, no entanto, aconselhvel examinar a situao 
mais calmamente e analisar detalhadamente os pontos exatos em que os argumentos e dedues de Freud se invalidam.
         Em primeiro lugar, a idia do `pssaro oculto' no desenho de Leonardo (ver em [1]) deve ser posta de lado. Se de fato era um pssaro, ser um abutre; em 
nada se parece com um milhafre. Esta `descoberta', entretanto, no foi feita por Freud e sim por Pfister. Somente foi introduzida na segunda edio da obra, e foi 
recebida por Freud com grande reserva.
         A seguir, e mais importante ainda, vem a associao egpcia. O hierglifo para a palavra `me', em egpcio `mut', representa sem dvida alguma um abutre 
e no um milhafre. Gardiner, em sua abalizada Egyptian Grammar (2 ed., 1950, 469), identifica o pssaro como sendo `Gyps fulvus', ou grifo. Deduz-se da que a teoria 
de Freud de que o pssaro da fantasia de Leonardo significava sua me, no se pode basear no mito egpcio, deixando de ser importante a questo de sua relao com 
o mito. A fantasia e o mito no parecem ter qualquer relao entre si. Cada um deles, no entanto, quando analisado separadamente, oferece um problema interessante. 
Por que tero os antigos egpcios associado as idias de `abutre' e de `me'? Ser satisfatria a explicao dos egiptlogos de que seja meramente uma coincidncia 
fontica? Caso contrrio, o estudo freudiano sobre mes-deusas andrginas ter valor original, independente de suas relaes com o caso de Leonardo. Do mesmo modo, 
a fantasia de Leonardo sobre o pssaro a visit-lo no bero e a meter-lhe a cauda na boca continua a exigir uma explicao, mesmo no caso de o pssaro no ser um 
abutre. E a anlise psicolgica de Freud relativa a essa fantasia no se desvaloriza com essa correo, perde, apenas, um elemento de apoio.
         Portanto, levando-se em conta a pouca importncia do estudo do caso egpcio - embora persista o seu valor intrnseco -, o estudo de Freud, em sua essncia, 
no sofre com esse erro: permanece a reconstruo detalhada da vida emotiva de Leonardo, desde os seus primeiros anos; a descrio do conflito entre seus impulsos 
artsticos e cientficos; a anlise profunda de sua histria psicossexual. Alm desses assuntos importantes, o estudo nos apresenta uma quantidade de temas colaterais 
de igual valor: uma discusso mais geral da natureza e do trabalho da mente de um artista criador; uma descrio da gnese de um tipo especial de homossexualidade; 
e, o que  especialmente interessante para a histria da teoria da psicanlise, o aparecimento, pela primeira vez, do conceito de narcisismo.
         
         NOTA DO EDITOR BRASILEIRO
         
         A presente traduo  da autoria de Walderedo Ismael de Oliveira (Professor Adjunto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Analista Didata 
da Sociedade Brasileira de Psicanlise do Rio de Janeiro).
         
         LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANA DE SUA INFNCIA
         
         I
         QUANDO a pesquisa psiquitrica, que geralmente se contenta em usar pessoas comuns como material de estudo, se aproxima de algum que figura entre os expoentes 
da raa humana, no o faz pelos motivos que to freqentemente lhe atribuem os leigos. O seu objetivo no  `denegrir os brilhantes e arrastar na lama os sublimes', 
Und das Ernabene in den Staub zu ziehn.(O mundo gosta de denegrir o brilhante e arrastar na lama o sublime.)De um poema de Schiller, `Das Mdchen von Orleans', inserido 
como um prlogo extra na edio de 1801 de sua pea Die Jungfrau von Orleans. O poema foi considerado como sendo um ataque ao La Pucelle, de Voltaire.] e no lhe 
traz satisfao alguma encurtar a distncia que separa a perfeio dos grandes da deficincia daqueles que geralmente constituem o objeto de seus estudos. Mas a 
psiquiatria no pode deixar de considerar como digno de ser compreendido tudo que possa vir a encontrar nesses modelos ilustres e acredita que no existe ningum 
to grande que venha a ser desonrado simplesmente por estar sujeito s leis que regem, igualmente, as atividades normais e as patolgicas.
         Leonardo da Vinci (1452-1519) foi admirado, at mesmo pelos seus contemporneos, como um dos maiores homens da renascena italiana. No entanto, j nessa 
poca comeara a parecer um enigma, tal como nos parece hoje em dia. Era um gnio universal `cujos traos se podia apenas esboar mas nunca definir'. Durante sua 
poca, sua influncia decisiva foi sobre a pintura, cabendo a ns reconhecer a grandeza do homem de cincias naturais (e engenheiro) que se combinava nele com o 
artista. Embora tivesse deixado obras-primas de pintura, enquanto suas descobertas cientficas permaneciam inditas e sem uso, o pesquisador que nele existia nunca 
libertou totalmente o artista durante todo o curso de seu desenvolvimento, limitando-o muitas vezes e talvez, mesmo, chegando a elimin-lo. Nos ltimos momentos 
de sua vida, segundo palavras que lhe atribui Vasari, acusou-se de haver ofendido Deus e os homens, no cumprindo o seu dever para com sua arte. E ainda que esta 
histria de Vasari no passe de lenda, lenda esta que mesmo antes de sua morte comeou a crescer em torno do Mestre misterioso, servir sempre de testemunho valioso 
do que pensavam dele os homens de seu tempo.
         O que impediu que a personalidade de Leonardo fosse compreendida pelos seus contemporneos? O motivo, certamente, no ter sido a versatilidade de seus 
talentos nem a extenso do seu saber, que lhe permitiu apresentar-se na corte do Duque de Milo, Ludovido Sforza, apelidado Il Moro, como um virtuoso numa espcie 
de alade de sua prpria inveno, ou escrever a notvel carta, ao mesmo duque, na qual se gabava de suas realizaes como arquiteto e como engenheiro militar. Na 
poca do renascimento a combinao de to amplas e diversas habilidades em um mesmo indivduo eram comuns, embora tenhamos de reconhecer que Leonardo foi um dos 
exemplos mais brilhantes. Tampouco pertencia ele  classe dos gnios fisicamente mal dotados pela natureza e que por isso mesmo desprezam as formas exteriores da 
vida e, numa atitude de penosa melancolia, fogem a qualquer contato com seus semelhantes. Ao contrrio, era alto e bem proporcionado; suas feies eram belas e invulgar 
a sua fora fsica; era encantador em suas maneiras e de fcil eloqncia, alegre e amvel para com todos. Adorava o belo em tudo o que cercava; apreciava as roupagens 
suntuosas e valorizava todos os requintes da vida. Num trecho de seu tratado sobre a pintura, que bem revela sua tendncia para as diverses, compara a pintura s 
artes irms e descreve os reveses que aguardam o escultor: `Pois seu rosto fica empoeirado pelo mrmore, de modo que mais parece um padeiro; fica tambm todo salpicado 
de flocos de mrmore que fazem com que parea ter estado na neve - sua casa  cheia de poeira e de lascas de pedra. Quanto ao pintor, seu caso  bem diferente... 
pois o pintor senta-se em frente ao seu trabalho, cercado de todo o conforto. Veste-se bem e utiliza pincis delicados e leves, que mergulha em cores lindas. Usa 
roupas que lhe agradam e sua casa  imaculada e repleta de belos quadros. Muitas vezes trabalha ao som de msica ou, ento, cercado de homens que lhe lem trechos 
de obras lindas e variadas que pode ouvir prazerosamente sem o barulho do martelo e outros rudos.'
         Na verdade,  muito possvel que a imagem de um Leonardo extremamente feliz e amante de todos os prazeres no seja verdadeira seno no primeiro perodo, 
e o mais longo tambm, da vida do artista. Mais tarde, quando a queda de Ludovico Moro f-lo deixar Milo, a cidade que era o centro de suas atividades e onde tinha 
uma situao assegurada, forando-o a uma vida instvel e de poucos sucessos externos, at encontrar seu ltimo refgio na Frana, a centelha de seu gnio poder 
ter-se esmaecido e alguma faceta estranha de sua natureza poder ter vindo  tona. De mais a mais, a transferncia de seu interesse pelas artes para sua dedicao 
 cincia, que se foi acentuando com o decorrer do tempo, deve ter infludo para aumentar a distncia que o separava de seus contemporneos. Todos os seus esforos 
representavam, na opinio deles, o desperdcio de um tempo que poderia ser usado para pintar encomendas e fazer fortuna (como fez, por exemplo, o seu condiscpulo 
Perugino). Pareciam-lhes mero diletantismo e at mesmo tornavam-no suspeito de estar a servio da `magia negra'. Ns, hoje, podemos compreend-lo melhor pois atravs 
de seus apontamentos sabemos quais eram as artes a que se dedicava. Em uma poca em que se comeava a substituir a autoridade da Igreja pela da antiguidade e em 
que no se haviam ainda acostumado com nenhuma forma de pesquisa que no fosse baseada em pressuposies, Leonardo - o precursor e rival de Bacon e de Coprnico, 
igualando-se a eles em valor - foi por isso, forosamente, um solitrio entre seus contemporneos. Ao dissecar cadveres de cavalos e de homens, ao construir mquinas 
voadoras e ao estudar a nutrio das plantas e suas reaes e venenos, certamente distanciou-se enormemente dos comentadores de Aristteles, aproximando-se muito 
mais dos alquimistas desprezados, em cujos laboratrios a pesquisa experimental encontrara algum refgio, pelo menos durante aqueles tempos adversos.
         O efeito disso tudo sobre suas pinturas foi o de faz-lo usar com menos entusiasmo o pincel, pintar cada vez menos, deixando a maioria do que comeara inacabado, 
e no se preocupar com o destino final de suas obras. E foi disso que o acusaram seus contemporneos. Para eles, sua atitude em face da sua arte foi sempre incompreensvel.
         
         Posteriormente, muitos dos admiradores de Leonardo tentaram defend-lo dessa acusao de inconstncia. Em sua defesa eles alegavam ser esta, justamente, 
uma caracterstica dos grandes artistas; at mesmo Miguel Angelo, que era inteiramente dedicado a seu trabalho, deixou muitas de suas obras inacabadas e disso teve 
tanta culpa quanto Leonardo, em circunstncias iguais. Alegam, alm do mais, que, com referncia a alguns quadros de Leonardo, no se trata somente de estarem inacabados, 
mas sim de os ter ele dado por findos. O que ao leigo pode parecer uma obra-prima nunca chega a representar para o criador uma obra de arte completa mas, apenas, 
a concretizao insatisfatria daquilo que tencionava realizar; ele possui uma tnue viso da perfeio, que tenta sempre reproduzir sem nunca conseguir satisfazer-se. 
Sobretudo, alegam eles,  um direito do artista ser responsvel pelo destino final de suas obras.
         Por mais vlidas que possam ser essas desculpas, elas no conseguem livrar Leonardo de toda a responsabilidade. A mesma luta penosa frente a um trabalho, 
a fuga final e a indiferena quanto ao seu destino futuro, tudo isso pode acontecer a muitos outros artistas, mas no h dvida de que esse comportamento ocorre 
em Leonardo em grau muito mais elevado. Solmi (1910, 12) menciona a observao de um de seus alunos: `Pareva che ad ogni ora tremasse, quando si poneva a dipingere, 
e per non diede mai fine ad alcuna cosa cominciata, considerando la grandezza dell'arte, tal que che egli scorgeva errori in quelle cose, che ad altri parevano 
miracoli.' Seus ltimos quadros, continua ele, a Leda, a Madonna di Sant'Onofrio, Baco e So Joo Batista moo, ficaram inacabados `come quasi intervenne di tutte 
le cose sue...' Lomazzo, que fez uma cpia da ltima Ceia, comenta em um soneto a notria incapacidade de Leonardo para ultimar seus trabalhos:
         Protogen che il pennel di sue pitture
         Non levava, agguaglio in Vinci Divo
         Di cui opra non  finita pure.
         A vagareza do trabalho de Leonardo era proverbial. Depois de meticulosos estudos preparatrios, levou trs anos inteiros para pintar a ltima Ceia para 
o Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milo. Um de seus contemporneos, o contista Matteo Bandelli, que na poca era um jovem frade naquele convento, conta 
que Leonardo costumava muitas vezes subir nos andaimes pela manh cedo e l permanecer at o cair da tarde sem nem uma vez descansar o pincel e nem se lembrar de 
comer ou de beber. Depois, passava dias sem tornar a tocar no trabalho. Muitas vezes passava horas diante de sua obra, somente analisando-a mentalmente. Algumas 
vezes vinha para o convento diretamente do ptio do castelo de Milo, onde estava trabalhando no modelo para a esttua eqestre de Francesco Sforza, dava algumas 
pinceladas em algum dos seus personagens, partindo logo a seguir. Segundo Vasari, levou quatro anos pintando o retrato de Mona Lisa, a mulher do florentino Francesco 
del Giocondo, sem conseguir d-lo por terminado. Este fato pode explicar por que este retrato nunca foi entregue a quem o encomendou, ficando em mos de Leonardo, 
que o levou consigo para a Frana. Foi adquirido pelo rei Francisco I, e hoje em dia constitui um dos mais valiosos tesouros do Louvre.
         Se compararmos esses relatos sobre o modo de trabalhar de Leonardo com a evidncia de inmeros desenhos e estudos que deixou e que mostram todos os motivos 
que aparecem em suas pinturas sob os aspectos mais variados, seremos compelidos a rejeitar o conceito de que sua impacincia e sua volubilidade possam, de algum 
modo, t-lo influenciado com relao  sua arte. Ao contrrio,  possvel observar uma extraordinria profundeza e uma riqueza de possibilidades que vm dificultar 
qualquer deciso final, ambies enormes, difceis de satisfazer, e uma inibio na execuo definitiva para a qual no encontramos justificativa, mesmo considerando 
que o artista nunca consegue realizar o seu ideal. A vagareza, que era conspcua no trabalho de Leonardo, apresenta-se como um sintoma dessa inibio e um prenncio 
de seu subseqente desinteresse pela pintura. Isso foi a causa do destino que teve a ltima Ceia - destino, alis, merecido. Leonardo no se podia acostumar ao afresco, 
que exigia trabalho rpido na aplicao das tintas na superfcie ainda mida e, por isso, preferiu usar as tintas a leo, de secagem mais lenta, que lhe permitiam 
protelar o trmino da obra de acordo com seu humor e lazer. Estas tintas, no entanto, desprendiam-se da superfcie onde eram aplicadas e que as isolava do muro. 
Alm do mais, os defeitos prprios do muro e o destino posterior do edifcio provavelmente determinaram o que parece ser a runa inevitvel do quadro.
         
         O fracasso de uma experincia tcnica semelhante parece ter causado tambm a destruio da Batalha de Anguiari, pintura que ele comeou a executar, competindo 
com Miguel ngelo, algum tempo depois, em um muro da Sala del Consiglio em Florena, e que tambm abandonou antes de terminar. Neste caso, no entanto, parece ter 
havido outro interesse em jogo - o do experimentador - que a princpio ter incentivado o interesse artstico, vindo porm a prejudicar a obra depois.
         O carter de Leonardo, como homem, revelava outros traos incomuns e outras contradies aparentes. Uma certa ociosidade e indiferena so evidentes em 
sua personalidade. Numa poca em que todos procuravam conseguir um campo amplo onde desenvolver suas atividades - para o que necessitavam de uma enrgica agressividade 
contra os demais - Leonardo se fazia notar pela sua pacatez e pela averso a qualquer antagonismo ou controvrsia. Era gentil e amvel para com todos; recusava-se, 
dizem, a comer carne por no achar justo matar animais; gostava sobretudo de comprar pssaros no mercado para solt-los depois. Condenava a guerra e o derramamento 
de sangue e descrevia o homem como sendo no tanto o rei do mundo animal, e sim a pior das bestas selvagens. Essa feminina delicadeza, no entanto, no impedia que 
acompanhasse os criminosos a caminho da execuo a fim de estudar-lhes as feies distorcidas pelo medo e desenh-las em seus cadernos. Nem tampouco deixou de desenhar 
as mais cruis armas de agresso e de pertencer ao servio de Cesare Borgia como chefe da engenharia militar. Muitas vezes parecia indiferente ao bem e ao mal ou 
parecia deixar-se guiar por normas diferentes. Acompanhou Cesare, em posto importante, durante a campanha que deixou Romagna como possesso do mais cruel e desleal 
dos adversrios. No existe nas anotaes de Leonardo um nico comentrio a respeito dos acontecimentos de sua poca ou qualquer demonstrao de preocupao com 
eles. Isto induz a uma comparao com Goethe durante a campanha da Frana.
         Se um estudo biogrfico tem realmente como objetivo chegar  compreenso da vida mental de seu heri, no dever omitir, como acontece com a maioria das 
biografias - por discrio ou por melindre - sua atividade sexual ou sua individualidade sexual. O que se conhece de Leonardo neste setor  pouco; porm este pouco 
 repleto de significados. Em uma poca que presenciou a luta entre uma sensualidade sem limites e um ascetismo melanclico, Leonardo representava a fria rejeio 
da sexualidade - coisa que no se deveria esperar de um artista e pintor da beleza feminina. Solmi cita a seguinte frase sua que bem evidencia a sua frigidez: `O 
ato da procriao e tudo o que a ele se relaciona  de tal maneira abjeto que a humanidade certamente se extinguiria no fora isso um costume j consagrado e no 
fora o fato de existirem rostos lindos e naturezas sensuais.' Seus escritos postumamente publicados cuidam tanto dos maiores problemas cientficos como tambm de 
trivialidades que no merecem to grande inteligncia (uma histria natural alegrica, fbulas de animais, brincadeiras, profecias); so to castos, e mesmo abstinentes, 
que ainda causariam admirao se encontrados em qualquer trabalho de belles lettres de hoje em dia. To resolutamente se abstm de todo o tema sexual que d a impresso 
de que somente Eros, o preservador de todas as coisas vivas, fosse assunto indigno para o pesquisador em sua busca da sabedoria.  sabido que freqentemente grandes 
artistas se comprazem em dar vazo a suas fantasias por meio de desenhos erticos e mesmo obscenos. No caso de Leonardo, no entanto, possumos apenas alguns esboos 
anatmicos do aparelho genital interno feminino, da posio do embrio no tero e assim por diante.
         
         
         
         
         
         
          duvidoso que Leonardo tenha jamais abraado uma mulher com paixo; ou tenha tido alguma amizade intelectual ntima com uma mulher, como a de Miguel ngelo 
com Vittoria Colonna. Quando ainda aprendiz e vivendo em casa de seu mestre Verrocchio, foi-lhe feita e a alguns outros jovens uma acusao de prticas homossexuais 
proibidas, que terminou em absolvio. Parece que a origem desta acusao foi o fato de ter usado um menino de m fama como modelo. Quando veio a tornar-se mestre, 
cercou-se de belos rapazes e meninos que tomava como alunos. O ltimo desses alunos, Francesco Melzi, acompanhou-o  Frana, ficou a seu lado at a sua morte e foi 
por ele nomeado seu herdeiro. Sem compartilhar a certeza de seus bigrafos modernos, que naturalmente rejeitam a possibilidade da existncia de relaes sexuais 
entre ele e seus alunos, considerando-a um insulto grosseiro ao grande homem, achamos muito mais provvel que as relaes afetuosas de Leonardo para com os jovens 
que - como era costume entre aprendizes da poca - compartilhavam sua vida, no chegassem at relao sexuais. E ainda mais, uma grande atividade sexual no condizia 
muito com ele.
         
         Existe uma nica maneira de compreender a peculiaridade dessa vida sexual e emocional com relao  dupla natureza de Leonardo como artista e como pesquisador 
cientfico. Entre os seus bigrafos, muitas vezes alheios a qualquer enfoque psicolgico, existe, a meu entender, apenas um, Edmondo Solmi, que se aproximou da soluo 
do problema; mas um escritor que escolheu Leonardo como o personagem de uma longa novela histrica, Dmitry Sergeyevich Merezhkovsky, interpretou do mesmo modo esse 
homem incomum ao retrat-lo e exprimiu claramente o seu ponto de vista, no com palavras simples porm (segundo o estilo dos autores imaginativos) em termos plsticos. 
A opinio de Solmi sobre Leonardo  a seguinte (1908, 46): `O seu insacivel desejo de tudo compreender em seu redor e de pesquisar com atitude de fria superioridade 
o segredo mais profundo de toda a perfeio condenou sua obra a permanecer para sempre inacabada.'
         Em um ensaio publicado na Conferenze Fiorentine faz-se meno  seguinte frase de Leonardo, que bem representa sua confisso de f e fornece a chave para 
a compreenso de sua natureza: `Nessuma cosa si pu amare n odiare, se prima non si ha congnition di quella.' Isto : No se tem o direito de amar ou odiar qualquer 
coisa da qual no se tenha conhecimento profundo. Leonardo se repete em um trecho do tratado sobre pintura, onde parece estar-se defendendo contra a acusao de 
atesmo: `Mas esses crticos desagradveis melhor fariam se ficassem quietos. Pois  esse o caminho que conduz ao conhecimento do Criador de tantas coisas maravilhosas, 
e o melhor processo para se vir a amar um Inventor to grandioso. Pois, na verdade, o grande amor surge do conhecimento profundo do objeto amado e, se este for pouco 
conhecido, o seu amor por ele ser pouco ou nenhum...'
         O valor nesses comentrios de Leonardo no est em olh-los como reveladores de fatos psicolgicos importantes pois o que eles afirmam , obviamente, falso 
e Leonardo era to sabedor disto quanto ns. No  verdade que os seres humanos protelam o amor ou o dio at adquirirem conhecimento mais profundo e maior familiaridade 
com o objeto desses sentimentos. Ao contrrio, amam impulsivamente, movidos por emoes que nada tm a ver com conhecimento e cuja ao, muito ao contrrio, poder 
ser amortecida pela reflexo e pela observao. Leonardo, portanto, poderia, no mximo, querer dizer que o amor praticado por seres humanos no seria to desejvel 
e irrepreensvel: dever-se-ia amar controlando o sentimento, sujeitando-o  reflexo e somente permitir sua existncia quando capaz de resistir  prova do pensamento. 
Percebemos, assim, que procurou mostrar-nos como ele prprio procedia e demonstrar que todos deveriam tratar o amor e o dio como ele o fazia. 
         No seu caso parece que foi isso o que realmente sucedeu. Seus afetos eram controlados e submetidos ao instinto da pesquisa; ele no amava nem odiava, porm 
se perguntava acerca da origem e do significado daquilo que deveria amar ou odiar. Parecia, assim, forosamente, indiferente ao bem e ao mal, ao belo e ao horrvel. 
Durante esse trabalho de pesquisa, o amor e o dio se despiam de suas formas positivas ou negativas e ambos se transformavam apenas em objeto de interesse intelectual. 
Na verdade, Leonardo no era insensvel  paixo; no carecia da centelha sagrada que  direta ou indiretamente a fora motora - il primo motore - de qualquer atividade 
humana. Apenas convertera sua paixo em sede de conhecimento; entregava-se, ento,  investigao com a persistncia, constncia e penetrao que derivam da paixo 
e, ao atingir ao auge de seu trabalho intelectual, isto , a aquisio do conhecimento, permitia que o afeto h muito reprimido viesse  tona e transbordasse livremente, 
como se deixa correr a gua represada de um rio, aps ter sido utilizada. Quando, ao chegar ao clmax de uma descoberta, podia vislumbrar uma vasta poro de todo 
o conjunto, ele se deixava dominar pela emoo e, em linguagem exaltada, louvava o esplendor da parte da natureza que estudara ou, em sentido religioso, a grandeza 
do seu Criador. Esse processo de transformao em Leonardo foi bem compreendido por Solmi. Depois de citar uma passagem desse gnero em que Leonardo exalta a sublime 
lei da natureza (`O mirabile necessit...'), escreveu (1910, 11): `Tale trasfigurazione della scienza della natura in emozione, quasi direi, religiosa,  uno dei 
tratti caratteristici de' manoscritti viancini, e si trova cento e cento volte expressa...'
         Devido  sua sede insacivel e incansvel de conhecimento, Leonardo tem sido chamado o Fausto italiano. Embora longe de discutir a possvel transformao 
do instinto de investigao em prazer de viver - transformao que devemos considerar como fundamental na tragdia de Fausto - cremos poder arriscar a afirmativa 
de que a evoluo de Leonardo se aproxima do pensamento de Spinoza.
         A transformao da fora psquica instintiva em vrias formas de atividade, da mesma maneira que a transformao das foras fsicas, no poderia ser realizada 
sem prejuzo. O exemplo de Leonardo mostra-nos quantas outras coisas precisam ser consideradas com relao a estes processos. O adiamento do amor at o seu pleno 
conhecimento constitui um processo artificial que se transforma em uma substituio. De um homem que consegue chegar at o conhecimento no se poder dizer que ama 
ou odeia; situa-se alm do amor e do dio. Ter pesquisado em vez de amar. E ser, talvez, este o motivo pelo qual a vida de Leonardo foi to mais pobre de amor 
do que a de outros grandes homens, e de outros artistas. As tormentosas paixes de uma natureza, que inspiram e que esgotam, paixes que foram, para outros, fonte 
das experincias mais plenas, parecem no o haver atingido.
         Existem ainda outras conseqncias. A investigao substituiu a ao e tambm a criao. Um homem que comeou a vislumbrar a grandeza do universo com todas 
as suas complexidades e suas leis, esquece facilmente sua prpria insignificncia. Perdido de admirao e cheio de verdadeira humildade, facilmente esquece ser, 
ele prprio, uma parte dessas foras ativas e que, de acordo com a medida de sua prpria fora, ter um caminho aberto diante de si para tentar alterar uma pequena 
parcela do curso preestabelecido para o mundo - um mundo em que as menores coisas so to importantes e extraordinrias quanto o so as coisas grandiosas.
         As pesquisas de Leonardo visavam, originalmente, como acredita Solmi, o interesse de sua arte; dedicou seus esforos a estudar as particularidades e as 
leis da luz, das cores, das sombras e da perspectiva, a fim de tornar-se exmio em suas imitaes da natureza e transmitir aos outros os seus conhecimentos.  provvel 
que nesse tempo ele j superestimava o valor, para o artista, desses ramos do conhecimento. Sempre seguindo o rumo determinado pelas solicitaes de sua pintura, 
foi levado a estudar os modelos do pintor, animais e plantas, e as propores do corpo humano; e, depois do conhecimento de sua forma exterior, continuou ainda a 
estudar-lhe a estrutura interna e as suas funes vitais, coisa que, na verdade, influi tambm na aparncia externa e merece ser considerada nos trabalhos artsticos. 
E, finalmente, o instinto, que se tornara dominante, carregou-o mais longe ainda fazendo-o ultrapassar as limitaes da demanda de sua arte e descobrir as leis gerais 
da mecnica e adivinhar a histria da estratificao e fossilizao no vale do Arno, at chegar ao ponto de poder escrever em seu livro, com letras enormes, a sua 
descoberta: Il sole non si move. Suas investigaes estenderam-se praticamente a quase todos os ramos da cincia natural e em cada um ele foi um descobridor ou, 
pelo menos, um profeta e pioneiro. No entanto, sua nsia de conhecimento foi sempre dirigida ao mundo exterior; qualquer coisa o afastava da investigao da alma 
humana. Na `Academia Vinciana' [ver em [1]], para a qual desenhou alguns emblemas habilmente entrelaados, pouco lugar havia para a psicologia.
         Depois da pesquisa, quando tentou voltar ao seu ponto de partida, o exerccio de sua arte, sentiu-se perturbado pelo novo rumo de seus interesses e pela 
mudana na natureza de sua atividade mental. O que o interessava num quadro era, acima de tudo, um problema; e aps o primeiro via inmeros outros problemas que 
surgiam, como costumava acontecer com suas interminveis e infatigveis investigaes sobre a natureza. No conseguia mais limitar suas exigncias, ver a obra de 
arte isoladamente, separando-a da vasta estrutura da qual sabia que era parte integrante. Depois de esforos exaustivos para exprimir numa obra de arte tudo o que 
tinha em seu pensamento com relao a ela, era forado a desistir, deixando-a inacabada ou declarando-a incompleta.
         O artista usara o pesquisador para servir  sua arte; agora o servo tornou-se mais forte que o seu senhor e o dominou.
         Quando verificamos que na imagem apresentada pelo carter de uma pessoa um nico instinto adquiriu uma fora exagerada, como aconteceu com a nsia de conhecimento 
em Leonardo, procuramos a explicao numa predisposio especial - embora as suas determinantes (provavelmente orgnicas) nos sejam ainda praticamente desconhecidas. 
Nossos estudos psicanalticos dos neurticos levaram-nos, no entanto, a formular mais duas hipteses que seria gratificante encontrar confirmadas em cada caso particular. 
Cremos ser provvel que um instinto como aquele, de fora excessiva, j era ativo na primeira infncia do indivduo e que a sua supremacia foi estabelecida por impresses 
ocorridas na vida da criana. Admitimos ainda que este instinto foi reforado por aquilo que, originariamente, seriam foras sexuais instintivas, de modo que mais 
tarde poderia vir a substituir uma parcela da vida sexual do indivduo. Uma pessoa desse tipo poderia, por exemplo, dedicar-se  pesquisa com o mesmo ardor com que 
uma outra se dedicaria ao seu amor, e seria capaz de investigar em vez de amar. Aventuramo-nos a asseverar que no ser somente no caso do instinto de investigao 
que ter havido uma intensificao sexual mas, tambm, em muitos outros casos em que um instinto se torne sobremodo intenso.
         A observao da vida cotidiana das pessoas mostra-nos que a maioria conseguiu orientar uma boa parte das foras resultantes do instinto sexual para sua 
atividade profissional. O instinto sexual presta-se bem a isso, j que  dotado de uma capacidade de sublimao: isto , tem a capacidade de substituir seu objetivo 
imediato por outros desprovidos de carter sexual e que possam ser mais altamente valorizados. Aceitamos este processo como verdadeiro sempre que na histria da 
infncia de uma pessoa - isto , na histria de seu desenvolvimento psquico - evidenciamos que, na infncia, esse instinto poderoso foi usado para satisfazer interesses 
sexuais. Constatamos a veracidade deste fato se ocorrer uma atrofia estranha durante a vida sexual da maturidade, como se uma parcela da atividade sexual houvesse 
sido agora substituda pela atividade do impulso dominante.
         Parece haver uma dificuldade especial na aplicao dessas hipteses no caso em que o instinto todo-poderoso  o de pesquisa, pois que, sobretudo em se tratando 
de crianas, h sempre uma relutncia em conceder-lhes tanto esse instinto como qualquer interesse sexual que seja digno de ateno. No entanto, essas dificuldades 
so facilmente solucionveis. A curiosidade das crianas pequenas se manifesta no prazer incansvel que sentem em fazer perguntas; isso deixa o adulto perplexo at 
vir a compreender que todas essas perguntas no passam de meros circunlquios que nunca cessam, pois a criana os est usando em substituio quela nica pergunta 
que nunca faz. Quando ela cresce e se sente mais bem informada, essa forma de curiosidade muitas vezes desaparece repentinamente. A pesquisa psicanaltica oferece-nos 
a explicao completa mostrando que a maioria das crianas, ou pelo menos as mais inteligentes, atravessam um perodo de pesquisas sexuais infantis. Ao que sabemos, 
a curiosidade das crianas nessa idade no  espontnea mas ocasionada pela impresso causada por algum acontecimento importante - pelo nascimento de um irmozinho 
ou irmzinha ou pelo temor de que isso acontea, baseado em outras experincias externas - e que representa para elas uma ameaa aos seus interesses egostas. As 
investigaes visam a saber de onde vm os bebs, exatamente como se a criana estivesse procurando modos e meios de evitar to indesejvel acontecimento. Desse 
modo, temos verificado, com surpresa, que as crianas se negam a aceitar as poucas informaes que se lhes do - assim, por exemplo, recusam energicamente a fbula 
da cegonha, com a sua riqueza de significados mitolgicos - iniciando sua independncia intelectual com esse ato de incredulidade, sentindo-se muitas vezes em franco 
antagonismo com os adultos e, de fato, jamais lhe perdoam por t-las decepcionado naquela ocasio omitindo os fatos reais. Elas investigam por conta prpria, adivinham 
a presena do beb dentro do corpo de sua me e, seguindo os impulsos de sua prpria sexualidade, teorizam tudo: a origem do beb, atribuindo-a  comida; o seu nascimento, 
explicando-o pelas vias intestinais, e sobre a parte obscura que cabe ao pai. Naquela ocasio, j tm uma noo do ato sexual, que lhes parece ser alguma coisa hostil 
e violenta. Mas como a sua prpria constituio sexual ainda no atingiu o ponto de poder fazer bebs, sua investigao sobre o problema da origem dos bebs acaba 
tambm sem soluo sendo finalmente abandonada. A impresso causada por esse fracasso em sua primeira tentativa de independncia intelectual parece ser de carter 
duradouro e profundamente depressivo.
         Quando o perodo de pesquisa sexual infantil chega a um final aps um perodo de enrgica represso sexual, o impulso de pesquisa ter trs possveis diferentes 
vicissitudes, resultantes de sua relao primitiva com interesses sexuais. No primeiro caso, a pesquisa participa do destino da sexualidade; portanto, a curiosidade 
permanecer inibida e a liberdade da atividade intelectual poder ficar limitada durante todo o decorrer de sua vida, sobretudo porque, logo a seguir, a influncia 
da educao acarretar uma intensa inibio religiosa do pensamento. Este  o tipo caracterizado por uma inibio neurtica. Bem sabemos que o enfraquecimento intelectual 
adquirido nesse processo representa um fator efetivo na irrupo de uma enfermidade neurtica. Num segundo tipo, o desenvolvimento intelectual  suficientemente 
forte para resistir  represso sexual que o domina. Algum tempo aps o trmino das pesquisas sexuais infantis, a inteligncia, tendo se tornado mais forte, recorda 
a antiga associao e ajuda a evitar a represso sexual, e as suprimidas atividades sexuais de pesquisa emergem do inconsciente sob a forma de uma preocupao pesquisadora 
compulsiva, naturalmente sob uma forma distorcida e no-livre, mas suficientemente forte para sexualizar o prprio pensamento e colorir as operaes intelectuais, 
com o prazer e a ansiedade caractersticos dos processos sexuais. Neste caso, a pesquisa torna-se uma atividade sexual, muitas vezes a nica, e o sentimento que 
advm da intelectualizao e explicao das coisas substitui a satisfao sexual; mas o carter interminvel das pesquisas infantis  tambm repetido no fato de 
que tal preocupao nunca termina e que o sentimento intelectual, to desejado, de alcanar uma soluo, torna-se cada vez mais distante.
         Devido a uma predisposio especial, o terceiro tipo, que  o mais raro e mais perfeito, escapa tanto  inibio do pensamento quanto ao pensamento neurtico 
compulsivo.  verdade que nele tambm existe a represso sexual, mas ela no consegue relegar para o inconsciente nenhum componente instintivo do desejo sexual. 
Em vez disso, a libido escapa ao destino da represso sendo sublimada desde o comeo em curiosidade e ligando-se ao poderoso instinto de pesquisa como forma de se 
fortalecer. Tambm nesse caso a pesquisa torna-se, at certo ponto, compulsiva e funciona como substitutivo para a atividade sexual; mas, devido  total diferena 
nos processos psicolgicos subjacentes (sublimao ao invs de um retorno do inconsciente), a qualidade neurtica est ausente; no h ligao com os complexos originais 
da pesquisa sexual infantil e o instinto pode agir livremente a servio do interesse intelectual. A represso sexual, que tornou o instinto to forte ao acrescentar-lhe 
libido sublimada, ainda influencia o instinto, no sentido de faz-lo evitar qualquer preocupao com temas sexuais.
         Se refletirmos acerca da ocorrncia, em Leonardo, desse poderoso instinto de pesquisa e a atrofia de sua vida sexual (restrita ao que poderamos chamar 
de homossexualidade ideal [sublimada]), sentir-nos-emos inclinados a proclam-lo um modelo ideal do nosso terceiro tipo. A essncia e o segredo de sua natureza parecem 
derivar do fato que, depois de sua curiosidade ter sido ativada, na infncia, a servio de interesses sexuais, conseguiu sublimar a maior parte da sua libido em 
sua nsia pela pesquisa. Mas, por certo, no ser fcil provar a verdade dessa hiptese. Para faz-lo, necessitaramos conhecer alguns pormenores sobre seu desenvolvimento 
mental durante os primeiros anos de sua infncia, e parece absurdo desejar dados dessa natureza quando os pormenores sobre sua vida so to escassos e to inseguros, 
e ainda mais por tratarem de informaes sobre circunstncias que ainda hoje escapam  ateno dos observadores, mesmo em se tratando de pessoas de nossa gerao.
         Sobre a juventude de Leonardo sabemos muito pouco. Nasceu em 1452 na cidadezinha de Vinci, entre Florena e Empoli; era filho ilegtimo, o que naqueles 
dias certamente no constitua estima social muito grave; seu pai era Ser Piero da Vinci, um tabelio que descendia de uma famlia de tabelies e de fazendeiros 
que tiraram seu sobrenome da localidade de Vinci; sua me foi uma tal Caterina, provavelmente uma camponesa, que mais tarde se casou com outro compatrcio de Vinci. 
Esta me no volta a aparecer na histria da vida de Leonardo e somente Merezhkovsky, o escritor, acreditou ter encontrado vestgios seus. O nico fragmento de informao 
precisa sobre a infncia de Leonardo aparece num documento oficial do ano de 1457; trata-se de um registro de terras, em Florena, para taxao de impostos e que, 
entre os componentes da famlia Vinci, menciona Leonardo, de cinco anos de idade e filho ilegtimo de Ser Piero. Do casamento de Ser Piero com uma tal Donna Albiera 
no houve filhos, o que tornou possvel educar o pequeno Leonardo na casa de seu pai. Permaneceu nesta casa at entrar para o estdio de Andrea del Verrocchio, como 
aprendiz, no sabemos com que idade. No ano de 1472, o nome de Leonardo j se encontrava na lista dos membros da `Compagnia dei Pittori'. E isso  tudo.
         
         II
         Ao que eu saiba, existe apenas um trecho nos apontamentos cientficos de Leonardo em que ele insere um fragmento de informao sobre sua infncia. Numa 
passagem acerca do vo dos abutres ele se interrompe subitamente para descrever uma recordao de sua tenra infncia, que lhe veio  memria:
         `Parece que j era meu destino preocupar-me to profundamente com abutres; pois guardo como uma das minhas primeiras recordaes que, estando em meu bero, 
um abutre desceu sobre mim, abriu-me a boca com sua cauda e com ela fustigou-me repetidas vezes os lbios.'
         O que encontramos aqui , portanto, uma recordao de infncia, e sem dvida de natureza bem estranha. No s estranha pelo que conta como pela idade a 
que se refere. Que uma pessoa possa lembrar-se de alguma coisa da poca de sua amamentao talvez no seja impossvel, porm essa recordao no poder, certamente, 
ser considerada real. No entanto, o que a memria de Leonardo afirma - que um abutre abriu a boca da criana com sua cauda - parece to pouco provvel e to fabuloso, 
que uma outra hiptese seria talvez mais cabvel e poria um fim s duas dificuldades antes mencionadas. Nessa outra verso, a cena do abutre no seria uma recordao 
de Leonardo, porm uma fantasia que ele criou mais tarde transpondo-a para sua infncia.
         
          deste modo que muitas vezes se originam as lembranas da infncia. Muito diferentes das lembranas conscientes da idade adulta, elas no se fixam no momento 
da experincia para mais tarde serem repetidas; somente surgem muito mais tarde, quando a infncia j acabou; nesse processo, sofrem alteraes e falsificaes de 
acordo com os interesses de tendncias ulteriores, de maneira que, de um modo geral, no podero ser claramente diferenadas de fantasias. Talvez se possa melhor 
explica-lhes a natureza comparando-as com o comeo da crnica histrica entre os povos da antiguidade. Enquanto as naes eram pequenas e fracas, no cuidavam de 
escrever a sua histria. Os homens lavravam suas terras, lutavam com seus vizinhos defendendo sua sobrevivncia e procuravam conquistar mais territrio e riquezas. 
Foi uma poca de heris e no de historiadores. Seguiu-se outra poca - a da reflexo; os homens sentiram-se ricos e poderosos e agora sentiam uma necessidade de 
saber de onde tinham vindo e como haviam evoludo. Os relatos histricos, que comearam por anotar os sucesso do presente, voltam-se ento para o passado recolhendo 
lendas e tradies, interpretando os vestgios da antiguidade que subsistiam ainda em costumes e usos, e dessa maneira criou-se uma histria do passado. Era inevitvel 
que essa histria primitiva fosse a expresso das crenas e desejos do presente, e no a imagem verdadeira do passado; muitas coisas j haviam sido esquecidas enquanto 
outras haviam sido destorcidas e alguns remanescentes do passado eram interpretados erradamente, de modo a corresponderem s idias contemporneas. Alm do mais, 
o motivo que levava as pessoas a escreverem histria no era uma curiosidade objetiva mas sim o desejo de influenciar seus contemporneos, de anim-los e inspir-los, 
ou mostrar-lhes um exemplo onde mirar-se. A memria consciente do homem com relao aos acontecimentos do seu perodo de madureza pode bem ser comparada ao tipo 
primitivo de relatos da histria [uma crnica dos acontecimentos da poca]; enquanto as lembranas que ele tem de sua infncia correspondem, quanto s suas origens 
e credibilidade,  histria das origens de uma nao compilada mais tarde e sob influncias tendenciosas.
         
         Portanto, se a histria de Leonardo a respeito do abutre que o visitou no bero houver sido apenas uma fantasia de uma poca posterior, poderamos concluir 
no valer a pena dedicar-lhe tanto tempo. Poderamos satisfazer-nos em explic-la a partir da tendncia, que ele prprio no esconde, de considerar a sua preocupao 
com o vo dos pssaros como sendo uma fatalidade de seu destino. No entanto, menosprezando essa histria cometeramos uma injustia to grande como faramos se desprezssemos 
o conjunto de lendas, tradies e interpretaes encontradas na histria primitiva de uma nao. A despeito de todas as distores e mal-entendidos elas ainda representam 
a realidade do passado: representam aquilo que um povo constri com a experincia de seus tempos primitivos e sob a influncia de motivos que, poderosos em pocas 
passadas, ainda se fazem sentir na atualidade; e, se fosse possvel, atravs do conhecimento de todas as foras atuantes, desfazer essas distores, no haveria 
dificuldade em desvendar a verdade histrica que se esconde atrs do acervo lendrio. Isto se aplica tambm s lembranas da infncia ou s fantasias do indivduo. 
O que algum cr lembrar da infncia no pode ser considerado com indiferena; como regra geral, os restos de recordaes - que ele prprio no compreende - encobrem 
valiosos testemunhos dos traos mais importantes de seu desenvolvimento mental. Como hoje contamos nas tcnicas da psicanlise com excelentes mtodos que nos ajudam 
a trazer para a superfcie esses elementos ocultos, podemos tentar preencher a lacuna que existe na histria da vida de Leonardo analisando a sua fantasia infantil. 
E se ao faz-lo no ficarmos satisfeitos com o grau de certeza que alcanamos, teremos de consolar-nos lembrando que inmeros outros estudos sobre esse grande e 
enigmtico homem no tiveram melhor destino.
         Se a examinarmos do ponto de vista de um psicanalista, a fantasia de Leonardo acerca do abutre no nos parecer mais to estranha. Verificaremos j ter 
encontrado casos semelhantes em muitas situaes diferentes, em sonhos, por exemplo. Aventuramo-nos, assim, a traduzir a linguagem da fantasia em palavras mais facilmente 
compreensveis. A traduo nos revelar ento um contedo ertico. A cauda, `coda',  um dos smbolos mais familiares e substitui expresses referentes ao rgo 
masculino, tanto em italiano como em outras lnguas; a situao, na fantasia, de um abutre abrindo a boca da criana e fustigando-a vigorosamente por dentro com 
a sua cauda, corresponde  idia de um ato de fellatio, um ato sexual no qual o pnis  introduzido na boca da pessoa envolvida.  estranho que essa fantasia represente 
uma situao de carter to evidentemente passivo; parece-se com certos sonhos e fantasias encontradas em mulheres ou em homossexuais passivos (que desempenham o 
papel da mulher nas relaes sexuais).
         Espero que o leitor no se deixe dominar por um sentimento de indignao que o impea de seguir a psicanlise ao verificar que em sua primitiva aplicao 
infere uma imperdovel ofensa  memria de um homem grande e puro. Evidentemente tal indignao jamais nos far conhecer o significado da fantasia de infncia de 
Leonardo. Por sua vez, Leonardo descreveu a fantasia da maneira mais inequvoca e ns no podemos abandonar nossa esperana, ou, melhor ainda, nossa certeza, de 
que uma fantasia dessa natureza ter de ter algum significado, da mesma forma que qualquer outra criao psquica: um sonho, uma viso, um delrio. Vamos, portanto, 
dar uma oportunidade ao trabalho da anlise, que na verdade ainda no disse sua ltima palavra.
         A tendncia a botar o rgo sexual masculino na boca e a chup-lo, o que numa sociedade respeitvel  considerado uma perverso sexual horrvel, encontra-se, 
no entanto, com muita freqncia entre as mulheres de hoje - e de outros tempos tambm, como o evidenciam esculturas da antiguidade - e no ardor da paixo isso parece 
perder completamente o seu carter repulsivo. Fantasias derivadas dessa tendncia tm sido encontradas pelos mdicos at mesmo em mulheres que nunca leram a Psychopathia 
Sexualis de Krafft-Ebing ou outra qualquer fonte de informao que lhes mostrasse a possibilidade de obter satisfao sexual desse modo. Parece que as mulheres no 
sentem dificuldade em imaginar espontaneamente uma fantasia dessa natureza. Novas pesquisas levam-nos a verificar que essa situao, que a moral condena com tanta 
severidade, pode ser reduzida a uma origem das mais inocentes. Ela no faz seno reproduzir, de modo diferente, uma situao em que todos ns j nos sentimos confortveis 
- quando ainda mamvamos (`essendo io in culla') e pnhamos em nossa boca o bico do seio de nossa me (ou ama-de-leite) e o sugvamos. A impresso orgnica dessa 
experincia - a primeira fonte de prazer em nossa vida - permanece, sem dvida, indelevelmente marcada em ns; e quando mais tarde a criana descobre o bere da 
vaca, cuja funo  a mesma que a do seio porm que mais se assemelha a um pnis pela sua forma sua posio em baixo da barriga, ter atingido a fase preliminar 
que mais tarde lhe permitir formular a fantasia sexual repulsiva.
         Compreendemos ento porque Leonardo veio a associar a lembrana de sua suposta experincia do abutre com a sua poca de lactncia. O que a fantasia encerra 
 meramente uma reminiscncia do ato de sugar - ou ser sugado - o seio de sua me, uma cena de humana beleza que ele, como tantos outros artistas, esmerou-se em 
reproduzir em seus quadros ao representar a me de Deus e seu Menino. Existe, tambm, um outro aspecto que ainda no compreendemos e que no devemos perder de vista; 
essa recordao igualmente importante para ambos os sexos, foi transformada, pelo homem Leonardo, numa fantasia homossexual passiva. Por enquanto deixaremos de lado 
a relao que possa ter a homossexualidade com a imagem da criana mamando no seio da me, lembrando-nos, apenas, que a tradio, na verdade, sempre apontou Leonardo 
como sendo um homem de sentimentos homossexuais. Neste sentido no tem muita importncia para o nosso estudo saber se era justificada, ou no, a acusao feita ao 
jovem Leonardo (ver a partir de [1]). O que nos leva a classificar algum como sendo um invertido no  o seu comportamento real porm a sua atitude emocional.
         O nosso interesse  despertado, a seguir, por outra faceta incompreensvel da fantasia infantil de Leonardo. Interpretamos a fantasia como o ato de ser 
amamentado por sua me e vemos a me ser substituda por um abutre. De onde veio esse abutre e por que motivo aparece nesse lugar?
         Neste ponto surge em nossa mente um pensamento vindo de to longe que somos quase tentados a p-lo de lado. Nos hierglifos do antigo Egito a me era representada 
pela imagem de um abutre. Os egpcios veneravam tambm uma Deusa-Me que era representada com cabea de abutre ou, ento, com vrias cabeas, das quais pelo menos 
uma era de abutre. O nome dessa deusa era pronunciado Mut. Ser que a sua semelhana com a nossa palavra Mutter [me]  mera coincidncia? Existe, portanto, uma 
relao real entre abutre e me - mas em que  que isto nos pode ajudar? No podemos esperar que Leonardo tivesse tido conhecimento disto pois sabemos que o primeiro 
homem que conseguiu decifrar os hierglifos foi Franois Champollion, que viveu entre 1790-1832.
         Seria interessante procurar saber por que motivo os antigos egpcios vieram a escolher o abutre como smbolo da maternidade. A religio e a civilizao 
dos egpcios sempre constituiu objeto de curiosidade cientfica, at mesmo entre os gregos e romanos; e mesmo antes de podermos decifrar os monumentos egpcios, 
dispnhamos j de muitos elementos de informao sobre eles, tirados dos escritos remanescentes da antiguidade clssica. Alguns desses escritos eram de autores bastante 
conhecidos, tais como Estrabo, Plutarco e Amiano Marcelino; ao passo que outros so de autores pouco conhecidos e duvidosos quanto s suas origens e datas de composio, 
tal como a Hieroglyphica de Horapollo Nilous e o livro da sabedoria sacerdotal oriental, que chegou at ns sob o nome do deus Hermes Trismegistos. Por essas fontes 
ficamos sabendo que o abutre era considerado um smbolo da maternidade, pois acreditavam que somente havia abutres do sexo feminino; no havia, pensavam eles, machos 
nessa espcie. Uma contraparte dessa limitao a um nico sexo existia tambm na histria natural da antiguidade: neste caso, referia-se ao escaravelho, que os egpcios 
adoravam como divino e do qual julgavam existir somente machos.
         Portanto, como poderiam os abutres ser fertilizados se no existiam seno fmeas? Isto se encontra claramente explicado num trecho de Horapollo. Em certa 
poca essas aves se detm em meio ao vo, abrem a sua vagina e so fecundados pelo vento.
         Chegamos agora, inesperadamente, a um ponto em que podemos considerar assaz provvel aquilo que pouco antes tnhamos de recusar como absurdo.  bem possvel 
que Leonardo conhecesse a fbula cientfica responsvel por ser a figura do abutre usada pelos egpcios para representar a idia de me. Ele lia muito e o seu interesse 
estendia-se a todos os ramos da literatura e do saber. No Codex Atlanticus encontramos um catlogo de todos os livros que possua em determinada data e, alm disso, 
conhecemos muitas anotaes suas em livros emprestados por amigos; e, se considerarmos o extrato de seus apontamentos feitos por Richter [1883], veremos que a extenso 
de suas leituras dificilmente ser superestimada. Obras antigas sobre histria natural figuram em grande nmero ao lado de livros contemporneos; e, j naquela poca, 
todos eles tinham sido impressos. Na verdade, Milo era a cidade italiana lder na nova arte de imprimir.
         Mais adiante chegamos a uma fone de informao que poder transformar em certeza a hiptese de ter Leonardo conhecimento da lenda do abutre. O culto editor 
e comentador de Horapollo escreveu a seguinte nota no texto j mencionado acima [Leemans, 1835, 172]: `Caeterum hanc fabulam de vulturibus cupide amplexi sunt Patres 
Ecclesiastici, ut ita argumento ex rerum natura petito refutarent eos, qui Virginis partum negabant; itaque apud omnes fere hujus rei mentio occurrit.'
         Assim, portanto, a fbula sobre o sexo nico dos abutres e sobre seu modo de fecundao estava longe de ser apenas uma anedota, como o caso anlogo do escaravelho; 
tinha sido adotada pelos Padres da Igreja a fim de ser usada como um exemplo tirano da histria natural e servir de prova para os que pusessem em dvida a histria 
sagrada. Se os abutres, segundo os melhores testemunhos da antiguidade, dependiam do vento para serem fertilizados, por que no teria, alguma vez, acontecido a mesma 
coisa com uma mulher? J que a fbula do abutre podia ser usada para este fim, `quase todos' os Padres da Igreja passaram a narr-la e, portanto, ser quase impossvel 
duvidar que Leonardo tambm a conhecesse, considerando-se o fato de a sua divulgao ter sido feita por meio de to amplo patrocnio.
         Podemos, assim, reconstituir a origem da fantasia de Leonardo com o abutre. Ele provavelmente teria lido em algum compndio de histria natural ou num livro 
de algum Padre a afirmao de que todos os abutres eram fmeas e podiam reproduzir-se sem ajuda de qualquer macho; nessa altura ocorreu-lhe uma lembrana que se 
transformou na fantasia que estamos analisando mas que, na verdade, significava que ele tambm havia sido uma tal cria de abutre - tinha me mas no tinha pai. E 
essa lembrana se associava - na nica maneira que impresses de idade to distante se podem manifestar - com a reminiscncia que podia subsistir do prazer que teria 
sentido sugando o seio de sua me. A insinuao feita pelos Padres da Igreja relativamente  Virgem Sagrada e seu filho - idia essa cara a todos os artistas - deve 
ter infludo para valorizar sua fantasia e torn-la ainda mais importante. Deste modo podia identificar-se, ele prprio, com o Menino Jesus, o salvador e consolador 
de todos, e no de uma nica mulher.
         O nosso objetivo ao analisar uma fantasia da infncia  o de separar o elemento mnnico real que ela contm dos motivos posteriores que o modificam e distorcem. 
No caso de Leonardo, acreditamos conhecer agora o significado real da fantasia: a substituio de sua me pelo abutre indica que a criana tinha conhecimento da 
ausncia do pai e se sentia solitrio junto  sua me. O nascimento ilegtimo de Leonardo concorda com a sua fantasia sobre o abutre; somente debaixo desse aspecto 
poderia comparar-se a um filhote de abutre. Depois disso, o que de verdadeiro sabemos de sua infncia  que, aos cinco anos, ele tinha sido recebido j em casa de 
seu pai. No temos, no entanto, a menor indicao de quando isto aconteceu - se foi poucos meses aps seu nascimento ou poucas semanas antes de ser feito o levantamento 
para o registro territorial [ver em [1]].  nesse ponto que a interpretao da fantasia do abutre interfere: ela parece querer contar-nos que Leonardo passou os 
primeiros e decisivos anos de sua vida, no ao lado do pai ou da madrasta, mas sim com a sua verdadeira me, pobre e abandonada, e assim teve tempo de sentir a ausncia 
de seu pai. Embora ousada, esta concluso parece ser por demais insignificante para ser apresentada como resultado de nossos estudos psicanalticos, porm a sua 
importncia aumentar  medida que continuarmos a nossa investigao. A sua veracidade  confirmada quando consideramos as circunstncias que de fato rodearam a 
infncia de Leonardo. No mesmo ano em que Leonardo nasceu, segundo as fontes oficiais, seu pai, Ser Piero da Vinci, casou-se com Donna Albiera, senhora de boa origem. 
Foi devido  esterilidade desse casamento que o menino foi recebido em casa de seu pai (ou melhor, em casa de seu av) - coisa que havia acontecido quando ele se 
encontrava pelos cinco anos, segundo atesta o documento. Ora, no  comum logo no princpio de um casamento trazer um filho ilegtimo para ser cuidado pela jovem 
esposa, que ainda espera ser afortunada com o nascimento de seus prprios filhos. Muitos anos de frustrao tero certamente decorrido antes da deciso de adoo 
do filho ilegtimo - que provavelmente j se havia tornado um garoto interessante - para compensar a ausncia dos filhos legtimos desejados. A interpretao da 
fantasia do abutre tornar-se-ia mais fcil se houvessem decorrido uns trs anos da vida de Leonardo, talvez mesmo cinco, antes que ele pudesse trocar a figura solitria 
de sua me por uma parelha parental. J era tarde, no entanto. Nos primeiros trs ou quatro anos da vida certas impresses tornam-se fixadas e as formas de reao 
para com o mundo exterior ficam estabelecidas, e nunca mais perdero a sua importncia por meio de outras experincias posteriores.
         Se  verdade que as lembranas ininteligveis da infncia de uma pessoa, as fantasias que delas resultam, invariavelmente gravam os elementos mais importantes 
do desenvolvimento mental, segue-se, ento, que o fato confirmado pela fantasia do abutre, isto , que Leonardo passou os primeiros anos de sua vida sozinho com 
sua me, ter exercido influncia decisiva na formao de sua vida interior. Uma conseqncia inevitvel dessa situao foi que a criana - que em sua tenra infncia 
enfrentou um problema a mais do que as outras crianas - comeou a pensar nesse enigma com uma intensidade toda especial, e, assim, numa tenra idade tornou-se um 
pesquisador atormentado pela grande pergunta - saber de onde vm os bebs e o que tem a ver o pai com sua origem. Foi uma vaga suspeita de que suas pesquisas e a 
histria de sua infncia estivessem assim ligadas que o fez mais tarde, declarar que tinha sido destinado, desde o comeo de sua vida, a investigar o problema do 
vo das aves, j que havia sido visitado por um abutre, quando em seu bero. Mais tarde, no ser difcil mostrar que sua curiosidade acerca do vo das aves deriva 
das pesquisas sexuais da sua infncia.
         
         III
         Na fantasia infantil de Leonardo tomamos o elemento abutre como representante do contedo real de sua lembrana, ao passo que o contexto em que o prprio 
Leonardo coloca sua fantasia esclarece muito a importncia que teve esse contedo para sua vida posterior. Continuando com o nosso trabalho de interpretao, chegamos 
agora ao estranho problema de saber por que motivo esse contedo foi transformado em uma situao homossexual. A me que amamenta a criana, isto , em cujo seio 
a criana mama, foi transformada num abutre que pe a sua cauda dentro da boca da criana. J tivemos ocasio de mostrar [ver em [1]] que, de acordo com as freqentes 
substituies de que se serve a linguagem, a `cauda' do abutre deve, com toda certeza, significar o genital masculino, um pnis. Mas no podemos compreender como 
a atividade imaginativa pode ter atribudo justamente a esse pssaro, que representa a me, as caractersticas da masculinidade; diante desse absurdo ficamos sem 
saber como reduzir esta criao da fantasia de Leonardo a qualquer significado racional.
         No entanto no devemos perder a esperana, sobretudo quando nos lembramos do nmero enorme de sonhos, aparentemente absurdos, cujo significado j conseguimos 
desvendar. Existe alguma razo para que uma lembrana da infncia nos oferea maiores dificuldades do que um sonho?
         Recordando que no convm analisar uma caracterstica peculiar isoladamente, apressamo-nos em trazer uma outra que nos parece ainda mais estranha.
         A deusa egpcia Mut, que tinha cabea de abutre, figura sem nenhuma caracterstica pessoal, segundo o artigo de Drexler no lxico de Roscher, fundia-se 
freqentemente com outras deusas de personalidade mais marcante, tais como sis e Hathor, porm conservou, ao mesmo tempo, separados, sua existncia e seu culto. 
Uma caracterstica especial do panteo egpcio era que os deuses individuais no desapareciam quando ocorria um processo de sincretismo. Ao mesmo tempo que sucedia 
a fuso dos deuses, as divindades individuais continuavam a sua existncia independente. Ora, essa deusa-me com cabea de abutre era geralmente representada pelos 
egpcios com um falo; seu corpo era de mulher, conforme mostram os seus seios, mas possua tambm um membro masculino em ereo. Encontramos, portanto, na deusa 
Mut a mesma combinao de caractersticas maternais e masculinas que existem na fantasia de Leonardo sobre o abutre. Deveremos explicar esta coincidncia afirmando 
que Leonardo tomou conhecimento, atravs da leitura de seus livros [ver em [1]] da natureza andrgina do abutre maternal? Uma tal possibilidade  assaz duvidosa; 
parece que as fontes s quais tinha acesso no continham nenhuma informao sobre este notvel pormenor. Parece mais plausvel buscar a explicao dessa coincidncia 
num fator comum operativo, vlido para ambos os casos mas desconhecidos para ns at este momento.
         A mitologia nos ensina que a constituio andrgina, isto , uma combinao das caractersticas masculinas e femininas, era atributo no s de Mut mas tambm 
de outras divindades, tais como sis e Hathor - estes, no entanto, talvez pelo fato de possurem tambm uma natureza maternal e se confundirem com Mut (Rmer, 1903). 
Ensina-nos, mais, que outras divindades egpcias tais como Neith de Sas - de quem se originou, mais tarde, a Atenia dos gregos - foram originariamente representadas 
como andrginas, isto , como hermafroditas, e que o mesmo se dava com muitos dos deuses gregos, especialmente aqueles que eram associados a Dionsio mas tambm 
a Afrodite, que mais tarde se limitou a representar uma deusa feminina do amor. A mitologia explica que o acrscimo de um falo ao corpo feminino  uma representao 
da fora primitiva criadora da natureza, e que todas essas divindades hermafroditas so expresses da idia de que somente a combinao dos elementos masculino e 
feminino podero de fato simbolizar a perfeio divina. Mas nenhuma dessas consideraes nos explica o fato psicolgico to estranho de a imaginao humana no vacilar 
em emprestar a uma imagem que pretende essencialmente representar a me um atributo da potncia masculina que representa exatamente o oposto de qualquer idia maternal.
         As teorias sexuais infantis explicam-nos isso. Existe uma poca em que o genital masculino  compatvel com a imagem da me. Quando um menino comea a ter 
curiosidade pelos enigmas da vida sexual, fica dominado pelo interesse que tem pelo seu prprio genital. Passa a considerar essa parte de seu corpo valiosa e importantssima 
para ele e cr que ela deve existir nas outras pessoas com as quais ele se acha parecido. Como no pode adivinhar a existncia de outra conformao genital igualmente 
importante,  forado a forjar a hiptese de que todos os seres humanos, tanto os homens quanto as mulheres, possuem um pnis igual ao seu. Este preconceito se torna 
de tal maneira imbudo no investigador infantil que no desaparece nem mesmo quando, pela primeira vez, chega a observar o genital das meninas. Sua percepo mostra-lhe 
que h alguma coisa diferente do que ele possui mas  incapaz de admitir que o contedo de sua percepo  que ele no pode encontrar um pnis nas meninas. A sua 
falta parece-lhe uma coisa sinistra e intolervel e procurando uma soluo de compromisso chega  concluso de que as meninas tambm possuem um pnis, somente que 
 ainda muito pequeno; e que, depois, ele crescer. Mais tarde, quando percebe que isso no acontece, encontra outra explicao: as meninas tambm tinham um pnis, 
mas ele foi cortado e em seu lugar ficou apenas uma ferida. Este avano terico j implica experincias pessoais de carter penoso: nesse intervalo o menino j ter 
ouvido ameaas de lhe cortarem o rgo que tanto preza, caso venha a demonstrar um interesse demasiadamente ostensivo por ele. Sob a influncia dessa ameaa de castrao, 
ele agora interpreta de modo diferente o conhecimento adquirido sobre os genitais femininos; da em diante recear por sua masculinidade e, ao mesmo tempo, menosprezar 
as infelizes criaturas que j receberam o cruel castigo, conforme ele presume.
         Antes de a criana ser dominada pelo complexo de castrao - isto , numa poca em que a mulher ainda conserva para ela todo o seu valor - ela comea a 
exteriorizar um intenso desejo visual, como atividade ertica instintiva. Quer ver os genitais de outras pessoas, a princpio provavelmente para compar-lo com o 
seu prprio. A atrao ertica que sente por sua me logo se transforma em um desejo pelo seu rgo genital, que supe ser um pnis. Com a descoberta que far, mais 
tarde, de que as mulheres no possuem pnis, este desejo muitas vezes se transforma no seu oposto, dando origem a um sentimento de repulsa que, na poca da puberdade, 
poder ser a causa de impotncia psquica, misoginia e homossexualidade permanente. Porm a fixao no objeto antes to intensamente desejado, o pnis da mulher, 
deixa traos indelveis na vida mental da criana, quando esta fase de sua investigao sexual infantil foi particularmente intensa. Um culto fetichista cujo objeto 
 o p ou calado feminino parece tomar o p como mero smbolo substitutivo do pnis da mulher, outrora to reverenciado e depois perdido. Sem o saber, os `coupeurs 
de nattes' desempenham o papel de pessoas que executam um ato de castrao sobre o rgo genital feminino.
         Enquanto as pessoas se mantiverem na atitude ditada pela nossa civilizao de desprezo pelos rgos genitais e pelas funes sexuais, no podero absolutamente 
compreender as atividades da sexualidade infantil e provavelmente fugiro ao assunto afirmado ser incrvel o que aqui dissemos. Para compreender a vida mental das 
crianas necessitamos recorrer a analogias encontradas nos tempos primitivos. Para ns, durante muitas geraes os genitais foram sempre as partes `pudendas', motivo 
de vergonha e at mesmo (devido a posterior represso sexual bem sucedida) de repugnncia. Se fizermos um histrico extenso da vida sexual de nossa poca e sobretudo 
das classes que so o sustentculo da civilizao humana, seremos tentados a declarar que  a contragosto que a maioria daqueles que vivem nos dias de hoje obedecem 
 lei de propagar a espcie; sentem-se, nesse processo, diminudos em sua dignidade humana. Entre ns, somente a classe menos culta de nossa sociedade difere desse 
ponto de vista sobre a vida sexual. Para a classe mais alta e refinada, ela constitui uma coisa que se oculta, desde que  considerada culturalmente inferior, e 
quando se permitem dar-lhe vazo, fazem-no contra a sua conscincia. Nos tempos primitivos da raa humana, a concepo era diferente. Dados trabalhosamente compilados 
por estudiosos da civilizao apresentam testemunho irrefutvel de que primitivamente os genitais eram o orgulho e a esperana dos seres humanos; eram adorados como 
deuses e transmitiam a essncia divina de suas funes a todas as novas atividades humanas. Como resultado da sublimao de sua natureza bsica criaram-se inmeras 
divindades: e quando a conexo entre a religio oficial e a atividade sexual se tornou oculta da conscincia geral, cultos secretos se dedicavam a conserv-la viva 
entre um certo nmero de iniciados. Durante o decurso do desenvolvimento cultural tanta coisa divina e sagrada foi, em ltima essncia, extrada da sexualidade, 
que o remanescente, quase esgotado, foi desprezado. Mas, dado o carter indelvel de todos os processos mentais, no  de admirar que mesmo as formas mais primitivas 
do culto genital existissem at bem pouco tempo e que a linguagem, os costumes e as supersties da humanidade de hoje contenham ainda remanescentes de todas as 
fases deste processo de desenvolvimento.
         Notveis analogias biolgicas levam-nos a descobrir que o desenvolvimento mental do indivduo repete, de modo abreviado, o processo do desenvolvimento humano; 
e as concluses a que chegaram as pesquisas psicanalticas acerca da mente infantil, referentes  importncia concedida aos genitais na infncia, no so to inverossmeis. 
A hiptese infantil de que sua me tem um pnis ser, portanto, a origem comum de que derivam tanto a me-deusa andrgina como a Mut egpcia, e a `coda' do abutre 
na fantasia infantil de Leonardo. Na verdade, ao classificar de hermafroditas, no sentido mdico, essas representaes de deuses, cometemos realmente uma impropriedade. 
Em nenhuma delas existe realmente a combinao dos genitais dos dois sexos - uma combinao que se observa em algumas malformaes e que constituem uma deformao 
repulsiva; a nica coisa que acontecia era que o rgo masculino era acrescentado as seios, que so a caracterstica da me, como se d tambm na representao infantil 
do corpo materno. Esta forma do corpo materno, criao reverenciada da fantasia primitiva, foi conservada fielmente pela mitologia. Podemos apresentar agora a seguinte 
interpretao da nfase dada  cauda do abutre na fantasia de Leonardo: `Isso foi numa poca em que a minha curiosidade afetuosa era toda dirigida  minha me, e 
que eu pensava ter ela um rgo genital igual ao meu.' Constitui mais uma evidncia das precoces pesquisas sexuais de Leonardo que, em nossa opinio, tiveram influncia 
decisiva sobre toda a sua vida futura.
         Neste ponto, um pouco de reflexo mostrar que no nos satisfaz ainda o modo pelo qual foi explicada a cauda do abutre na fantasia infantil de Leonardo. 
Parece haver nela alguma coisa mais que no conseguimos ainda compreender. A mais notvel de todas elas foi ter sido transformado o ato de mamar no seio materno 
em ser amamentado, isto , em passividade, portanto, numa situao cuja natureza  indubitavelmente homossexual. Quando nos lembramos da probabilidade histrica 
de Leonardo ter-se comportado em sua vida como uma pessoa emocionalmente homossexual, ocorre-nos perguntar se esta fantasia no indicaria a existncia de uma relao 
causal entre as relaes infantis de Leonardo com a me e sua posterior homossexualidade manifesta, ainda que ideal [sublimada]. No nos atreveramos a inferir qualquer 
conexo dessa natureza da reminiscncia confusa de Leonardo se no soubssemos, pelos estudos psicanalticos de pacientes homossexuais, que tal ligao existe de 
fato e , na verdade, condio intrnseca e necessria.
         Os homossexuais, que em nossos dias se tm defendido energicamente das restries impostas por lei s suas atividades sexuais, gostam de ser apresentados, 
por intermdio de seus tericos defensores, como pertencendo a uma espcie diferente, como um estgio sexual intermedirio ou como um `terceiro sexo.' Eles se declaram 
homens inatamente compelidos, por disposies orgnicas, a achar prazer com outros homens, o que no conseguem com mulheres. Por maior que seja a nossa vontade, 
por motivos humanitrios, de acatar suas declaraes, devemos analisar as suas teorias com reservas, pois foram feitas sem levar em conta a gnese psquica da homossexualidade. 
A psicanlise oferece meios para preencher essa lacuna e para testar as afirmativas dos homossexuais. Embora s tenha conseguido colher dados de um nmero reduzido 
de pessoas, todas as investigaes empreendidas at agora produziram o mesmo resultado surpreendente. Em todos os nossos casos de homossexuais masculinos, os indivduos 
haviam tido uma ligao ertica muito intensa com uma mulher, geralmente sua me, durante o primeiro perodo de sua infncia, esquecendo depois esse fato; essa ligao 
havia sido despertada ou encorajada por demasiada ternura por parte da prpria me, e reforada posteriormente pelo papel secundrio desempenhado pelo pai durante 
sua infncia. Sadger chama ateno para o fato de as mes dos seus pacientes homossexuais serem muitas vezes masculinizadas, mulheres com enrgicos traos de carter 
e capazes de deslocar o pai do lugar que lhe corresponde. Observei ocasionalmente a mesma coisa, porm me impressionei mais com os casos em que o pai estava ausente 
desde o comeo, ou abandonara a cena muito cedo, deixando o menino inteiramente sob a influncia feminina. Na verdade, parece que a presena de um pai forte asseguraria, 
no filho, a escolha correta de objeto, ou seja, uma pessoa do sexo oposto.
         
         Depois desse estgio preliminar, estabelece-se uma transformao cujo mecanismo conhecemos mas cujas foras determinantes ainda no compreendemos. O amor 
da criana por sua me no pode mais continuar a se desenvolver conscientemente - ele sucumbe  represso. O menino reprime seu amor pela me; coloca-se em seu lugar, 
identifica-se com ela, e toma a si prprio como um modelo a que devem assemelhar-se os novos objetos de seu amor. Desse modo ele transformou-se num homossexual. 
O que de fato aconteceu foi um retorno ao auto-erotismo, pois os meninos que ele agora ama  medida que cresce, so, apenas, figuras substitutivas e lembranas de 
si prprio durante sua infncia - meninos que ele ama da maneira que sua me o amava quando era ele uma criana. Encontram seus objetos de amor segundo o modelo 
do narcisismo, pois Narciso, segundo a lenda grega, era um jovem que preferia sua prpria imagem a qualquer outra, e foi assim transformado na bela flor do mesmo 
nome.
         Consideraes psicolgicas mais profundas justificam a afirmativa de que um homem que assim se torna homossexual, permanece inconscientemente fixado  imagem 
mnmica de sua me. Reprimindo seu amor  sua me, conserva-o em seu inconsciente e da por diante permanece-lhe fiel. Quando parece perseguir outros rapazes e tornar-se 
seu amante, na realidade est fugindo das outras mulheres que o possam levar  infidelidade. Em casos individuais, a observao direta tem-nos permitido demonstrar 
que o homem que d a impresso de ser sensvel somente aos encantos de outros homens sente-se, na verdade, atrado pelas mulheres, como qualquer homem normal; mas 
em cada ocasio procura transferir imediatamente a excitao provocada pela mulher para um objeto masculino e, desse modo, repete incessantemente o mecanismo pelo 
qual adquiriu sua homossexualidade.
         Estamos longe de querer exagerar a importncia dessas explicaes sobre a gnese psquica da homossexualidade.  bvio que elas discordam completamente 
das teorias adotadas pelos defensores dos homossexuais, mas sabemos tambm que no so bastante claras para chegar a uma concluso definitiva sobre esse problema. 
Aquilo que, por motivos prticos,  geralmente chamado de homossexualidade poder ser o resultante de uma variedade enorme de processos inibitrios psicossexuais; 
o processo particular que destacamos , talvez, apenas um entre muitos outros e talvez corresponda a um nico tipo de `homossexualidade'. Devemos tambm admitir 
que o nmero de casos de homossexualismo deste tipo, em que podemos reconhecer as causas determinantes assinaladas por ns,  bem maior do que aqueles em que ele 
de fato se concretiza. Portanto, ns tambm no podemos negar a influncia exercida por fatores constitucionais desconhecidos, aos quais geralmente se atribui toda 
a homossexualidade. No teramos tido motivo algum para entrar na gnese psquica da forma de homossexualidade que estudamos se no houvesse um forte pressentimento 
de que Leonardo, cuja fantasia sobre o abutre foi o nosso ponto de partida, fosse, na verdade, um homossexual exatamente desse tipo.
         Conhecem-se poucos detalhes sobre o comportamento sexual do grande artista e cientista, mas devemos crer na possibilidade de as afirmativas de seus contemporneos 
no terem sido totalmente erradas.  luz de tais afirmativas, portanto, ele nos parece ter sido um homem cujas necessidades e atividades sexuais eram excepcionalmente 
reduzidas, como se uma aspirao mais elevada o houvesse colocado acima das necessidades animais comuns da humanidade. Haver sempre uma dvida quando se trata de 
saber se ele ter alguma vez procurado a satisfao sexual direta e, se o fez, de que maneira; ou teria ele prescindido completamente de qualquer ato dessa natureza? 
Achamos justo, no entanto, procurar nele tambm as foras emocionais que impulsionam outros homens imperativamente  prtica do ato sexual; pois no podemos imaginar 
a vida mental de nenhum ser humano sem que tivesse havido em sua formao o desejo sexual em seu sentido mais amplo - libido - mesmo que tal desejo se tivesse afastado 
de sua finalidade original, ou fosse refreado, e no chegasse a exercer-se.
         No podemos esperar encontrar em Leonardo seno indcios de inclinao sexual no-transformada. Estes indcios, porm, apontam uma direo que nos faz reconhecer 
nele um homossexual. Sempre foi notrio que ele somente admitia como alunos meninos e rapazes que fossem belos. Tratava-os com gentileza e considerao, tomava conta 
deles e, quando doentes, cuidava-os ele prprio como uma me cuida de seus filhos, e assim como o teria tratado a sua prpria me. Como os escolhia pela beleza e 
no pelo talento, nenhum deles - Cesare da Sesto, Boltraffio, Andrea Salaino, Francesco Melzi e outros mais - veio a tornar-se um pintor de importncia. Geralmente 
no eram capazes de se libertar de seu mestre e, aps a sua morte, desapareceram sem terem deixado qualquer marca definitiva na histria da arte. Quanto a outros, 
como Luini e Bazzi, chamado Sodoma, cujos trabalhos lhes permitem classificar-se como seus discpulos, talvez jamais os tivesse conhecido pessoalmente.
         Ser-nos- provavelmente alegado que a conduta de Leonardo para com seus alunos nada tem a ver com motivos de ordem sexual, e que portanto no justifica 
dedues sobre a sua particular inclinao sexual. Respondendo a isso, gostaramos de demonstrar, com o devido cuidado, que o nosso ponto de vista explica algumas 
caractersticas peculiares do comportamento do artista que de outro modo permaneceriam um mistrio. Leonardo mantinha um dirio onde fazia anotaes com sua letra 
mida (escrevendo da direita para a esquerda) somente para seu prprio uso.  digno de nota que naquele dirio ele tratava a si prprio na segunda pessoa. `Aprende 
a multiplicao de razes com Mestre Luca.' (Solmi, 1908, 152). `Faze com que o Mestre d'Abacco te ensine a quadratura do crculo.' (Loc. cit.) Ou, durante uma viagem: 
`Estou indo para Milo tratar de assuntos referentes a meu jardim... Manda fazer duas malas. Faze com que Boltraffio te mostre o torno e faze-o polir uma pedra. 
Deixa o livro para Mestre Andrea il Todesco.' (Ibid., 203) Ou, ento, uma resoluo de importncia bem diversa: `Deves mostrar em teu tratado que a terra  uma estrela, 
como a lua ou coisa parecida, e assim provar a nobreza de nosso mundo.' (Herzfeld, 1906, 141.)
         No referido dirio, que, igual ao que acontece nos dirios de outros mortais, muitas vezes comenta em poucas palavras os acontecimentos mais importantes 
do dia ou mesmo nem os menciona, existem algumas notas que, pela sua estranheza, so relatadas por todos os bigrafos de Leonardo. So apontamentos de pequenas quantias 
de dinheiro, gastas pelo artista - anotadas com uma preciso minuciosa como se houvessem sido feitas por um austero ou parcimonioso chefe de famlia. No entanto 
nada h sobre qualquer extravagncia maior ou nenhuma evidncia de que fizesse parte de sua natureza anotar sempre suas despesas. Uma destas anotaes refere-se 
a uma capa nova que comprou para seu aluno Andrea Salaino:
         Brocado de prata                   15 lire          4 soldi
         Enfeite de veludo vermelho         9 lire         - soldi
         Gales                                                              9 soldi
         Botes                                                        12 soldi
         Outra nota muito detalhada soma todas as despesas que fez por causa do mau carter e do costume de furtar de outro aluno: `No dia vinte e um de abril de 
1940 comecei este livro e recomecei o cavalo. Jacomo procurou-me no dia se Santa Madalena, em 1940: ele tem dez anos.' (Nota  margem: `gatuno, mentiroso, egosta, 
voraz.') `No segundo dia, mandei cortar-lhe duas camisas, um par de calas e uma jaqueta e, quando separei o dinheiro para o pagamento, ele o roubou de minha bolsa 
e jamais consegui faz-lo confessar, embora tivesse certeza disso.' (Nota  margem: 4 lire...') O relatrio sobre as faltas do menino continua por a a fora e termina 
com a demonstrao das despesas: `No primeiro ano, uma capa, 2 lire; 6 camisas, 4 lire; 3 jaquetas, 6 lire; 4 pares de meias, 7 lire; etc.'
         Os bigrafos de Leonardo no desejam de modo algum procurar a soluo dos problemas mentais de seu personagem partindo de suas pequenas fraquezas e peculiaridades; 
e o comentrio que habitualmente fazem sobre essas contas estranhas so para ressaltar-lhes a gentileza e a considerao para com os alunos. Esquecem-se de que o 
que carece de explicao no  o comportamento de Leonardo mas sim o fato de ter deixado, acerca dele, esses testemunhos. Como  impossvel acreditar que seu motivo 
tenha sido deixar provas de sua bondade, devemos pressupor ter sido outra razo, de natureza afetiva, que o levou a fazer esses apontamentos. Ser difcil adivinhar 
qual o motivo e ns nada poderamos sugerir, no fora o fato de ter sido encontrado outro apontamento de despesas, entre os papis de Leonardo, que esclarece essas 
estranhas notas, to pouco importantes, sobre as roupas de seus alunos etc.: 
         
Despesas com o funeral de Caterina                      27 florins
2 libras de cera                                 18 florins
Para o transporte e levantamento da cruz         12 florins
Essa                                                 4 florins
Carregadores                                         8 florins
4 padres e 4 sacristos                                 20 florins
Para soar o sino                                 2 florins
Para os escavadores                                 16 florins
Pela licena - para os funcionrios                 1 florim
Total                                                 108 florins
Despesas anteriores
Mdico                                                   4 florins
Acar e castiais                                 2 florins
Total                                                 16 florins

Total completo                                               124 florins
         
         
         O escritor Merezhkovsky  o nico que nos diz quem foi essa Caterina. Baseado em duas breves notas ele concluiu que a me de Leonardo a pobre camponesa 
de Vinci, foi a Milo em 1493 para visitar seu filho, que tinha, ento, 41 anos; que l adoeceu e Leonardo a internou num hospital, e quando morreu foi homenageada 
por ele com esse custoso enterro.
         Esta interpretao feita pelo escritos psiclogo no pode ser provada mas  to verossmil e est to de acordo com tudo o que conhecemos da atividade emocional 
de Leonardo, que no posso deixar de aceit-la como correta. Ele conseguira sujeitar seus sentimentos ao domnio da pesquisa e reprimir a sua livre expresso; mas 
para si mesmo havia ocasies em que o que suprimira forava um meio de expresso. A morte da me, a quem tanto amara em certa poca, foi uma delas. O que temos diante 
de ns nesses apontamentos sobre as despesas do enterro  a expresso, sob um disfarce quase irreconhecvel, de sua tristeza pela morte da me. Ficamos pensando 
o porqu desse disfarce, e na verdade no o podemos entender se o consideramos um processo mental normal. Porm, processos semelhantes so por ns bem conhecidos 
nas condies anmalas da neurose, sobretudo na que  conhecida como `neurose obsessiva'. Nestes casos podemos observar como a expresso de sentimentos intensos, 
que se haviam tornado inconscientes graas  represso,  deslocada para aes triviais e s vezes mesmo tolas. A expresso desses sentimentos reprimidos foi de 
tal modo enfraquecida pelas foras que a eles se opem, que seramos levados a consider-los insignificantes; mas a compulso imperativa que leva a executar esse 
ato trivial revela a verdadeira fora dos impulsos - fora que se origina no inconsciente e que a conscincia gostaria de negar. Somente comparando esta situao 
com a que ocorre na neurose obsessiva  que poderemos explicar as anotaes de Leonardo relativas s despesas com o enterro de sua me. Em seu inconsciente, ele 
ainda se achava ligado a ela por sentimentos de matiz ertico, como acontecera em sua infncia. A oposio que se originou na subseqente represso deste amor infantil 
no lhe permitiu reverenciar sua me em seu dirio, de modo diferente e melhor. Mas o que emergiu como um compromisso desse conflito neurtico tinha de ser externado; 
e foi assim que esta anotao veio a fazer parte de seu dirio e chegou ao conhecimento da posteridade como coisa ininteligvel.
         
         No nos parece muito ousado aplicar s notas sobre as despesas com os alunos aquilo que descobrimos nas notas sobre o enterro. Seriam elas, portanto, outro 
testemunho dos esparsos remanescentes dos impulsos libidinais de Leonardo, que encontravam assim expresso, de maneira compulsiva e sob forma distorcida. Sob esse 
ponto de vista, sua me e seus alunos, que representavam a imagem de sua prpria beleza infantil, haviam sido seus objetos sexuais - tanto quanto a represso sexual 
que dominava sua natureza nos permite reconhec-los - e a compulso a anotar detalhadamente os seus gastos com eles revelava, desse modo estranho, seus conflitos 
rudimentares. Assim, pareceria que a vida ertica de Leonardo pertencia realmente ao tipo de homossexualidade cujo desenvolvimento psquico conseguimos desvendar, 
e a emergncia da situao homossexual em sua fantasia do abutre tornar-se-ia inteligvel para ns; porque seu significado era exatamente o que j havamos afirmado 
relativamente a esse tipo. Teramos de traduzi-lo assim: `Foi atravs dessa relao ertica com minha me que me tornei um homossexual.'
         
         IV
         Ainda no demos por terminada a anlise da fantasia do abutre de Leonardo. Com palavras que to claramente sugerem a descrio de um ato sexual (`e fustigou 
muitas vezes sua cauda contra meus lbios'), Leonardo acentua a intensidade das relaes erticas entre me e filho. Da ligao desta atividade de sua me (o abutre) 
com a dominncia da zona bucal, no ser difcil adivinhar que a fantasia contm uma outra lembrana. Podemos traduzi-la assim: `Minha me beijou-me apaixonada e 
repetidamente na boca.' A fantasia surge da lembrana de ser alimentado no seio e de ser beijado pela me.
         A natureza generosa deu ao artista a capacidade de exprimir seus impulsos mais secretos, desconhecidos at por ele prprio, por meio dos trabalhos que cria; 
e estas obras impressionam enormemente outras pessoas estranhas ao artista e que desconhecem, elas tambm, a origem da emoo que sentem. Ser que nada existe na 
obra de Leonardo para testemunhar aquilo que sua memria conservou como uma das impresses mais fortes de sua infncia? Deveramos certamente poder encontrar alguma 
coisa. Porm, se considerarmos a transformao enorme que ter de sofrer qualquer impresso vivida por um artista antes que ela venha a ser transformada em uma contribuio 
para uma obra de arte, teremos de observar um grande comedimento ao proclamarmos a nossa certeza quanto aos resultados a que chagamos em nossas pesquisas; sobretudo 
com referncia a Leonardo. Qualquer pessoa que pense nas pinturas de Leonardo recordar-se- de um sorriso notvel, ao mesmo tempo fascinante e misterioso, que ele 
punha os lbios de seus modelos femininos.  um sorriso imutvel, desenhado em lbios longos e curvos; tornou-se uma caracterstica do seu estilo e o termo `Leonardiano' 
tem sido usado para defini-lo. Este sorriso no rosto estranhamente lindo da florentina Mona Lisa del Giocondo tem causado, em todos que o contemplam, os efeitos 
mais fortes e controvertidos. [Ver Lmina II.] Este sorriso requer uma interpretao e de fato tem merecido as mais variadas explicaes sem que nenhuma ainda tenha 
conseguido satisfazer. `Voil quatre sicles bientt que Monna Lisa fait perdre la tte a tous ceux qui parlent d'elle, aprs l'avoir longtemps regarde.'
         Muther (1909, 1, 314) escreveu: `O que sobretudo enfeitia o espectador  a magia demonaca desse sorriso. Centenas de poetas e escritores j escreveram 
sobre essa mulher que ora parece sorrir-nos to sedutoramente, ora parece fitar o espao, friamente e sem alma. E ningum jamais decifrou o enigma de seu sorriso 
nem leu o significado de seus pensamentos. Tudo, at mesmo a paisagem, assemelha-se a um sonho e parece sofrer a influncia opressiva da sensualidade.'
         A idia de que dois elementos diferentes estejam combinados no sorriso de Mona Lisa j foi suscitada por diversos de seus crticos. Muitos deles vem na 
expresso da linda florentina a mais perfeita representao dos contrastes que dominam a vida ertica das mulheres; o contraste entre a reserva e a seduo, e entre 
a ternura mais delicada e uma sensualidade implacavelmente exigente, destruindo os homens como se fossem seres estranhos. Este  o ponto de vista de Mntz (1899, 
417): `On sait quelle nigme indchiffrable et passionnante Monna Lisa Gioconda ne cesse depuis bientt quatre sicles de proposer aux admirateurs presss devante 
elle. Jamais artiste (j'emprunte la plume du dlicat crivain qui se cache sous le pseudonyme de Pierre de Corlay) "a-t-il traduit ainsi l'essence mme de la fminit: 
tendresse et coquetterie, pudeur et sourde volupt, tout le mystre d'un coeur qui se rserve, d'un cerveau qui rflechit, d'une personnalit que se garde et ne 
livre d'elle-mme que son rayonnement..." O escritor italiano Angelo Conti (1910, 93) descreve que viu no Louvre o retrato iluminado por um raio de sol. `La donna 
sorrideva in una calma regale: i suoi istinti di conquista, di ferocia, tutta l'eredit della specie, la volont della seduzionne e dell'agguato, la grazia del inganno, 
la bont che cela un proposito crudele, tutto ci appariva alternativamente e scompariva dietro il velo ridente e si fondeva nel poeme del suo sorriso... Buona e 
malvagia, crudele e compassionevole, graziosa e felina, ella rideva...'
         Leonardo passou quatro anos pintando esse retrato, talvez de 1503 at 1507, durante a sua segunda permanncia em Florena, poca em que tinha mais de cinqenta 
anos. Segundo Vasari, durante o trabalho Leonardo empregou todos os meios ao seu alcance para divertir essa senhora e conservar-lhe no semblante o sorriso famoso. 
No seu estado atual, o quadro conserva pouco de todos os detalhes delicados que seu pincel, na poca, reproduziu sobre a tela; enquanto foi pintado, foi proclamado 
como sendo o mais elevado que a arte poderia realizar, porm  sabido que o prprio Leonardo no se satisfez com o resultado; declarando que estava incompleto no 
o entregou  pessoa que o encomendara, levou-o consigo para a Frana, onde o seu patrono, Francisco I, o adquiriu para o Louvre.
         Deixando sem soluo a enigmtica expresso no rosto de Mona Lisa, vamos anotar o fato inegvel de que o seu sorriso, que tanto fascina todos os que tm 
contemplado durante esses quatro sculos, exerceu tambm poderoso fascnio sobre Leonardo. Dessa data em diante, o sorriso cativante reaparece em todos os seus quadros 
assim como nos de seus alunos. Sendo a Mona Lisa de Leonardo um retrato, no cremos que lhe tivesse imprimido, por sua prpria inspirao, caracterstica to expressiva 
 sua face - caracterstica que no lhe pertence realmente. Torna-se, portanto, inegvel concluir que ele encontrou esse sorriso em seu modelo e ficou por ele to 
enfeitiado que da por diante reproduziu-o em todas as criaes livres de sua fantasia. Esta interpretao, que no poder ser considerada forada,  defendida, 
por exemplo, por Konstantinowa (1907, 44):
         `Durante o longo perodo em que o artista trabalhou no retrato de Mona Lisa del Giocondo, estudou to apaixonadamente os detalhes mais sutis e delicados 
deste rosto que passou a reproduzir os seus traos - sobretudo o seu misterioso sorriso e estranho olhar - em todos os rostos que veio a pintar e desenhar depois. 
At no retrato de So Joo Batista, no Louvre, pode-se perceber esta expresso facial, to peculiar da Gioconda; mas  sobretudo no rosto da Virgem Maria, no quadro 
da 
         
         
         
         MONA LISA, de LEONARDO
         
         
         "Madona e o Menino com Sant'Ana", que mais claramente o reconhecemos.' [Ver o Frontispcio deste volume.]
         No entanto, esta situao pode ter ocorrido de outro modo. A necessidade de um motivo mais profundo para explicar a atrao to forte que o sorriso da Gioconda 
exerceu sobre o artista, a ponto de nunca mais vir a libertar-se dele, tem sido mantida por mais de um de seus bigrafos. Walter Pater, que v no retrato de Mona 
Lisa `uma presena... expressiva daquilo que os homens sempre ambicionaram, durante milnios, possuir' [1873, 118], e que descreve com muita sensibilidade o `sorriso 
distante, sempre sombreado por algum triste pressgio, que transparece em toda a obra de Leonardo` [ibid., 117], fornece-nos um outro dado quando declara (loc. cit.):
         `Alm do mais, o quadro  um retrato. Desde a infncia, vemos esta imagem vir-se definindo na contextura de seus sonhos; e, a no ser por algum testemunho 
histrico expresso, poderemos supor que essa foi sua mulher ideal, finalmente concretizada e finalmente possuda...'
         Marie Herzfeld (1906, 88) sem dvida nenhuma participa de opinio muito semelhante quando declara que na Mona Lisa Leonardo encontrou o seu prprio eu (self), 
e por isso conseguiu transferir tanta coisa de sua prpria natureza para o retrato `cujas feies jaziam h muito tempo, em misteriosa harmonia, na mente de Leonardo',
         Vamos tentar explicar melhor o que aqui sugerimos. Poderia ser que Leonardo tivesse ficado fascinado pelo sorriso de Mona Lisa, por lhe ter despertado alguma 
coisa que h muito habitava sua mente - provavelmente uma antiga lembrana. Esta lembrana era de suficiente importncia pois, uma vez despertada, nunca mais dela 
se libertou; sentia-se sempre forado a dar-lhe novas formas de expresso. A afirmativa de Pater, segundo a qual podemos ver desde a infncia um rosto como o de 
Mona Lisa esboar-se na contextura de seus sonhos, parece convincente e merece ser acatada.
         Vasari conta que `teste di femmine, che ridono' foi tema tratado em seus primeiros ensaios artsticos. Este trecho, do qual no necessitamos duvidar, j 
que nada pretende provar, est transcrito mais extensamente na verso de Schorn (19843, 3, 6): `Em sua juventude, modelou em barro algumas cabeas sorridentes de 
mulher, reproduzidas depois em gesso; e algumas cabeas de crianas, lindas como se houvessem sido modeladas por mos de um mestre...'
         Ficamos sabendo, assim, que ele comeou sua carreira artstica reproduzindo duas espcies de objeto; e estes infalivelmente nos fazem lembrar os dois tipos 
de objetos sexuais que deduzimos da anlise de sua fantasia sobre o abutre. Se as lindas cabeas de criana eram a reproduo da sua prpria pessoa, como ele era 
na sua infncia, ento as mulheres sorridentes nada mais seriam seno a reproduo de sua me Caterina, e comeamos a suspeitar a possibilidade de que este misterioso 
sorriso era o de sua me - sorriso que ele perdera e que muito o fascinou, quando novamente o encontrou na dama florentina.
         O quadro de Leonardo mais prximo da Mona Lisa em ordem cronolgica  o chamado `Sant'Ana com Dois Outros', ou seja, Sant'Ana com a Madona e o Menino. [Ver 
Frontispcio.] Nele o sorriso leonardiano aparece evidente e lindo nas fisionomias de ambas as mulheres. No  possvel descobrir quanto tempo antes ou depois da 
Mona Lisa, Leonardo comeou a pintar o quadro. Como os dois trabalhos o ocuparam durante anos, penso que podemos afirmar que o artista trabalhava em ambos ao mesmo 
tempo. Estaria mais de acordo com a nossa teoria admitirmos que foi a intensidade da concentrao de Leonardo nas feies da Mona Lisa que o estimulou a criar a 
composio de Sant'Ana como produto de sua imaginao. Porque, se  verdade que o sorriso de Gioconda lhe despertava recordaes de sua me, fcil ser compreender 
como isso o levou a criar uma glorificao da maternidade, e a restituir  sua me o sorriso que encontrara na nobre dama. Podemos, portanto, transferir o nosso 
centro de interesse do retrato da Mona Lisa para este outro quadro - igualmente belo, e que hoje tambm se encontra no Louvre.
         Sant'Ana com sua filha e o neto  assunto que raramente foi tratado na pintura italiana. De qualquer modo, a composio de Leonardo difere enormemente de 
qualquer outra verso conhecida, segundo escreve Muther (1909, 1, 309):
         `Alguns artistas como Hans Fries, Holbein, o velho, e Girolamo dai Libri, representaram Ana sentada ao lado de Maria, colocando o Menino entre as duas. 
Outros, como Jakob Cornelisz em seu quadro de Berlim, pintaram aquilo que realmente se poderia chamar de "Sant'Ana com Dois Outros", em outras palavras, eles a representaram 
sustentando nos braos a figura menor de Maria, que por sua vez carrega no colo a figura menor ainda de Cristo menino. No quadro de Leonardo, Maria est sentada 
no colo de sua me e se debrua, com os braos estendidos para o Menino que brinca com um cordeirinho, talvez o tratando com pouca delicadeza. A av apia na cintura 
o brao visvel e contempla o par com um sorriso de felicidade. A composio, na verdade, no aparenta muita naturalidade. O sorriso que paira nos lbios de ambas 
as mulheres, embora seja inegavelmente o mesmo da Mona Lisa, perdeu seu carter estranho e misterioso; o que ele exprime aqui  sentimento ntimo e serena felicidade.
         Depois de estudarmos o quadro por algum tempo, ocorre-nos subitamente a idia de que somente Leonardo o poderia ter pintado assim como somente ele poderia 
ter criado a fantasia do abutre. O quadro contm a sntese da histria de sua infncia: os seus detalhes devem ser explicados relembrando as impresses mais pessoais 
da vida de Leonardo. Na casa de seu pai, ele encontrou no somente a sua boa madrasta Donna Albiera mas tambm a sua av, me de seu pai, Monna Lucia, que - assim 
o supomos - foi para ele to carinhosa quanto geralmente o so os avs. Essas circunstncias podem muito bem ter infludo para que representasse num quadro a imagem 
da criana vigiada pela me e pela av. Outra caracterstica evidente desse quadro  ainda mais significativa. Sant'Ana, a me de Maria e a av do Menino, que deveria 
ser uma matrona,  representada como um pouco mais madura e mais sria do que a Virgem Maria, porm ainda uma mulher jovem e de inaltervel beleza. Na verdade, Leonardo 
deu ao Menino duas mes; uma que lhe estende os braos e outra no segundo plano; ambas deixando transparecer o sorriso bem-aventurado da alegria maternal. Essa caracterstica 
do retrato sempre chamou a ateno daqueles que o descrevera. Muther, por exemplo,  de opinio que Leonardo nunca procurava pintar a velhice, com suas marcas e 
rugas, e por esse motivo pintou Ana tambm como uma mulher de radiante beleza. Mas ser que nos poderemos satisfazer com esta explicao? Outros tem negado haver 
qualquer similaridade de idade entre me e filha. Mas a explicao dada por Muther mostra bem que a impresso que se tem de que Sant'Ana foi pintada mais jovem provm 
mesmo do quadro e no constitui nenhuma inveno para justificar objetivo posterior. 
         
         A infncia de Leonardo teve caracterstica igual  que o quadro reproduz. Teve duas mes: primeiro, sua verdadeira me Caterina, de quem o separaram quando 
tinha entre trs e cinco anos; e depois uma madrasta moa e carinhosa, Donna Albiera, esposa de seu pai. Pela combinao dessa situao de sua infncia com a outra 
que mencionamos acima (a presena da me e da av) e pela composio que fez reunindo os trs personagens numa unidade, o desenho de `Sant'Ana com Dois Outros' veio 
a concretizar-se para ele. A figura maternal mais afastada do Menino - a av - corresponde  primeira e verdadeira me, Caterina, tanto em sua aparncia quanto em 
sua relao especial com o menino. O artista parece ter usado o sorriso bem-aventurado da Sant'Ana para negar e encobrir a inveja que sentiu a pobre mulher quando 
foi obrigada a entregar o filho  sua rival nascida em bero mais nobre, assim como j lhe havia outrora entregado o pai.
         Encontramos tambm uma confirmao, em outro trabalho de Leonardo, de nossa suspeita de que o sorriso de Mona Lisa del Giocondo havia despertado nele, j 
homem feito, a lembrana da me que tivera em sua 
         
         
         
         Fig. 2.
         
         
         primeira infncia. Dessa poca em diante, as madonas e as senhoras aristocrticas dos quadros italianos passaram a ser pintadas com a humilde inclinao 
da cabea e sorrindo o estranho e bem-aventurado sorriso de Caterina, 
         
         
         
         Fig. 3.
         
         
         a pobre camponesa que dera  luz o magnfico filho cujo destino seria pintar, pesquisar e sofrer. 
         Se Leonardo teve sucesso ao reproduzir nas feies de Mona Lisa a dupla significao contida naquele sorriso, a promessa de ternura infinita e ao mesmo 
tempo a sinistra ameaa (segundo a frase de Pater [ver em [1]]), manteve-se tambm fiel ao contedo de sua lembrana mais distante. Porque a ternura de sua me foi-lhe 
fatal; determinou o seu destino e as privaes que o mundo lhe reservava. A violncia das carcias evidentes em sua fantasia sobre o abutre eram muito naturais. 
No seu amor pelo filho, a pobre me abandonada procurava dar expanso  lembrana de todas as carcias recebidas e  sua nsia por outras mais. Tinha necessidade 
de faz-lo, no s para consolar-se de no ter marido mas tambm para compensar junto ao filho a ausncia de um pai para acarinh-lo. Assim, como todas as mes frustradas, 
substitui o marido pelo filho pequeno, e pelo precoce amadurecimento de seu erotismo privou-o de uma parte de sua masculinidade. O amor da me pela criana que ela 
mesma amamenta e cuida  muito mais profundo que o que sente, mais tarde, pela criana em seu perodo de crescimento. Sua natureza  a de uma relao amorosa plenamente 
satisfatria, que no somente gratifica todos os desejos mentais mas tambm todas as necessidades fsicas; e se isto representa uma das formas possveis da felicidade 
humana, em parte ser devido  possibilidade que oferece de satisfazer, sem reprovao, desejos impulsivos h muito reprimidos e que podem ser considerados como 
perversos. Nos casais jovens e mais felizes, o pai se d conta de que o beb, sobretudo se for um menino, transforma-se em seu rival, o que vem a constituir o ponto 
de partida de um antagonismo para com o favorito, que est profundamente arraigado no inconsciente.
         Quando em pleno vigor de sua mocidade, Leonardo reencontrou o sorriso de beatitude e enlevo que vira pairar nos lbios de sua me quando o acariciava, ele 
j tinha estado tempo demais sob o domnio da inibio para que pudesse voltar a desejar tais carcias dos lbios de outras mulheres. Ele porm se tornara pintor 
e, portanto, lutou para reproduzir com seu pincel o sorriso famoso em todos os seus quadros (tanto nos que ele prprio pintou como nos que incumbia seus alunos de 
fazer sob sua orientao) - assim foi com a Leda, com o Joo Batista e com o Baco. Os dois ltimos so variantes do mesmo tipo. `Leonardo transformou o comedor de 
gafanhotos da Bblia', disse Muther (1909, 1, 314), `num Baco, ou melhor, num jovem Apolo, que, com um sorriso misterioso nos lbios e com suas pernas macias cruzadas, 
fita-nos com olhos que nos perturbam os sentidos.' Esses quadros transmitem um misticismo cujo segredo ningum ousa desvendar; o mximo que poderamos tentar seria 
determinar a sua relao com as criaes anteriores de Leonardo. As figuras ainda so andrginas mas no mais no sentido da fantasia do abutre. So jovens lindos, 
de uma delicadeza feminina e de formas afeminadas; j no abaixam os olhos mas contemplam-nos com uma expresso de misterioso triunfo como se conhecessem uma grande 
felicidade cujo segredo devessem calar. O sorriso fascinante e familiar leva-nos a crer tratar-se de um segredo de amor.
          possvel que nestas figuras Leonardo tenha negado a infelicidade de sua vida ertica e que tenha triunfado sobre ela em sua arte, proclamando os desejos 
do menino apaixonado pela sua me, com um sentimento de realizao nessa unio bem-aventurada das naturezas masculina e feminina.
         
         
         V
         Entre as anotaes feitas por Leonardo em seu dirio, existe uma que chama a ateno do leitor pela importncia do seu significado e tambm por um pequeno 
erro na sua redao.
         Ele escreveu, em julho de 1504:
         `Ad 9 de Luglio 1504 mercoledi a ore mor Ser Piero da Vinci, notalio al palazzo del Potest, mio padre, a ore 7. Era d'et d'anni 80 lascio 10 figlioli 
maschi e 2 femmine.'
         Como vemos, a nota refere-se  morte do pai de Leonardo. O pequeno erro de redao consiste na repetio da hora do dia `a ore 7' [s 7 horas], que  dada 
duas vezes, deixando a impresso de que Leonardo, ao chegar ao fim da frase, esqueceu j ter mencionado isto no incio.  apenas um pequeno detalhe e ningum, a 
no ser um psicanalista, lhe daria maior importncia. Nem ele prprio talvez o notasse, e se algum lhe chamasse ateno poderia alegar ser coisa que acontece a 
qualquer um num momento de distrao, ou de grande emoo, e que isto nada significava.
         O psicanalista pensa de maneira diferente. Para ele no h detalhe, por mais insignificante que parea, que no possa revelar um processo mental oculto. 
O analista conhece, h muito tempo, a importncia de tais casos de esquecimento ou de repetio, e sabe que  justamente essa `distrao' que permite a libertao 
de impulsos reprimidos.
         Ns diramos que esta nota como as contas referentes ao enterro de Caterina [ver em [1]] e s despesas de seus alunos [ver em [2]], representam casos em 
que Leonardo no conseguiu suprimir o seu afeto, de onde alguma coisa, h muito reprimida, encontrou uma forma destorcida de expresso. At mesmo a forma  semelhante: 
encontramos a mesma preciso pedante e a mesma importncia dada aos nmeros.
         Casos de repetio desta natureza so por ns chamados de perseverao.  um meio excelente para revelar a nuance afetiva. Faz-nos lembrar, por exemplo, 
as palavras de So Pedro no Paraso de Dante, contra o seu indigno representante na terra:
         
         Quegli ch'usurpa in terra il luogo mio,
         Il luogo mio, il luogo mio, che vaca
         Nella presenza del Figliuol di Dio,
         Fato h del cimiterio mio cloaca.
         Se no existisse uma inibio afetiva em Leonardo, a anotao feita em seu dirio teria sido redigida mais ou menos assim: `Hoje s 7 horas meu pai morreu 
- Ser Piero da Vinci, meu pobre pai!' Porm o deslocamento da perseverao para um detalhe to indiferente no relato de sua morte, a hora em que ele faleceu, esvazia 
a anotao de qualquer emoo e deixa transparecer a existncia de algumas coisa que se deseja ocultar ou suprimir.
         Ser Piero da Vinci, tabelio e descendente de tabelies, era homem dotado de grande energia e que veio a tornar-se prspero e estimado. Casou-se quatro 
vezes. Suas duas primeiras mulheres morreram sem lhe deixar filhos e foi somente a sua terceira mulher que o presenteou com seu primeiro filho legtimo, em 1476, 
poca em que Leonardo j atingira a idade de 24 anos, e de h muito deixara a casa do pai para viver no estdio de seu mestre Verrocchio. Com a quarta e ltima mulher, 
com quem se casou j na casa dos cinqenta, teve mais nove filhos e duas filhas.
          fora de dvida que seu pai exerceu tambm influncia importante no desenvolvimento psicossexual de Leonardo, no somente de modo negativo por sua ausncia 
durante sua primeira infncia, mas tambm de modo direto, por sua presena no perodo posterior da infncia de Leonardo. Quem deseja a prpria me na infncia no 
poder evitar o desejo de substituir o pai e de identificar-se com ele na imaginao, e depois constituir como tarefa de sua vida obter ascendncia sobre ele. Quando 
Leonardo foi recebido em casa de seu av, antes de ter completado cinco anos, sua jovem madrasta Albiera ter certamente substitudo sua me em sua afeio, e ele 
ter sentido o que pode ser chamado de relaes normais de rivalidade com seu pai. Como sabemos, uma deciso no sentido da homossexualidade somente se concretiza 
nos anos da puberdade. Quando esta deciso ocorreu no caso de Leonardo, sua identificao com o pai perdeu toda a significao para sua vida sexual mas manteve-se 
presente em outras esferas de atividade no-ertica. Sabemos que gostava de luxo e de roupagens finas, e que possua criados e cavalos, embora, segundo Vasari, `pouco 
possusse e pouco produzisse.' A responsabilidade por estes gostos no deve ser atribuda somente  sua sensibilidade ao belo; reconhecemos neles tambm uma compulso 
a copiar e ultrapassar seu pai. Seu pai fora um grande cavalheiro para a pobre camponesa, e seu filho por isso nunca deixou de sentir o desejo de representar tambm 
o grande cavalheiro - o impulso de `to out-herod Herod', - e mostrar ao pai o que vinha a ser um verdadeiro gentil-homem.
         No h dvida de que o artista criador se considera como o pai de sua obra. Para Leonardo, o reflexo de sua identificao com o pai foi prejudicial para 
sua pintura. Criava a obra de arte e depois dela se desinteressava, do mesmo modo que seu pai se desinteressara por ele. O cuidado que seu pai demonstrou, mais tarde, 
em nada conseguiu alterar esta compulso; porque a compulso derivada das impresses dos primeiros anos de infncia, e o que foi reprimido e se tornou inconsciente, 
no pode ser corrigido pelas experncias futuras.
         Na poca da Renascena - e tambm muito depois - todo artista dependia de algum nobre de alta linhagem, um benfeitor e patrono, que lhe dava encomendas 
e de cujas mos dependia a sua fortuna. Leonardo encontrou seu patrono em Ludovico Sforza, chamado II Moro, um homem ambicioso e amante do esplendor, diplomata astuto, 
porm de carter inconsciente e em quem no se podia confiar. Na sua corte em Milo, Leonardo passou o perodo mais brilhante de sua vida, a seu servio seu poder 
criador atingiu o mais alto grau de realizao, como o atestam a ltima Ceia e a esttua eqestre de Francesco Sforza. Ele deixou Milo antes da desgraa de Ludovido 
Sforza, que morreu prisioneiro numa fortaleza na Frana. Quando teve a notcia do destino de seu patrono, Leonardo escreveu em seu dirio: `O duque perdeu seu ducado, 
sua propriedade e sua liberdade, e nunca terminou nenhuma das obras que empreendeu.'  interessante, e sobretudo significativo, que ele fizesse ao seu patro a mesma 
acusao que a posterioridade lhe viria fazer. Era como se quisesse fazer de algum que pertencesse  categoria paternal, responsvel por ter deixado suas obras 
inacabadas. Na verdade, no errou no que afirmou acerca do duque.
         
         Se sua imitao do pai o prejudicou como artista, sua rebeldia contra ele foi a determinante infantil do que foi talvez uma realizao igualmente sublime 
no campo da pesquisa cientfica. Segundo a comparao admirvel de Merezhkovsky (1903, 348), era como um homem que despertara cedo demais, na escurido, enquanto 
os outros ainda dormiam. Ele teve a coragem de fazer a declarao que contm a justificao de toda pesquisa independente: `Aquele que apela para a autoridade quando 
existe diferena de opinio, est fazendo mais uso da memria do que da razo.' Foi assim que se tornou o primeiro cientista natural moderno e uma abundncia de 
descobertas e de idias sugestivas recompensaram sua coragem de ter sido o primeiro homem, desde o tempo dos gregos, a indagar os segredos da natureza baseando-se 
unicamente na observao e em seu prprio julgamento. Mas quando ensinava que a autoridade deveria ser desprezada e que a imitao dos `antigos' deveria ser repudiada, 
e ao afirmar constantemente que o estudo da natureza era a fonte de toda verdade, no fazia seno repetir - na mais alta sublimao que o homem pode atingir - o 
ponto de vista resoluto que j se impusera ao menino, quando fitava atnito o mundo em redor. Se transformarmos novamente a abstrao cientfica em experincia individual 
concreta, veremos que os `antigos' e a autoridade correspondem simplesmente a seu pai, e a natureza vem a ser novamente a me gentil e carinhosa que o amamentou. 
Na maioria dos seres humanos - tanto hoje como nos tempos primitivos - a necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espcie  to imperativa que o seu 
mundo se desmorona se essa autoridade  ameaada. No entanto, Leonardo pde dispensar esse apoio; no teria podido faz-lo se nos primeiros anos de sua vida no 
tivesse aprendido a viver sem o pai. Sua ulterior investigao cientfica, caracterizada por sua ousadia e independncia, pressupe a existncia de pesquisas sexuais 
infantis no inibidas pelo pai e representa uma prolongao das mesmas com a excluso do elemento sexual.
         Quando algum, como aconteceu com Leonardo, escapa  intimidao pelo pai durante a primeira infncia e rompe as amarras da autoridade em suas pesquisas, 
muito nos admiraramos se continuasse sendo um crente, incapaz de se desfazer dos dogmas religiosos. A psicanlise tornou conhecida a ntima conexo existente entre 
o complexo do pai e a crena em Deus. Fez-nos ver que um Deus pessoal nada mais , psicologicamente, do que uma exaltao do pai, e diariamente podemos observar 
jovens que abandonam suas crenas religiosas logo que a autoridade paterna se desmorona. Verificamos, assim, que as razes da necessidade de religio se encontram 
no complexo parental. O Deus todo-poderoso e justo e a Natureza bondosa aparecem-nos como magnas sublimaes do pai e da me, ou melhor, como reminiscncia e restauraes 
das idias infantis sobre os mesmos. Biologicamente falando, o sentimento religioso origina-se na longa dependncia e necessidade de ajuda da criana; e, mais tarde, 
quando percebe como  realmente frgil e desprotegida diante das grandes foras da vida, volta a sentir-se como na infncia e procura ento negar a sua prpria dependncia, 
por meio de uma regressiva renovao das foras que a protegiam na infncia. A proteo contra doenas neurticas, que a religio concede a seus crentes,  facilmente 
explicvel: ela afasta o complexo paternal, do qual depende o sentimento de culpa, quer no indivduo quer na totalidade da raa humana, resolvendo-o para ele, enquanto 
o incrdulo tem de resolver sozinho o seu problema.
         O caso de Leonardo no parece desmentir este ponto de vista relativo  religio. Enquanto vivo, foram-lhe feitas acusaes de heresia e de apostasia contra 
o Cristianismo (o que, na poca, significava a mesma coisa) que foram claramente descritas na primeira biografia que Vasari [1550] escreveu sobre ele. (Mntz, 1889, 
292ss.) Na segunda edio (1568) de sua Vite, Vasari suprimiu estas observaes. Devido  suceptibilidade enorme de sua poca no tocante a questes religiosas, bem 
podemos compreender por que Leonardo, at mesmo em seus cadernos evitou qualquer comentrio direto  sua posio face ao Cristianismo. Em suas pesquisas, jamais 
se deixou induzir em erro por influncia dos relatos sobre a Criao, contidos nas Sagradas Escrituras; ps em dvida, por exemplo, a possibilidade de um dilvio 
universal, e em geologia fez clculos em termos de centenas de milhares de anos sem hesitao maior do que a dos homens dos tempos modernos.
         Entre as suas `profecias' existem algumas que certamente teriam ofendido a sensibilidade de um crente cristo. Assim, por exemplo, em `Sobre o hbito de 
rezar defronte s imagens de santos':
         
         `Os homens falaro com homens que nada percebem, que tm os olhos abertos mas que nada vem; falaro com eles e no tero resposta; imploraro as graas 
daqueles que tm orelhas mas nada ouvem; acendero luzes para quem  cego.' (Segundo Herzfeld, 1906, 292.)
         Ou, ento, `Sobre o luto na Sexta-feira Santa':
         `Em toda a Europa, inumerveis povos choraro a morte de um nico homem que morreu no Oriente.' (ibid., 297.)
         Sobre a arte de Leonardo, j foi dito que ele despiu as sagradas figuras de todos os vestgios de sua ligao com a Igreja, tornando-as humanas, para nelas 
representar grandes e belas emoes humanas. Muther o elogia por libertar-se do ambiente de decadncia que prevalecia na poca e por restituir ao homem o seu direito 
 sensualidade e  alegria de viver. Nas anotaes que nos mostram Leonardo, entregue  sondagem dos grandes mistrios da natureza, h um nmero enorme de passagens 
onde ele manifesta a sua admirao pelo Criador, ltima causa de todos esses nobres segredos; mas nada existe que possa indicar que desejou manter relaes pessoais 
com esse divino poder. As reflexes que encerram a profunda sabedoria dos ltimos anos de sua vida exalam a conformao do homem que se entrega ao ??????, s leis 
da natureza, e que nenhuma misericrdia espera da bondade ou da graa de Deus. Parece no haver dvida de que Leonardo superou tanto a religio dogmtica quanto 
a pessoal, e que afastou-se muito da concepo crist do mundo, atravs do seu trabalho de pesquisa.
         As descobertas, anteriormente mencionadas [ver a partir de [1]], que fizemos sobre o desenvolvimento da vida mental infantil, levam-nos a crer que no caso 
de Leonardo tambm as suas primeiras pesquisas na infncia se orientaram para os problemas da sexualidade. Ele prprio se denuncia, sob disfarce transparente, ao 
relacionar sua nsia de pesquisa  fantasia do abutre e ao destacar o problema do vo das aves como assunto para o qual se sentia fatalmente impelido por uma srie 
de circunstncias. Um trecho sobremodo obscuro de suas anotaes referentes ao vo das aves, e que se assemelha a uma profecia, demonstra muito bem o grau de interesse 
afetivo que o fazia fixar-se na idia de poder um dia imitar, ele prprio, esse vo: `O grande pssaro alar o seu primeiro vo partindo do dorso de seu Grande 
Cisne; far o mundo ficar maravilhado, ser por todos descrito e ser a glria eterna do ninho onde nasceu.' Provavelmente esperava que ele prprio chegaria a voar 
um dia e conhecemos, pelos sonhos realizadores de desejos, que felicidade se aguarda da realizao dessa esperana.
         
         Mas por que ser que tantas pessoas sonham sentindo-se capazes de voar? A resposta que nos d a psicanlise  que voar, ou ser um pssaro,  somente um 
disfarce para outro desejo, e que mais de uma conexo, seja por meio de palavras ou de coisas, leva-nos a reconhecer esse desejo. Quando consideramos que s crianas 
perguntadoras dizemos que os bebs so trazidos por um grande pssaro, tal como a cegonha; quando nos lembramos de que os antigos povos representavam o falo como 
possuindo asas; que a expresso mais comum, em alemo, para a atividade sexual masculina  `vgeln' [`passarear': `Vogel'  a palavra alem para `pssaro'; que o 
rgo masculino  chamado de `l'uccello' [`o pssaro'] em italiano - vemos que todos esses dados constituem apenas uma pequena frao de um conjunto de idias correlatas 
que nos mostram que, nos sonhos, o desejo de voar representa verdadeiramente a nsia de ser capaz de realizar o ato sexual. Este  um desejo que surge nos primeiros 
anos da infncia. Quando o adulto relembra sua infncia, esta parece-lhe como tendo sido uma poca feliz, na qual se gozava o momento e se encarava o futuro sem 
nenhum desejo;  por essa razo que ele inveja as crianas. No entanto, se as prprias crianas nos pudessem contar a sua histria nessa poca, elas provavelmente 
o fariam de modo diferente. Parece que a infncia no  bem esse idlio bem-aventurado que retrospectivamente destorcemos; ao contrrio, as crianas durante toda 
a sua infncia sentem-se fustigadas pelo desejo de crescer e de fazer o que fazem os grandes. Este desejo reflete-se em todas as brincadeiras. Sempre que as crianas 
sentem, no curso de suas exploraes sexuais, que, nesse terreno to misterioso e to importante para elas, existe alguma coisa maravilhosa permitida aos adultos, 
mas que elas esto proibidas de conhecer e de fazer, sentem um desejo violento de ser capazes de faz-lo e sonham-no sob a forma de voar, ou preparam este disfarce 
de seu desejo para ser usado mais tarde em seus sonhos de voar. Assim, a aviao, que em nossos dias est finalmente conseguindo realizar esse objetivo, tem tambm 
suas razes erticas infantis.
         
         Ao admitir que desde sua infncia sentia-se ligado de maneira especial e pessoal ao problema do vo, Leonardo confirma que as suas pesquisas infantis eram 
dirigidas para questes sexuais; e era isso exatamente o que espervamos, de acordo com a investigao que fizemos sobre crianas de nossa poca. Pelo menos esse 
problema escapara  represso que mais tarde o afastaria da sexualidade. Com ligeiras variantes em seus significados, o mesmo assunto continuou a interess-lo, desde 
os anos de sua infncia at a poca de sua plena maturidade intelectual; e  muito possvel que no tivesse conseguido a destreza que desejava, quer no sentido sexual 
primrio, quer no sentido mecnico, e que permaneceu frustrado em ambos os desejos. 
         Na verdade, o grande Leonardo permaneceu como uma criana durante toda a vida, sob diversos aspectos; diz-se que todos os grandes homens conservam algo 
de infantil. Mesmo quando adulto, continuava ele a brincar, o que constituiu mais um motivo por que freqentemente pareceu estranho e incompreensvel para seus contemporneos. 
A ns no satisfaz, porm, saber que construa os mais complicados brinquedos mecnicos, que exibia em festejos da corte e recepes cerimoniosas, pois relutamos 
em conceber o artista usando o seu talento em coisas to sem importncia. No entanto, ele no parecia aborrecer-se em gastar assim o seu tempo pois Vasari conta-nos 
que fazia essas coisas mesmo sem receber encomendas: `Quando estava l (em Roma) pegou um pedao de cera e com ele modelou bichos muito delicados, que enchia de 
ar; quando soprava, eles voavam e quando o ar escapava, caam no cho. Para um lagarto estranho, que o vinhateiro de Belvedere encontrou, fez umas asas tiradas da 
pele de outros lagartos e encheu-as com mercrio, de maneira que elas se agitavam e tremiam quando o lagarto caminhava. Em seguida, fez-lhe uns olhos, uma barba 
e chifres, domesticou-o e o guardou numa caixa, para com ele assustar todos os seus amigos'. Tais habilidades muitas vezes serviam para exprimir pensamentos mais 
srios. `Algumas vezes limpava os intestinos de um carneiro to cuidadosamente que poderiam depois caber na concha de sua mo. Levava-os, ento, para um grande quarto, 
ajustava-os a um fole de ferreiro situado numa sala contgua e os enchia, a ponto de virem a ocupar a sala inteira, assim forando as pessoas que l estavam a se 
refugiarem num canto. Dessa forma, ele mostrava como se tornavam transparentes  medida que se enchiam de ar; e pelo fato de que a princpio eles ocupavam pouco 
espao, e que gradualmente espalhavam-se pela sala inteira, ele os comparava ao gnio.' O mesmo prazer brincalho de esconder coisas, fazendo-as depois reaparecer 
sob os mais engenhosos disfarces, encontra-se em suas fbulas e adivinhaes. Estas ltimas eram feitas sob a forma de `profecias': quase todas eram ricas em idias 
mas notoriamente desprovidas de espirituosidade.
         Os jogos e brincadeiras com que Leonardo ocupava sua imaginao, em alguns casos, levaram os seus bigrafos, que no lhe compreendiam este lado do carter, 
a interpret-lo erroneamente. Nos manuscritos milaneses de Leonardo, existem, por exemplo, alguns rascunhos de cartas para o `Diodario de Sorio` (Sria), Vice-rei 
do Sagrado Sulto da Babilnia', nas quais Leonardo se apresenta como sendo um engenheiro enviado quelas regies orientais para a execuo de determinados trabalhos; 
nelas defende-se da acusao de preguia; fornece algumas descries geogrficas de cidades e montanhas, e conclui com o relato de um fenmeno da natureza que teria 
acontecido quando l se encontrava.
         Em 1883, J. P. Richter tentou provar com esses documentos que Leonardo havia realmente feito todas essas observaes quando em viagem a servio do Sulto 
do Egito, e at mesmo adotara a religio maometana, quando no Oriente. Segundo ele, a visita deu-se antes de 1843 - isto , antes de ter-se instalado na corte do 
Duque de Milo. Mas a argcia de outros autores facilmente reconheceu a evidncia do que a suposta viagem de Leonardo ao Oriente realmente significava - uma produo 
imaginria do jovem artista, criada para seu prprio divertimento e na qual ele encontrou expresso para um desejo de conhecer o mundo e enfrentar aventuras.
         Outro provvel exemplo de criao de sua imaginao encontra-se na `Academia Vincina', que chegou a ser admitida devido a existncia de cinco ou seis emblemas, 
com motivos laboriosamente entrelaados, ostentando o nome da Academia. Vasari menciona esses desenhos mas no faz referncia  Academia. Mntz, que reproduziu um 
desses emblemas na capa de seu extenso trabalho sobre Leonardo,  um dos poucos que acredita na realidade de uma `Academia Vinciana'.
          provvel que o instinto brincalho de Leonardo tenha desaparecido nos seus anos de maturidade, e que encontrasse derivativo na atividade de pesquisa que 
representou o ltimo e mais alto nvel de expanso de sua personalidade. A sua longa durao, no entanto, nos ensina como lentamente o indivduo se desliga de sua 
infncia, se nos dias infantis desfrutou a maior felicidade ertica, coisa nunca mais conseguida.
         
         
         VI
         Seria ftil tentar negar que os leitores de hoje no apreciam a patografia. Eles encobrem sua averso alegando que a investigao patogrfica de um grande 
homem jamais conduz  compreenso de sua importncia e de seus feitos, e que, portanto, constitui uma impertinncia sem sentido estudar nele aspectos que poderiam 
ser facilmente encontrados em qualquer outra pessoa. Mas esta crtica  de tal maneira injusta que s poder ser compreendida se a tomamos como um pretexto ou uma 
desculpa. A patografia no tem como finalidade tornar inteligveis os feitos dos grandes homens; e seguramente ningum poder ser censurado por no realizar algo 
que jamais prometeu. Os verdadeiros motivos para essa oposio so diferentes. Podemos descobri-los se nos lembrarmos de que os bigrafos se fixam em seus livros 
de uma maneira toda especial. Muitas vezes escolhem o heri como assunto de seu estudo porque - segundo razes de sua vida emocional pessoal - desde o comeo sentiram 
por ele uma afeio especial. Dedicam suas energias a um trabalho de idealizao, destinado a incluir o grande homem na srie de seus modelos infantis - revivendo 
neles, talvez, a idia infantil que faziam de seu pai. Para satisfazer este desejo, eliminam at as caractersticas fisionmicas de sua personagem; apagam as marcas 
das lutas de sua vida, com resistncias internas e externas, e nela no toleram nenhum vestgio de fraqueza ou imperfeies humanas. Apresentam-nos, assim, uma figura 
ideal, fria, estranha, em vez de uma pessoa humana com a qual nos pudssemos sentir remotamente relacionados. Isto  lastimvel, pois assim sacrificam a verdade 
em benefcio de uma iluso, e por causa de suas fantasias infantis abandonam a oportunidade de penetrar nos mais fascinantes segredos da natureza humana.
         O prprio Leonardo, com seu amor  verdade e sua sede de conhecimento, no desencorajaria qualquer tentativa de descobrir o que determinava seu desenvolvimento 
mental e intelectual, tomando como ponto de partida as peculiaridades triviais e os enigmas de sua natureza. Ns o homenageamos quando dele aprendemos algo. Em nada 
ficar diminuda sua grandeza ao fazermos um estudo dos sacrifcios que lhe custou o desenvolvimento a partir de sua infncia, e se juntarmos os fatores que o marcaram 
com o estigma trgico do fracasso.
         Devemos assinalar insistentemente que nunca classificamos Leonardo como um neurtico ou um `doente dos nervos', conforme a denominao usual imprpria. 
Qualquer um que proteste contra o fato de ousarmos examin-lo sob a luz dos conhecimentos adquiridos no campo da patologia ainda se estar apegando aos preconceito 
que ns j abandonamos. No mais consideramos que a sade e a doena, ou que os normais e os neurticos se diferenciem tanto uns dos outros e que traos neurticos 
devem necessariamente ser tomados como sendo prova de uma inferioridade geral. Hoje em dia, sabemos que os sintomas neurticos so estruturas que funcionam como 
substitutos para algumas conseqncias de represso,  qual devemos submeter-nos no curso de nosso desenvolvimento, desde a criana ao ser humano civilizado. Sabemos, 
tambm, que todos ns produzimos essas estruturas substitutivas e que somente o seu nmero, intensidade e distribuio nos poder justificar na utilizao do conceito 
prtico de doena e inferir a presena de uma inferioridade constitucional. Partindo das indicaes escassas que temos sobre a personalidade de Leonardo, estamos 
inclinados a classific-lo como prximo ao tipo de neurtico que descrevemos como `obsessivo'; e poderamos comparar suas pesquisas  `meditao obsessiva' dos neurticos 
e suas inibies como aquilo que chamamos de `abulias'.
         O objetivo de nosso trabalho foi explicar as inibies na vida sexual e na atividade artstica de Leonardo. Tendo isso em vista, podemos resumir o que conseguimos 
descobrir sobre o curso de seu desenvolvimento psquico.
         No podemos conhecer direito as circunstncias de sua hereditariedade; verificamos, por outro lado, que as circunstncias acidentais de sua infncia tiveram 
sobre ele um efeito profundo e perturbador. A sua origem ilegtima privou-o da influncia do pai, talvez at os cinco anos, e deixou-o entregue  carinhosa seduo 
de uma me para quem ele talvez fosse o nico consolo. Depois que os seus beijos lhe despertaram precocemente a madureza sexual, deve ter provavelmente atravessado 
uma fase de atividade sexual infantil da qual uma nica manifestao foi definitivamente comprovada - a intensidade de suas pesquisas sexuais infantis. O instinto 
de ver e o de saber foram os mais fortemente excitados pelas impresses mais remotas de sua infncia;  zona ergena da boca foi dava uma nfase da qual nunca mais 
se libertou. Por sua conduta posterior, em direo oposta, assim como sua simpatia exagerada pelos animais podemos concluir pela existncia de fortes indcios de 
traos sdicos naquele perodo de sua infncia.
         Uma poderosa onda de represso ps fim a esse excesso infantil e determinou as disposies que se deveriam manifestar nos anos da puberdade. O resultado 
mais evidente da transformao foi o afastamento de toda atividade sexual grosseira. Leonardo estava capacitado para viver em abstinncia e dar a impresso de ser 
uma criatura assexuada. Quando ondas de excitaes da puberdade chegaram ao adolescente, elas no o molestaram forando-o a procurar formaes substitutivas custosas 
e prejudiciais. Devido  sua tendncia muito precoce para a curiosidade sexual, a maior parte das necessidades de seu instinto sexual puderam ser sublimadas numa 
nsia geral de saber, escapando assim  represso. Uma parte muito menor de sua libido continuou orientada para fins sexuais e representa a atrofiada vida sexual 
do adulto. Porque o amor que tinha pela me foi reprimido, esta parte foi levada a tomar uma atitude homossexual e manifestou-se no amor ideal por rapazes. A fixao 
em sua me e nas felizes lembranas de suas relaes com ela continuou preservada no inconsciente, permanecendo, porm, inativa por algum tempo. Desse modo, a represso, 
a fixao e a sublimao desempenharam sua parte absorvendo as contribuies do instinto sexual para a vida mental de Leonardo.
         Leonardo surge da obscuridade de sua infncia como artista, pintor e escultor devido a um talento especfico que foi reforado, provavelmente, nos primeiros 
anos de sua infncia pelo precoce despertar do seu instinto escoptoflico. Gostaramos enormemente de descrever o modo pelo qual a atividade artstica se origina 
nos instintos primitivos da mente, se no fosse aqui, justamente, que falham nossas capacidades. Devemos contentar-nos em enfatizar o fato de que dificilmente se 
pode duvidar - de que a criao do artista proporciona, tambm, uma vlvula de escape para seu desejo sexual; e no caso de Leonardo podemos ver, segundo a informao 
de Vasari [ver em [1]] que cabeas de mulheres sorridentes e de lindos rapazes - em outras palavras, a representao de seus objetos sexuais - eram freqentes em 
suas primeiras tentativas artsticas. No verdor de sua mocidade, Leonardo parece trabalhar sem inibio. Assim como tomava seu pai como modelo para a conduta exterior 
de sua vida, tambm atravessou um perodo de masculina fora criadora e produo artstica quando um destino feliz o fez encontrar, em Milo, um pai substituto na 
figura do duque Ludovico Moro. Mas logo encontramos a confirmao de nossa experincia, isto , que a represso quase total de uma vida sexual real no oferece as 
condies mais favorveis para o exerccio das tendncias sexuais sublimadas. O padro imposto pela vida sexual termina por se impor. Sua atividade e sua capacidade 
de tomar rpidas decises comeam a falhar; sua tendncia  indeciso e  protelao se fazem sentir como elemento perturbador na `ltima Ceia' e, influenciando 
sua tcnica, tiveram um efeito decisivo no destino daquela grande obra. Lentamente desenvolveu-se nele um processo somente comparvel s regresses nos neurticos. 
O desenvolvimento que o levou a tornar-se um artista ao atingir a puberdade cedeu lugar ao processo que o tornou pesquisador e que tem suas determinantes na primeira 
infncia. A segunda sublimao do seu instinto ertico cedeu lugar  sublimao original, cuja forma tinha sido preparada por ocasio da primeira represso. Tornou-se 
um pesquisador, a princpio a servio de sua arte, porm, mais tarde, independentemente dela e mesmo dela se afastando. Com a perda de seu patrono, substituto de 
seu pai, e com as sombras que, progressivamente, lhe marcavam a vida, esta substituio regressiva assumiu propores cada vez maiores. Tornou-se `impacientissimo 
al pennelo' conforme nos conta um correspondente da condessa Isabella d'Este, que desejava ardentemente possuir um quado seu. Seu passado infantil passou a domin-lo. 
Mas a pesquisa, que toma agora o lugar da criao artstica, parece ter contido alguns traos que caracterizam a atividade de impulsos inconscientes; insaciabilidade, 
rigidez de comportamento e falta de capacidade para adaptar-se s circunstncias reais.
         Ao atingir o pice de sua vida, quando ingressava na casa dos cinqenta - poca em que as caractersticas sexuais das mulheres j sofreram a involuo, 
enquanto nos homens a libido, com freqncia, apresenta um enrgico surto - sofreu ele uma nova transformao. Camadas ainda mais profundas de seu contedo anmico 
tornaram-se mais uma vez ativas; mas esta nova regresso veio beneficiar a sua arte que se encontrava num processo de atrofiamento. Encontrou a mulher que lhe despertou 
a lembrana do sorriso feliz e sensual de sua me; e, influenciado por eta lembrana reaguada, voltou a encontrar o estmulo que o guiava no princpio de suas tentativas 
artsticas, na poca em que retratou mulheres sorridentes. Pintou a Mona Lisa, a `Sant'Ana com Dois Outros' e a srie de retratos misteriosos caracterizados pelo 
sorriso enigmtico. Com a ajuda do mais antigo de todos os seus impulsos erticos goza o triunfo de, uma vez mais, dominar a inibio na sua arte. Este ltimo desenvolvimento 
vai-se tornando impreciso para ns, com as sombras da velhice que se aproxima. Antes disso, seu intelecto se elevara at o mais alto grau de realizao formulando 
uma concepo do mundo que de muito ultrapassou a sua poca.
         Nos captulos anteriores, j mostrei o que pode justificar este retrato do curso do desenvolvimento de Leonardo - propondo estas subdivises de sua vida 
e explicando, dessa forma, sua vacilao entre a arte e a cincia. Se as afirmativas que fiz provocaram crticas, mesmo de amigos e conhecedores da psicanlise, 
de ter eu apenas escrito uma nova psicanaltica, responderei que jamais superestimei a certeza desses resultados. Como tantos outros, sucumbi  atrao desse grande 
e misterioso homem, em cuja natureza podemos entrever poderosas paixes instintivas que, no entanto, somente se podem exprimir de modo to impreciso.
         Seja qual for a verdade sobre a vida de Leonardo, no podemos abandonar nossa tentativa de encontrar uma explicao psicanaltica antes de completarmos 
uma outra tarefa. Devemos fixar, de modo geral, os limites do que a psicanlise pode conseguir no campo da biografia: de outro modo, todo esclarecimento que no 
for logo comprovado ser considerado como um fracasso nosso. O material de que dispe a psicanlise para uma pesquisa consta de dados da histria da vida de uma 
pessoa; de um lado as circunstncias acidentais e as influncias do meio e, do outro lado, as reaes conhecidas do indivduo. Baseada em seu conhecimento dos mecanismos 
psquicos, prope-se, ento, estabelecer uma base dinmica para a sua natureza, fundamentada na intensidade de suas reaes, e desvendar as foras motivadoras originais 
de sua mente, assim como as suas transformaes e desenvolvimentos futuros. Se isso tem sucesso, o comportamento de uma personalidade no curso de sua vida  explicado 
em termos da ao conjugada da constituio e do destino, de foras internas e poderes externos. Quando tal estudo no fornece resultados indubitveis - e talvez 
suceda assim no caso de Leonardo - a culpa no est nos mtodos falhos e inadequados da psicanlise, mas na incerteza e na natureza fragmentria do material com 
ele relacionado, e que a tradio nos legou. Portanto, somente o autor dever ser considerado responsvel pelo fracasso, por ter obrigado a psicanlise a exprimir 
sua opinio abalizada, apoiando-se em material to insuficiente.
         Ainda que o material histrico de que dispomos fosse muito abundante e os mecanismos psquicos pudessem ser usados com a mxima segurana, existem dois 
pontos importantes onde uma pesquisa psicanaltica no nos consegue explicar por que razo  to inevitvel que a personagem estudada tenha seguido exatamente essa 
direo e no outra qualquer. No caso de Leonardo, tivemos de sustentar o ponto de vista de que o acaso de sua origem ilegtima e a ternura exagerada de sua me 
tiveram influncia decisiva na formao de seu carter e na sorte de seu destino, pois a represso sexual que se estabeleceu depois dessa fase de sua infncia levou-o 
a sublimar sua libido na nsia de saber e estabelecer sua inatividade sexual para o resto de sua vida. Mas esta represso aps as primeiras satisfaes erticas 
da infncia no tinha necessariamente de se estabelecer; em outra pessoa talvez no tivesse acontecido, ou talvez tivesse atingido propores muito menores. Temos 
de reconhecer aqui uma margem de liberdade que no pode mais ser resolvida pela psicanlise. Assim, tambm, no podemos afirmar que a conseqncia dessa onda de 
represso tivesse sido a nica possvel.  provvel que uma outra pessoa no tivesse conseguido livrar da represso a maior parte da sua libido sublimando-a numa 
sede de conhecimentos; sob as mesmas influncias, teria sofrido perturbao permanente de sua atividade intelectual ou adquirido uma disposio incoercvel para 
a neurose obsessiva. Deixamos, portanto, estas duas caractersticas de Leonardo que no podem ser explicadas pela psicanlise: sua tendncia muito especial para 
a represso dos instintos e sua extraordinria capacidade para sublimar os instintos primitivos.
         Os instintos e suas transformaes constituem o limite do que a psicanlise pode discernir; da em diante cede lugar  investigao da biologia. Somos obrigados 
a procurar a fonte da tendncia  represso e a capacidade para a sublimao nos fundamentos orgnicos do carter, sobre o qual se vem erigir posteriormente a estrutura 
mental. J que o talento artstico e a capacidade esto intimamente ligados  sublimao, temos de admitir que a natureza da funo artstica tambm no pode ser 
explicada atravs da psicanlise. A tendncia da pesquisa biolgica, hoje em dia,  explicar as principais caractersticas orgnicas de uma pessoa, como o resultado 
da mistura das disposies masculina e feminina, baseada em substncias [qumicas]. A beleza fsica de Leonardo e o fato de ser canhoto podero ser mencionadas em 
apoio a este ponto de vista. No abandonaremos, no entanto, o campo da pesquisa puramente psicolgica. Nosso objetivo continua a ser demonstrar a relao que existe, 
seguindo o caminho da atividade instintiva, entre as experincias externas de um indivduo e suas reaes. Mesmo que a psicanlise no esclarea o poder artstico 
de Leonardo, pelo menos torna, para ns, mais compreensveis suas manifestaes e suas limitaes. Parece, em todo caso, que somente um homem que tivesse passado 
pelas experincias infantis de Leonardo poderia ter pintado a Mona Lisa e a Sant'Ana, ter acarretado um destino to melanclico para suas obras e ter embarcado numa 
carreira to extraordinria de cientista, como se a chave para todas as suas realizaes e fracassos estivesse escondida na sua fantasia infantil sobre o abutre.
         
         Mas ser que no devemos fazer objees aos achados de uma investigao que atribui a circunstncias acidentais, referentes  sua constelao parental, 
uma influncia to decisiva no destino de uma pessoa? O que, por exemplo, fez com que o destino de Leonardo viesse a depender de sua origem ilegtima e da esterilidade 
de sua primeira madrasta, Donna Albiera? Creio que ningum ter o direito de faz-lo. Se considerarmos que o acaso no pode determinar nosso destino, ser apenas 
um retorno ao ponto de vista religioso sobre o Universo, que o prprio Leonardo estava a ponto de superar quando escreveu que o sol no se move [ver em [1]]. Sentimo-nos 
naturalmente decepcionados por ver que um Deus justo e uma providncia bondosa no nos protegem melhor contra tais influncias durante o perodo mais vulnervel 
de nossas vidas. Ao mesmo tempo, estamos sempre demasiadamente prontos a esquecer que, de fato, o que influi em nossa vida  sempre o acaso, desde nossa gnese a 
partir do encontro de um espermatozide com um vulo - acaso que, no entanto, participa das leis e necessidades da natureza, faltando-lhe apenas qualquer ligao 
com nossos desejos e iluses. A distribuio dos fatores determinantes de nossa vida entre as `necessidades' de nossa constituio e o `acaso' de nossa infncia 
pode ser ainda incerta em seus detalhes; mas no ser mais possvel duvidar precisamente da importncia dos primeiros anos de nossa infncia. Ns todos ainda sentimos 
muito pouco respeito pela natureza, que (nas palavras obscuras de Leonardo, que lembram o Hamlet) `est cheia de inmeras razes [`ragioni'] que nunca penetram a 
experincia.'
         Cada um de ns, seres humanos, corresponde a uma dessas inmeras experimentaes por meio das quais as `ragioni' da natureza so compelidas a compartilhar 
a experincia.
         
         































AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPUTICA PSICANALTICA (1910)
         
         DIE ZKNFTIGEN CHANCEN DER PSYCHOANALYTISCHEN THERAPIE
         
         (a)   EDIES ALEMS:
         1910   Zbl. Psychoan., 1 (1-2), 1-9.
         1913   S.K.S.N., 3, 288-298. (2 ed. 1921.)
         1924   Technik und Metapsychol., 25-36.
         1925   G.S., 6, 25-36.
         1943   G.W., 8, 104-115.
         (b)   TRADUES INGLESAS:
         `The Future Chances of Psychoanalytic Therapy'
         1912   S.P.H. (2 ed.), 207-215. (Trad. A. A. Brill.) (3 ed. 1920.)
         `The Future Prospects of Psycho-Analytic Therapy'
         1924   C.P., 2, 285-296. (Trad. Joan Riviere.)
         A presente traduo inglesa baseia-se na publicada em 1924.
         Este trabalho foi proferido em forma de comunicao para a abertura do Segundo Congresso de Psicanlise, realizado em Nurembergue, em 30 e 31 de maro de 
1910. Como uma viso geral da posio contempornea da psicanlise, pode-se compar-lo com uma conferncia similar `Lines of Advance in Psycho-Analytic Therapy' 
(Linhas de Desenvolvimento da Teraputica Psicanaltica) (1919a) proferida por Freud oito anos depois no Congresso de Budapeste. Em especial, a segunda parte do 
presente trabalho, que trata da tcnica, prefigura a terapia `ativa' que constituiu o tema principal do ltimo trabalho.
         
         NOTA DO EDITOR BRASILEIRO
         
         A presente traduo brasileira  de autoria de David Mussa. Reviso geral e tcnica de Jayme Salomo (Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanlise 
do Rio de Janeiro).
         
         AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPUTICA PSICANALTICA
         
         SENHORES, - De vez que os objetivos para os quais nos reunimos aqui, hoje, so eminentemente prticos, escolherei para minha conferncia introdutria um 
tema clnico e solicito-lhes o interesse, no cientfico, mas mdico. Posso imaginar seus provveis pontos de vista sobre o resultado de nossa terapia e presumo 
que a maioria dos senhores j passou pelos dois estgios que atravessam todos os principiantes, o do entusiasmo pelo aumento inesperado de nossas faanhas teraputicas 
e o da depresso pela magnitude das dificuldades que impedem nossos esforos. Qualquer que seja, no entanto, o grau de desenvolvimento em que cada um dos senhores 
possa encontrar-se,  minha inteno, hoje, mostrar-lhes que, de nenhuma maneira, chegamos ao final de nossos recursos no combate s neuroses e que podemos esperar, 
em pouco tempo, melhoria substancial nas nossas perspectivas teraputicas.
         Penso que este reforo vir de trs direes:
         (1) do processo interno,
         (2) do aumento da autoridade; e
         (3) da eficincia geral de nosso trabalho.
         (1) Sob `progresso interno' quero dizer os avanos: (a) em nosso conhecimento analtico, (b) em nossa tcnica.
         (a) Avanos em nosso conhecimento. Na verdade, estamos ainda muito longe de saber tudo o que se requer para o conhecimento dos inconsciente de nossos doentes. 
 evidente que cada avano em nosso conhecimento significa um acrscimo de nosso poder teraputico. Na medida em que nada compreendemos, nada realizamos; quanto 
mais compreendermos, mais alcanaremos. No incio, o tratamento analtico era inexorvel e exaustivo. O doente tinha de dizer tudo de si e a atividade do mdico 
consistia em pression-lo, incessantemente. As coisas, hoje, possuem atmosfera mais cordial. O tratamento compe-se de duas partes - o que o mdico infere e diz 
ao doente, e o que o doente elabora de quanto ouviu. O mecanismo de nosso auxlio  fcil de entender; damos ao doente a idia antecipadora consciente [a idia do 
que ele espera encontrar] e, ento, ele acha a idia inconsciente reprimida, em si mesmo, no fundamento de sua similaridade com a idia antecipadora.  esta a ajuda 
intelectual que lhe torna mais fcil superar as resistncias entre consciente e inconsciente. A propsito, devo salientar que este no  o nico mecanismo de que 
se faz uso no tratamento analtico; os senhores todos conhecem aquele bem mais poderoso que repousa no emprego da `transferncia'. E em minha inteno, em futuro 
prximo, tratar desses diversos fatores, que so to importantes para a compreenso do tratamento, em uma Allgemeine Methodik der Psychoanalyse. E, alm disso, ao 
falar-lhes, no preciso refutar a objeo de que o valor indicativo que sustenta a correo de nossas hipteses se obscurea, em nosso tratamento, tal como hoje 
o praticamos; os senhores no devem esquecer-se de que se pode encontrar essa evidncia em outro lugar e de que se pode realizar um procedimento teraputico da mesma 
forma que uma investigao terica.
         Permitam-me, agora, tocar em um ou dois setores em que novas coisas temos para aprender e em que, de fato, novas coisas devemos descobrir, a cada dia. H, 
acima de tudo, o setor do simbolismo nos sonhos e no inconsciente - tema ardentemente contestado, como os senhores sabem. No  pequeno o mrito de nosso colega, 
Wilhelm Stekel, que, imperturbado por todas as objees levantadas por nossos opositores, empreendeu um estudo dos smbolos onricos. H ainda, por certo, muito 
a aprender aqui; a minha Interpretation of Dreams (A Interpretao de Sonhos), escrita em 1899, aguarda importante ampliao das pesquisas no simbolismo.
         
         Direi algumas palavras acerca de um dos smbolos que se reconheceram recentemente. Ouvi dizer, pouco tempo atrs, que um psiclogo, cujos pontos de vista 
eram algo diferentes dos nossos sonhos, salientara a um de ns, que, conquanto tudo o que se disse e se fez, sem dvida exageramos a significao sexual oculta dos 
sonhos: o seu prprio sonho mais comum era o de subir escadas e, por certo, no poderia haver nada de sexual naquilo. Pusemo-nos alerta no tocante a essa objeo 
e comeamos a voltar nossa ateno para o aspecto dos degraus, escadas e escadas de mo nos sonhos e ficamos logo em posio de mostrar que as escadas (e coisas 
anlogas) eram, inquestionavelmente, smbolos da cpula. No  difcil descobrir a base da comparao: chegamos ao topo numa sucesso de movimentos rtmicos e com 
crescente perda de flego e, depois, com alguns saltos rpidos podemos crescer de novo. Assim, o modelo rtmico da cpula  reproduzido no subir as escadas. Nem 
devemos omitir em trazer  evidncia o uso lingstico. Ele nos revela que `trepar' [em alemo `steigen'] se usa como equivalente direto do ato sexual. Falamos de 
um homem como um `Steiger' [um `trepador'] e de `nachsteigen' [`correr atrs de', literalmente `trepar']. Em francs os degraus de uma escada chamam-se `marches' 
e `un vieux marcheur tem o mesmo sentido que o nosso `ein alter Steiger' [`um velho devasso']. O material do sonho de onde tais simbolismos, recentemente reconhecidos, 
foram extrados, ser-lhes- apresentado, no devido tempo, pela comisso que estamos formando para o estudo coletivo do simbolismo. Os senhores encontraro algumas 
observaes sobre outro smbolo interessante, o do `salvamento' e suas alteraes em significao, no segundo volume do nosso Jahrbuch (Anurio). Mas, devo interromper 
aqui ou no chegarei aos meus outros objetivos.
         Cada um dos senhores pode saber, de sua prpria experincia, que atitude bastante diferente ter para um novo caso de enfermidade, quando certa vez se apoderou, 
profundamente, da estrutura de alguns casos caractersticos. Imaginem que tenhamos chegado a uma frmula sucinta dos fatores que, comumente, participam da constituio 
das diversas formas de neurose, como aconteceu, at aqui, na estruturao dos sintomas histricos, e considerem como isso pode estabelecer, firmemente, nosso julgamento 
prognstico! Assim como um obstetra pode dizer, ao examinar a placenta, se ela foi completamente expelida ou se ainda permanecem seus fragmentos nocivos, do mesmo 
modo ns, independentemente do resultado e do estado do paciente, no momento, lograremos saber se nosso trabalho foi bem-sucedido ou se teremos de esperar recadas 
e novas crises de enfermidade.
         (b) Apressar-me-ei em torno das inovaes no setor da tcnica, onde, na verdade, quase tudo ainda aguarda a posio final e muita coisa, somente agora, 
comea a esclarecer-se. H, hoje, dois objetivos na tcnica psicanaltica: poupar o esforo do mdico e dar ao paciente o mais irrestrito acesso ao seu inconsciente. 
Como sabem, nossa tcnica passou por uma transformao fundamental.  poca do tratamento catrtico, o que almejvamos era a elucidao dos sintomas; afastamo-nos, 
depois, dos sintomas e devotamo-nos, em vez disso, a desvendar os `complexos', para usar uma palavra que Jung tornou indispensvel; agora, no entanto, nosso trabalho 
objetiva encontrar e sobrepujar, diretamente, as `resistncias', e podemos confiar em que venham  luz, justificadamente, sem dificuldade, os complexos, to logo 
se reconheam e se removam as resistncias. Alguns dos senhores tm sentido, desde ento, a necessidade de que se possa fazer uma pesquisa dessas resistncias e 
classific-las. Pedir-lhe-ei que examinem seu material e vejam se podem confirmar a afirmao generalizada de que, nos pacientes masculinos, a maioria das resistncias 
importantes ao tratamento parecem derivar-se do complexo paterno e expressar-se neles no medo ao pai, desobedincia ao pai e desavena do pai.
         As outras inovaes na tcnica relacionam-se com o prprio mdico. Tornamo-nos cientes da `contratransferncia', que, nele, surge como resultado da influncia 
do paciente sobre os seus sentimentos inconscientes e estamos quase inclinados a insistir que ele reconhecer a contratransferncia, em si mesmo, e a sobrepujar. 
Agora que um considervel nmero de pessoas est praticando a psicanlise e, reciprocamente, trocando observaes, notamos que nenhum psicanalista avana alm do 
quanto permitem seus prprios complexos e resistncias internas; e, em conseqncia, requeremos que ele deva iniciar sua atividade por uma auto-anlise e lev-la, 
de modo contnuo, cada vez mais profundamente, enquanto esteja realizando suas observaes sobre seus pacientes. Qualquer um que falhe em produzir resultados numa 
auto-anlise desse tipo deve desistir, imediatamente, de qualquer idia de tornar-se capaz de tratar pacientes pela anlise.
         Estamos chegando, agora, tambm,  opinio de que se deve modificar a tcnica psicanaltica, em certos setores, de acordo com a natureza da doena e das 
tendncias instintivas predominantes no paciente. Partimos do tratamento da histeria de converso; na histeria de angstia (fobias), devemos alterar, em certa extenso, 
o nosso procedimento. Pois esses pacientes no podem expressar o material necessrio para resolver as suas fobias, uma vez que se sentem protegidos por obedecer 
 situao que se estabeleceu. No se pode ser bem-sucedido, por certo, em persuadi-los a abandonar suas medidas protetoras e a trabalhar, sob a influncia da ansiedade, 
desde o incio do tratamento. Deve-se, portanto, auxili-los ao interpretar-lhes o inconsciente, at que possam tomar uma deciso, sem a proteo de sua fobia e 
sem que se exponham a sua ansiedade j grandemente mitigada. Somente depois de assim procederem, o material torna-se acessvel, e, uma vez dominado, conduz  soluo 
da fobia. As outras modificaes da tcnica, que ainda no me parecem maduras para exame, sero requeridas no tratamento das neuroses obsessivas. Nessa conexo, 
surgem muitas questes importantes, as quais, at aqui, no foram elucidadas: at que ponto se deve permitir, durante o tratamento, certa satisfao dos instintos 
que o paciente est combatendo e que diferena faz se esses impulsos so ativos (sdicos) ou passivos (masoquistas), em sua natureza.
         Espero que os senhores tenham formado a impresso de que quando soubermos tudo quanto, s agora, suspeitamos e realizarmos todas as melhorias na tcnica, 
a que nos conduz uma observao mais profunda dos pacientes, o nosso procedimento clnico alcanar grau de preciso e certeza de sucesso que se ho de encontrar 
em todo campo especializado da medicina.
         (2) Disse que muito se tinha de esperar do aumento em autoridade, que nos adviria, na medida em que passa o tempo. No necessito dizer-lhes muito sobre 
a importncia da autoridade. Poucas pessoas civilizadas, apenas, so capazes de existir sem confiar em outras ou, at mesmo, de vir a ter uma opinio independente. 
Os senhores no podem exagerar a intensidade de carncia interior de deciso das pessoas e de exigncia de autoridade. O aumento extraordinrio das neuroses desde 
que decaiu o poder das religies pode dar-lhes uma medida disso. O empobrecimento do ego devido ao grande dispndio de energia, na represso, exigido de cada indivduo 
pela civilizao, pode ser uma das principais causas desse estado de coisas.
         At o momento, essa autoridade, com seu enorme peso de sugesto, ficou contra ns. Todos os nossos sucessos teraputicos foram alcanados em face dessa 
sugesto:  surpreendente que se tenham conseguido quaisquer sucessos em tais circunstncias. No devo deixar que me levem a descrever minhas experincias satisfatrias 
durante o perodo em que, sozinho, representava a psicanlise. Posso dizer, apenas, que, quando assegurava a meus pacientes que sabia como aliviar-lhes, permanentemente, 
os sofrimentos, olhavam em torno da minha modesta sala, que refletia a ausncia de fama e de ttulo, e me consideravam como possuidor de um sistema infalvel numa 
casa de jogo, de quem as pessoas dizem que, se pudesse fazer o que professa, pareceria bem diferente do que . Nem realmente era agradvel realizar uma operao 
psquica enquanto os colegas, cujo dever seria o de assistir, se deliciassem, particularmente, em cuspir no campo operatrio, quando aos primeiros sinais de sangue, 
ou de agitao do paciente, os seus parentes comeassem por ameaar o cirurgio. Uma operao, por certo, se destina a produzir reaes; em cirurgia, estamos acostumados 
a isso, h muito tempo. As pessoas simplesmente no acreditavam em mim, como, at mesmo, hoje em dia, no crem muito em qualquer de ns. Sob tais condies, no 
poucas tentativas destinavam-se ao fracasso. Para avaliar o aumento de nossas perspectivas teraputicas, quando recebermos o reconhecimento geral, os senhores devem 
pensar na posio de um ginecologista, na Turquia e no Ocidente. Na Turquia, tudo o que ele pode fazer  sentir o pulso de um brao, que se lhe estende, atravs 
de um buraco na parede: e os alcances clnicos esto em proporo com a inacessibilidade de seu objeto. Nossos adversrios, no Ocidente, querem permitir-nos mais 
ou menos o mesmo grau de acesso s mentes de nossos pacientes. Mas, agora que a fora da sugesto social impele as mulheres doentes ao ginecologista, transformou-se 
ele no seu assistente e salvador. Confio em que no diro que o fato de a autoridade de sociedade, vindo em nossa ajuda e aumentando tanto nossos xitos, nada faria 
por provar a validez de nossas hipteses - argumentando do mesmo modo que os senhores, visto que se supe que a sugesto logre fazer qualquer coisa, os vossos sucessos 
seriam, ento, xitos de sugesto e no de psicanlise. A sugesto social  favorvel, no presente, a tratar os pacientes nervosos pela hidropatia, dieta e eletroterapia, 
mas isso no capacita que tais recursos possam vencer as neuroses. O tempo h de mostrar se o tratamento psicanaltico pode realizar mais.
         Agora, no entanto, devo, mais uma vez, arrefecer as expectativas dos senhores. A sociedade no ter pressa em conferir-nos autoridade. Est determinada 
a oferecer-nos resistncia, porque adotamos em relao a ela uma atitude crtica; assinalamos-lhe que ela prpria desempenha papel importante em causar neuroses. 
Da mesma maneira que fazemos de um indivduo nosso inimigo pela descoberta do que nele est reprimido, do mesmo modo a sociedade no pode responder com simpatia 
a uma implacvel exposio dos seus efeitos danosos e deficientes. Porque destrumos iluses, somo acusados de comprometer os ideais. Poderia parecer, portanto, 
como se a condio de que espero to grandes vantagens, para as nossas perspectivas teraputicas, jamais se preencher. E, todavia, a situao no , no momento, 
to desesperanosa quanto se poderia pensar. Embora sejam poderosos os prprios interesses e emoes dos homens, no obstante o intelecto tambm  um poder - um 
poder que se faz sentir no imediatamente,  verdade, mas, sobretudo, seguramente, no fim. As mais speras verdades, finalmente, so ouvidas e reconhecidas, depois 
que os interesses que se feriram e as emoes que se instigaram tiveram exaurido a prpria fria. Tem sido sempre assim, e as verdades indesejveis, que ns, psicanalistas, 
temos de dizer ao mundo, contaro com o mesmo destino. Apenas no acontecer muito depressa; devemos ser capazes de esperar.
         (3) Finalmente, tenho de explicar-lhes o que quero dizer com a `eficincia geral' de nosso trabalho e como chego a nele ter esperanas. O que temos, aqui, 
 uma constelao teraputica bastante fora do comum, cuja semelhana talvez no se encontre em qualquer outra parte, e que pode parecer-lhes estranha, a princpio, 
at que os senhores reconheam nela algo que a longo tempo lhes tenha sido familiar. Naturalmente, os senhores sabem que as psiconeuroses so satisfaes substitutivas 
de algum instinto, cuja presena o indivduo  obrigado a negar a si e aos outras. Sua capacidade de existir depende dessa distoro e da falta de reconhecimento. 
Quando o enigma que elas apresentam  resolvido e a soluo  aceita pelos pacientes, essas doenas cessam em ser capazes de existir. Em medicina, quase nada h 
igual a isso, embora, em contos de fadas, os senhores ouam falar de espritos maus, cujo poder se rompe, to logo possam dizer-lhes o prprio nome - o nome que 
eles guardaram em segredo.
         Em lugar de uma simples pessoa enferma, ponhamos a sociedade - padecendo como um todo de neuroses, embora composta de membros doentes e sadios; e, em lugar 
da aceitao individual, naquele caso, coloquemos, nesse, o reconhecimento geral. Uma pequena reflexo lhes revelar, ento, que tal substituio no pode alterar, 
de modo algum, o resultado. O sucesso que o tratamento pode ter com o indivduo, deve ocorrer, igualmente, com a comunidade. As pessoas doentes no sero capazes 
de deixar que as suas diversas neuroses se tornem conhecidas - a sua ansiosa superternura que tem em mira ocultar-lhe o dio, a sua agorafobia que se relaciona com 
a ambio frustrada, as suas atitudes obsessivas que representam auto-censuras por ms intenes e precaues contra as mesmas - se todos os seus parentes e cada 
estranho, dos quais desejam ocultar os seus processos mentais, conheceram o significado geral de tais sintomas, e se eles prprios souberem que, nas manifestaes 
de sua doena, nada esto produzindo que outra pessoa, imediatamente, no possa interpretar. O efeito, no entanto, no se limitar ao encobrimento dos sintomas - 
o que, incidentalmente,  amide impossvel de conseguir porque essa necessidade de encobrimento destri a vantagem de ser doente. A revelao do segredo ter atacado, 
em seu ponto mais sensvel, a `equao etiolgica', da qual surgem as neuroses - ter tornado ilusria a vantagem da doena; e, em conseqncia, o resultado final 
da situao modificada, provocada pela indiscrio do mdico, s pode ser o de que a produo da doena ser detida.
         Se essa esperana parece, aos senhores, utpica, lembrem-se de que os fenmenos neurticos j tm sido, de fato, dissipados, por esses meios, embora apenas 
em exemplos bem isolados. Pensem sobre quo comuns costumavam ser, antigamente, as alucinaes da Virgem Maria entre as camponesas. Uma vez que tal fenmeno trouxesse 
uma multido de crentes e pudesse levar a que se construsse uma capela, no lugar santo, o estado visionrio dessas moas era inacessvel a influncia. Hoje em dia, 
nosso prprio clero modificou sua atitude com relao a tais coisas; permite que polcia e mdicos examinem a visionria, e, agora, apenas muito raramente, existem 
em aparies da Virgem.
         Ou, permitam-me examina esses desenvolvimentos, que tenho descrito como se tivessem lugar no futuro, numa situao anloga que existe em escala menor e, 
conseqentemente, mais fcil de reconhecer. Suponhamos que certo nmero de senhoras e cavalheiros, de bom convcio social, tenham planejado fazer um piquenique, 
em certo dia, numa hospedaria no campo. As senhoras combinaram, entre si, que se uma delas desejasse satisfazer suas necessidades fisiolgicas, diria que iria colher 
flores. No entanto, uma pessoa maliciosa soube do segredo e mandou imprimir no programa, que se fez circular por todo o grupo: `Pede-se s senhoras que desejam retirar-se 
 toilette, que anunciem que vo colher flores.' Depois disso, por certo, nenhuma mulher pensar em aproveitar-se desse pretexto florido, e, do mesmo modo, outras 
frmulas similares que pudessem estabelecer ficariam seriamente comprometidas. Qual ser o resultado? As senhoras admitiro, sem pejo, as suas necessidades fisiolgicas 
e nenhum dos homens objetar.
         Retornemos ao nosso caso mais srio. Certo nmero de pessoas, ao defrontar-se, em suas vidas, com conflitos que constataram muito difceis de resolver, 
fogem para a neurose e, desse modo, retiram da doena vantagem inequvoca, embora, com o tempo, acarrete bastante prejuzo. Que tero de fazer essas pessoas, se 
sua fuga para a enfermidade for barrada pelas revelaes indiscretas da psicanlise? Tero de ser honestas, confessar quais os instintos que nelas esto em atividade, 
em face do conflito, lutar por aquilo que desejam ou renunciar ao mesmo; e a tolerncia da sociedade, que est fadada a seguir-se, como resultado do esclarecimento 
psicanaltico, ajud-las- em sua tarefa.
         Lembremo-nos, no entanto, de que nossa atitude perante a vida no deve ser a do fantico por higiene ou terapia. Devemos admitir que a preveno ideal de 
enfermidade neurticas, que temos em mente, no seria vantajosa para todos os indivduos. Um bom nmero daqueles que, hoje, fogem para a enfermidade no suportariam 
o conflito, sob as condies que supomos, mas sim, sucumbiriam, rapidamente, ou causariam prejuzo maior que a sua prpria doena neurtica. As neuroses possuem, 
de fato, sua funo biolgica, como um dispositivo protetor, e tm sua justificao social: a `vantagem da doena', que proporcionam, no  sempre uma vantagem puramente 
subjetiva. Existe algum entre os senhores que, alguma vez, no examinou a causalidade da neurose, e no teve de admitir que esse era o mais suave resultado possvel 
da situao? E dever-se-iam fazer tais pesados sacrifcios, a fim de erradicar as neuroses, em especial, quando o mundo est cheio de outras misrias inevitveis?
         Devemos, ento, abandonar nossos esforos para explicar o significado oculto da neurose como sendo, em ltima instncia, perigoso para o indivduo e nocivo 
para as funes da sociedade? Devemos renunciar a retirar concluses prticas de uma parte da compreenso cientfica? No; penso que, apesar disso, nosso dever repousa 
noutra direo. A vantagem da enfermidade, que proporciona as neuroses , no obstante, no todo, e, finalmente, prejudicial aos indivduos e, igualmente,  sociedade. 
A infelicidade que nosso trabalho de esclarecimento pode causar, atingir, afinal, apenas alguns indivduos. A modificao, para uma atitude mais realista e respeitvel, 
da parte da sociedade, no ser comparada, a preo bastante elevado, atravs desses sacrifcios. Acima de tudo, porm, todas as energias que se consomem, hoje em 
dia, na produo de sintomas neurticos, que servem aos propsitos do mundo da fantasia, isolado da realidade, ajudaro, mesmo que no possam ser postos de imediato 
em uso na vida, a fortalecer o clamor pelas modificaes, em nossa civilizao, atravs das quais, unicamente, podemos procurar o bem-estar das geraes futuras.
         Desejaria, portanto, deix-los ir com a segurana de que, ao tratarem seus pacientes psicanaliticamente, estaro cumprindo com o seu dever em mais de um 
sentido. Os senhores no estaro trabalhando, apenas, a servio da cincia, ao fazer uso de uma nica oportunidade, para descobrir os segredos da neuroses; estaro, 
no apenas, dando aos seus pacientes o remdio mais eficaz para os seus sofrimentos, de que dispem hoje em dia; estaro contribuindo, com a sua parcela, para o 
esclarecimento da comunidade, atravs do qual esperamos alcanar a profilaxia mais radical, contra as perturbaes neurticas, ao longo do caminho indireto da autoridade 
social.
         
         
         
         






A SIGNIFICAO ANTITTICA DAS PALAVRAS PRIMITIVAS (1910)
         
         BER DEN GEGENSINN DER URWORTE
         
         (a)   EDIES EM ALEMO:
         1910   Jb. psychoana., psychopath. Forsch., 2, (1), 178-184.
         1913   S.K.S.N., 3, 280-287. (2.ed. 1921.)
         1924   G.S., 10, 221-228.
         1943   G.W., 8, 214-221.
         (b)   TRADUO INGLESA:
         "O Sentido Antittico de Palavras Primitivas"
         1925   C.P., 4, 184-191. (Trad. de M. N. Searl.)
         A presente traduo inglesa com um ttulo modificado, "A Significao Antittica de Palavras Primitivas",  uma nova traduo de Alan Tyson.
         Conta-nos Ernest Jones (1955, 347) que Freud tomou conhecimento do panfleto de Abel no outono de 1909. Experimentou uma satisfao particular com a descoberta, 
como se v das muitas referncias que a ela fez em seus escritos. Em 1911, por exemplo, acrescentou uma nota de rodap a respeito dela, em The Interpretation of 
Dreams (A Interpretao de Sonhos) (1900a), ver em [1], e a resume com certa extenso, em duas passagens de suas Introductory Lectures (Conferncias Introdutrias) 
(1916-17), nas Conferncias XI e XV. O leitor deve ter em mente o fato de que o panfleto de Abel foi publicado em 1884 e no seria surpresa se algumas de suas descobertas 
no fossem aceitas por fillogos ulteriores. Isso  principalmente verdade para seus comentrios egiptolgicos, que foram feitos antes que Erman tivesse colocado 
a filologia egpcia, pela primeira vez, em base cientfica. As citaes de Abel que aqui se fazem foram traduzidas sem qualquer modificao da ortografia de seus 
exemplos.
         
         A SIGNIFICAO ANTITTICA DAS PALAVRAS PRIMITIVAS 
         
         EM MINHA The Interpretation of Dreams (A Interpretao de Sonhos) fiz uma afirmao acerca de uma das descobertas de meu trabalho analtico, que eu, naquela 
poca, no entendi. Repito-a aqui  guisa de prefcio a esta crtica:
         `O modo pelo qual os sonhos tratam a categoria de contrrios e contradies  bastante singular. Eles simplesmente a ignoram. O "no" parece no existir, 
no que se refere aos sonhos. Eles mostram uma preferncia particular para combinar os contrrios numa unidade ou para represent-los como uma e mesma coisa. Os sonhos 
tomam, alm disso, a liberdade de representar qualquer elemento, por seu contrrio de desejo; no h, assim, maneira de decidir, num primeiro relance, se determinado 
elemento que se apresenta por seu contrrio est presente nos pensamentos do sonho como positivo ou negativo.'
         Os intrpretes de sonhos da antiguidade parecem ter feito uso mais extenso da noo de que uma coisa num sonho pode significar seu oposto. Esta possibilidade 
tambm tem sido de vez em quando reconhecida pelos modernos estudiosos de sonhos, na medida em que admitem que os sonhos tm uma significao e podem ser interpretados. 
No acho que serei contraditado ao pressupor que todos aqueles que me acompanharam no interpretar sonhos em bases cientficas tenham encontrado uma confirmao da 
assertiva acima citada.
         Eu no conseguia entender a tendncia singular do trabalho do sonho para desconhecer a negao e empregar os mesmos meios de representao para expressar 
os contrrios at que me aconteceu, por acaso, ler um trabalho do fillogo Karl Abel, publicado em 1884, em panfleto separado e, no ano seguinte, includo nos Sprachwissenschaftlic
he Abhbandlungen [Ensaios Filolgicos] do autor. O assunto  de interesse suficiente para justificar que eu cite aqui o texto completo das passagens cruciais do 
artigo de Abel (omitida, no entanto, a maioria dos exemplos). Delas obtemos a informao surpreendente que o comportamento do trabalho do sonho que acabei de descrever 
 idntico a uma peculiaridade das lnguas mais antigas que conhecemos.
         
         Depois de acentuar a antiguidade da lngua egpcia que deve ter-se desenvolvido muito tempo antes das primeiras inscries hieroglficas, Abel continua 
(1884,4):
         `Atualmente na lngua egpcia, esta relquia nica de um mundo primitivo, h um bom nmero de palavras com duas significaes, uma das quais  o oposto 
exato da outra. Suponhamos, se  que se pode imaginar um exemplo to evidente de absurdo, que em alemo a palavra "forte" signifique ao mesmo tempo "forte" e "fraco"; 
que em Berlim o substantivo "luz" se use para significar ao mesmo tempo "luz" e "escurido"; que um cidado de Munique chame cerveja de "cerveja", enquanto outro 
use a mesma palavra para falar de gua: nisto  que importaria o surpreendente costume usado regularmente pelos antigos egpcios em sua linguagem. Como incriminar-se 
algum que, incrdulo, abane a cabea?...' (Omitem-se os exemplos.)
         (Ibid., 7): `Em vista destes e de muitos casos similares de significao antittica (veja-se o Apndice) est fora de dvida que numa lngua, pelo menos, 
havia um grande nmero de palavras que designavam, ao mesmo tempo, uma coisa e seu oposto. Por surpreendente que seja, estamos diante do fato e temos de reconhec-lo.'
         O autor prossegue, rejeitando uma explicao destas circunstncias que sugere podem acontecer, por acaso, que duas palavras tenham o mesmo som, e repudiando, 
com igual firmeza, a tentativa de referi-la ao baixo nvel de desenvolvimento mental do Egito:
         (Ibid., 9): `Mas o Egito no tinha nada de terra do absurdo. Pelo contrrio, foi um dos beros do desenvolvimento da razo humana... Ele reconheceu uma 
moral pura e digna e formulou uma grande parte dos Dez Mandamentos numa poca em que os povos em cujas mos a civilizao hoje repousa tinham o hbito de imolar 
vtimas humanas em sacrifcio a dolos sedentos de sangue. Um povo que acendeu a tocha da justia e da cultura numa era to sombria no pode por certo ter sido completamente 
estpido na linguagem e no pensamento de cada dia ... Homens que foram capazes de fazer o vidro e erguer e movimentar, por mquinas, blocos imensos devem, pelo menos, 
ter possudo senso suficiente para no considerar uma coisa como sendo simultaneamente ela e seu oposto. Como iremos ento conciliar isso com o fato de que os egpcios 
se permitiam uma linguagem to estranhamente contraditria?... que eles usassem dar um e mesmo veculo fontico aos pensamentos mais reciprocamente desavindos, e 
usassem ligar numa espcie de unio indissolvel coisas que estavam na mais forte oposio uma com a outra?
         Antes de tentar qualquer explicao, deve-se tambm mencionar um estgio ulterior desse comportamento ininteligvel da lngua egpcia. `De todas as excentricidades 
do vocabulrio egpcio, talvez a caracterstica mais extraordinria seja que, excetuando inteiramente as palavras que aliam significaes antitticas, ele possui 
outras palavras compostas em que dois vocbulos de significaes antitticas se unem de modo a formar um composto que tem a significao de um apenas de seus dois 
componentes. Assim, nesta extraordinria lngua h no s palavras significando igualmente "forte" ou "fraco", e "comandar" ou "obedecer"; mas h tambm compostos 
com "velho-jovem", "longe-perto", "ligar-cortar", "fora-dentro"... que, apesar de combinarem os extremos de diferena, significam somente "jovem", "perto", "ligar" 
e "dentro" respectivamente... Desse modo, nessas palavras compostas, conceitos contraditrios se combinaram de modo inteiramente intencional, no de maneira a produzirem 
um terceiro conceito, como s vezes acontece no chins, mas apenas de modo a usar o composto para exprimir a significao de uma de suas partes contraditrias - 
uma parte que teria tido a mesma significao s por si...'
         O enigma , no entanto, mais fcil de solucionar do que parece. Nossos conceitos devem sua existncia a comparaes. `Se sempre houvesse luz, no seramos 
capazes de distinguir a luz da escurido, e conseqentemente no seramos capazes de ter nem o conceito de luz nem a palavra para ele...' ` claro que tudo neste 
planeta  relativo e tem uma existncia independente apenas na medida em que se diferencia quanto a suas relaes com as outras coisas...' `De vez que todo conceito 
 dessa maneira o gmeo de seu contrrio, como poderia ele ser de incio pensado e como poderia ele ser comunicado a outras pessoas que tentavam conceb-lo, seno 
pela medida do seu contrrio...? (Ibid., 15): `De vez que o conceito de fora no se podia formar exceto com um contrrio de fraqueza, a palavra designando "forte" 
continha uma lembrana simultnea de "fraco", como coisa por meio da qual ele, de incio, ganhou existncia. Na realidade, esta palavra no designava nem "forte" 
nem "fraco", mas a relao e a diferena entre os dois, que criou a ambos igualmente...' `O homem no foi, de fato, capaz de adquirir seus conceitos mais antigos 
e mais simples a no ser como os contrrios dos contrrios, e s gradativamente aprendeu a separar os dois lados de uma anttese e a pensar em um deles sem a comparao 
consciente com os outros.
         De vez que a linguagem serve no s para expressar os prprios pensamentos, mas, essencialmente, para comunic-los a outrem, pode-se levantar a questo 
de como foi que o `egpcio primitivo' fez seu prximo entender `que plo do conceito geminado ele significava numa ocasio particular qualquer.' Na linguagem escrita, 
isso se fazia com o auxlio dos chamados sinais "determinativos" que, colocados depois dos sinais alfabticos, lhes atribuam sua significao e no eram para ser 
pronunciados. (Ibid., 18): `Se a palavra egpcia "ken" devia significar "forte", seu som, que fosse alfabeticamente escrito, seguia-se da figura de um homem em p, 
armado; se a mesma palavra tinha de expressar "fraco", as letras que representavam o som se seguiam de figura de um corcunda, coxo. A maioria das outras palavras 
com duas significaes similarmente e acompanhavam de figuras explicativas.' Abel acha que, no falar, a significao desejada da palavra dita se indicava pelo gesto.
         Segundo Abel,  nas `razes mais antigas' que se v ocorrerem as significaes duplas antitticas. No curso subseqente do desenvolvimento da linguagem, 
esta ambigidade desapareceu e, no Antigo Egito, pelo menos, todos os estgios intermedirios se podem acompanhar, at a no-ambigidade dos vocabulrios modernos. 
`Uma palavra que originariamente comportava duas significaes separa-se, na linguagem ulterior, em duas palavras com significaes individuais, num processo pelo 
qual cada uma das duas significaes opostas sofre uma "reduo" (modificao) fontica particular da raiz original.' Assim, por exemplo, nos hierglifos, a palavra 
"ken", "forte-fraco", j se divide em "ken, "forte" e "kan", "fraco". Em outras palavras, conceitos a que s se poderia chegar por meio de uma anttese tornaram-se, 
no curso do tempo, suficientemente familiares s mentes dos homens, possibilitando uma existncia independente, para cada uma de suas duas partes, e, em conseqncia, 
permitindo a formao de um representante fontico separado para cada parte.'
         Uma prova da existncia de significaes primitivas contraditrias, que facilmente se estabelece em egpcio, estende-se segundo Abel, tambm s lnguas 
semita e indo-europia. `At que ponto isto pode acontecer em outros grupos lingsticos est por ver; pois, embora a anttese deva ter estado presente, de incio, 
nas mentes pensantes de cada raa, no precisou necessariamente ter-se tornado reconhecvel ou ter sido mantida por toda parte nas significaes de palavras.'
         Abel em seguida chama a ateno para o fato de que o filsofo Bain, aparentemente sem conhecimento de que o fenmeno de fato existia, sustentou essa dupla 
significao de palavras sobre fundamentos puramente tericos, como uma necessidade lgica. A passagem em questo comea com estas frases:
         `A relatividade essencial de todo conhecimento, pensamento ou conscincia, no se pode mostrar a no ser na linguagem. Se tudo que podemos conhecer  visto 
como transio de alguma outra coisa, toda experincia deve ter dois lados; e, ou cada nome deve ter uma significao dupla, ou,ento, para cada significao deve 
haver dois nomes.'
         Do `Apndice de Exemplos de Significaes Antitticas Egpcias, Indo-Germnicas e rabes' selecionei alguns exemplos que podem impressionar mesmo aqueles 
de ns que no somos especialistas em filologia. Em latim `altus' significa `alto' e `profundo', `sacer' `sagrado' e `maldito'; aqui por conseguinte temos a anttese 
completa de significao sem qualquer modificao do som da palavra. A alterao fontica para distinguir os contrrios se ilustra por exemplos como `clamare' (`gritar') 
... `clam' (`suavemente', `secretamente'); `siccus' (`seco') - `succus' (`suco'). Em alemo `Boden' (`sto' ou `solo') ainda significa o mais alto bem como o mais 
baixo da casa. Nosso `bs' (`mau' em alemo) se casa com a palavra `bass' (`melhor' em alemo); em saxo antigo `bat' (`bom') corresponde ao ingls `bad' (`mau') 
e o ingls `to lock' (`fechar') ao alemo `Lcke', `Loch' (`vazio', `buraco'). Podemos comparar o alemo `kleben' (`espetar') com o ingls `to cleave' (no sentido 
de `cindir'); as palavras alems `stumm' (`mudo') com `Stimme' (`voz'), e assim por diante. Desse modo, mesmo a derivao etimolgica bastante risvel de lucus a 
non lucendo teria em si algum sentido.
         Em seu ensaio sobre `A Origem da Linguagem' Abel (1885, 305) chama a ateno para traos outros de antigas dificuldades do pensar. Mesmo hoje o homem ingls 
para exprimir `ohne' (`sem' em alemo) diz `without' (`mitohne isto  "com-sem" em alemo) e o prussiano oriental faz o mesmo. A prpria palavra `with' (`com' em 
ingls), que hoje corresponde ao `mit' (`com' em alemo) originariamente significava `without' (`sem' em ingls) e ao mesmo tempo `with' como se pode reconhecer 
em `withdraw' (`retirar' em ingls) e `withhold (`reter' em ingls). A mesma transformao pode ser vista em `wider' (`contra' em alemo) e `wieder' (`junto com' 
em alemo).
         Para uma comparao com o trabalho do sonho h outra caracterstica extremamente estranha da antiga lngua egpcia que  significativa. `Em egpcios, as 
palavras podem - diremos de incio, aparentemente - inverter seu som bem como seu sentido. Suponhamos que a palavra alem `gut' ["bom"] fosse egpcia: ela poderia 
ento significar `mau' do mesmo modo que `bom', e ser pronunciada `tug' do mesmo modo que `gut'. Numerosos exemplos de tais inverses de som, que so demasiado freqentes 
para se explicarem como ocorrncias fortuitas, se podem igualmente extrair das lnguas ariana e semita. Limitando-nos a princpio s lnguas germnicas podemos assinalar: 
Topf - pot (`pote' em alemo e `pote' em ingls); boat - tub (`barco' em ingls e `banheira' em ingls); wait - tuwen (`esperar' em ingls e `esperar' em alemo); 
hurry - Ruhe (`pressa' em ingls e `descanso' em alemo); care - reck ('cuidar' em ingls e `importar-se' em ingls); Balken - klobe, club (`viga' em alemo e `cepo' 
em alemo e `cepo' em ingls). Se tomamos as outras lnguas indo-germnicas em considerao, o nmero de exemplos relevantes cresce em conseqncia; por exemplo, 
capere - packen (`tomar' em latim e `agarrar' em alemo); ren - Niere (`rim' em latim e `rim' em alemo); leaf - folium (`folha' em ingls e `folha' em latim); dum-a, 
????? - mdh, mdha, Mut (`pensamento' em russo, `esprito' ou `coragem em grego e `mente' em snscrito, `coragem' em alemo); rauchen - kur-t (`fumar' em alemo 
e `fumar em russo); kreischen - to shriek (`gritar` em alemo e `gritar' em ingls) etc.
         Abel tenta explicar o fenmeno de inverso de som como um dobrar ou uma repudiao da raiz. Aqui encontraramos certa dificuldade em seguir o fillogo. 
Relembramos nesta conexo o quanto as crianas gostam de brincar de inverter o som de palavras e quo freqentemente o trabalho do sonho faz uso da inverso do material 
representativo para vrias finalidades. (Aqui no so mais as letras mas as imagens cuja ordem se inverte.) Deveramos, portanto, nos inclinar mais a fazer provir 
a inverso de som de um fator de origem mais profunda.
         Na correspondncia entre a peculiaridade do trabalho do sonho mencionado no incio do artigo e a prtica descoberta pela filologia nas lnguas mais antigas, 
devemos ver uma confirmao do ponto de vista que formamos acerca do carter regressivo, arcaico da expresso de pensamentos em sonhos. E ns, psiquiatras, no podemos 
escapar  suspeita de que melhor entenderamos e traduziramos a lngua dos sonhos se soubssemos mais sobre o desenvolvimento da linguagem.
         
         
         
         








UM TIPO ESPECIAL DE ESCOLHA DE OBJETO FEITA PELOS HOMENS (CONTRIBUIES  PSICOLOGIA DO AMOR I) (1910)
         
         
         BEITRGE ZUR PSICHOLOGIE DES LIEBESLEBENS I
         BER EINEN BESONDEREN TIPUS DER OBJEKTWAHL BEIM MANNE
         
         (a)   EDIES ALEMS:
         1910   Jb. psychoan. psychopath. Forsch., 2 (2), 389-97. (`Beitrge zur Psychologie des Liebeslebens' 1.)
         1918   S.K.S.N., 4, 200-12 (2 ed. 1922.)
         1924   G.S., 5, 186-978.
         1924   Em Beitrge zur Psychologie des Liebeslebens, Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. (Pp. 3-14.)
         1931   Sexualtheorie und Traumlehre, 69-80.
         1943   G.W., 8, 66-77.
         (b)   TRADUO INGLESA:
         `Contributions to the Psychology of Love:A Special Type of Choice of Object made by Men'
         1925   C.P., 4, 192-202. (Tr. Joan Riviere.)
         
         
         A presente traduo inglesa  uma nova feita por Alan Tyson.
         Este trabalho, os dois seguintes, embora tenham sido escritos e publicados durante o perodo de alguns anos, foram reunidos, por Freud, na quarta srie 
de seus ensaios maus curtos (S.K.S.N., 4, 1918) sob o ttulo geral acima impresso. Soubemos, atravs de Ernest Jones (1955, 333), que Freud anunciara sua inteno 
de escrever um trabalho desta natureza para uma reunio da Sociedade Psicanaltica de Viena, em 28 de novembro de 1906. A essncia deste trabalho foi apresentada 
perante a mesma sociedade em 19 de maio de 1909 e comentada uma semana depois. Mas no foi escrita, realmente, seno no comeo do vero do ano seguinte.
         
         NOTA DO EDITOR BRASILEIRO
         
         A presente traduo brasileira  da autoria de Clotilde da Silva Costa. Reviso geral e tcnica de Jayme Salomo (Membro-Associado da Sociedade Brasileira 
de Psicanlise do Rio de Janeiro).
         
         UM TIPO ESPECIAL DE ESCOLHA DE OBJETO FEITA PELOS HOMENS (CONTRIBUIES  PSICOLOGIA DO AMOR 1)
         
         AT AQUI deixamos ao escritor de fico descrever-nos as condies necessrias ao amor' que determinam a escolha de um objeto feita pelas pessoas e a maneira 
pela qual elas conduzem as exigncias de sua imaginao em harmonia com a realidade. O escritor pode, realmente, valer-se de certas qualidades que o habilitam a 
realizar essa tarefa: sobretudo, de sensibilidade que lhe permite perceber os impulsos ocultos nas mentes de outras pessoas e de coragem para deixar que a sua prpria, 
inconsciente, se manifeste. H, entretanto, uma circunstncia que diminui o valor comprobatrio do que ele tem a dizer. Os escritos esto submetidos  necessidade 
de criar prazer intelectual e esttico, bem como certos efeitos emocionais. Por essa razo, eles no podem reproduzir a essncia da realidade tal como , se no 
que devem isolar partes da mesma, suprimir associaes perturbadoras, reduzir o todo e completar o que falta. Esses so os privilgios do que se convencionou chamar 
`licena potica'. Alm disso, eles podem demonstrar apenas ligeiro interesse pela origem e pelo desenvolvimento dos estados psquicos que descrevem em sua forma 
completa. Torna-se, pois, inevitvel que a cincia deva, tambm, se preocupar com as mesmas matrias, cujo tratamento, pelos artistas, h milhares de anos, vem deleitando 
tanto a humanidade, muito embora seu trato seja mais tosco e proporcione menos prazer. Essas observaes, esperamos, serviro para nos justificar, de modo amplo, 
o tratamento estritamente cientfico que damos ao campo do amor humano. A cincia, , afinal, a renncia mais completa ao princpio de prazer de que  capaz nossa 
atividade mental.
         No curso do tratamento psicanaltico, h amplas oportunidades para colher impresses sobre a maneira como os neurticos se comportam em relao ao amor; 
conquanto possamos evocar, ao mesmo tempo, tendo observado ou ouvido falar de comportamento semelhante em pessoas de sade normal ou mesmo naquelas de qualidades 
excepcionais. Quando acontece que o material  favorvel e conduz, assim,  acumulao dessas impresses, surgem mais claramente tipos definidos. Comearei aqui 
pela descrio de um desses tipos de escolha de objeto - que ocorre no homem - j que se caracteriza por uma srie de `condies necessrias ao amor', cuja combinao 
 ininteligvel, e at desconcertante, e visto que admite uma explicao simples de contexto psicanaltico.
         
         (1) A primeira dessas precondies para o amor pode ser descrita como positivamente especfica: onde quer que ela se manifeste, pode-se procurar a presena 
de outras caractersticas desse tipo. Pode-se design-la a precondio de que deva existir `uma terceira pessoa prejudicada'; estipula que a pessoa em questo nunca 
escolher uma mulher sem compromisso, como seu objeto amoroso - isto  uma moa solteira ou uma mulher casada livre - mas, apenas, aquela sobre a qual outro homem 
possa reivindicar direitos de posse, como marido, noivo ou amigo. Em alguns casos, essa precondio evidencia-se de modo to convincente que a mulher pode ser ignorada 
ou mesmo rejeitada, desde que no pertena a qualquer homem, mas torna-se objeto de sentimentos apaixonados, to logo estabelea um desses relacionamentos com outro 
homem.
         (2) A segunda precondio  talvez menos freqente, mas no menos digna de nota. Deve-se encontrar em conjuno com a primeira para que o tipo se configure, 
enquanto a primeira precondio parece ocorrer muito amide, tambm, independentemente. Consiste a segunda precondio no sentido de que a mulher casta e de reputao 
irrepreensvel nunca exerce atrao que a possa levar  condio de objeto amoroso, mas apenas a mulher que , de uma ou outra forma, sexualmente de m reputao, 
cuja fidelidade e integridade esto expostas a alguma dvida. Esta ltima caracterstica pode variar dentro de limites substanciais, do leve murmrio de escndalo 
a respeito de uma mulher casada que no seja avessa a namoricos, at o modo de vida francamente promscuo de uma cocotte ou uma profissional na arte do amor; mas 
os homens que pertencem ao tipo que descrevemos no ficaro satisfeitos sem algo desta espcie. Pode-se designar esta a segunda condio necessria, de maneira um 
tanto crua, `amor  prostituta.'
         Enquanto a primeira precondio fornece a oportunidade para gratificar impulsos de rivalidade e hostilidade em direo ao homem de quem a mulher  arrebatada, 
a segunda, a da mulher se assemelhar a uma prostituta, se relaciona  experincia do cime, que parece ser uma necessidade para os amantes desse tipo. Sua paixo 
s atinge o apogeu e a mulher s adquire pleno valor quando, apenas, conseguem sentir cimes e eles nunca deixam de aproveitar a ocasio que lhes permita experimentar 
essas emoes to poderosas. O incomum  que se torna alvo desse cime no o possuidor legtimo da pessoa amada, mas estranhos que fazem seu aparecimento pela primeira 
vez, em relao aos quais a amada pode ser induzida sob suspeita. Em casos evidentes, o amante no demonstra qualquer desejo de posse exclusiva da mulher e parece 
sentir-se perfeitamente  vontade na situao triangular. Um de meus pacientes, que sofrera terrivelmente com as escapadelas de sua amada, no fazia qualquer objeo 
a que ela se casasse e fez todo o possvel para que tal acontecesse; e nos anos que se seguiram nunca demonstrou o menor sinal de cime do marido. Outro paciente 
tpico havia tido,  verdade, muito cime do marido no seu primeiro caso amoroso e proibira a mulher de ter relaes maritais; porm, nos seus numerosos casos subseqentes 
comportou-se como os demais integrantes desse tipo e j no mais considerava o marido legtimo como um entrave.
          o suficiente para as condies que se exigem do objeto amoroso. Os seguintes pontos descrevem o comportamento do amante em relao ao objeto que escolheu.
         (3) No amor normal, o valor da mulher  aferido por sua integridade sexual, e  reduzido em vista de qualquer aproximao com a caracterstica de ser semelhante 
a prostituta. Por conseguinte, o fato de que as mulheres com essa caracterstica sejam consideradas pelos homens do tipo em questo como objetos amorosos do mais 
alto valor parece constituir acentuvel desvio do normal. Seus relacionamentos amorosos com essas mulheres exigem-lhes enorme dispndio de energia mental, com excluso 
de todos os demais interesses; elas so sentidas como as nicas pessoas a quem  possvel amar, e a exigncia de fidelidade que o amante faz a si prprio repete-se, 
sempre e sempre, no obstante quantas vezes, na realidade, seja transgredida. Essas caractersticas de relacionamentos amorosos, que ora descrevo, revelam, muito 
claramente, sua natureza compulsiva, conquanto seja algo que, at certo ponto, ocorra a qualquer pessoa que se apaixone. Mas a fidelidade e a intensidade que caracterizam 
a relao no nos devem levar a esperar que um nico relacionamento amoroso dessa espcie possa constituir toda a vida ertica da pessoa em questo, ou ocorrer, 
apenas, uma vez na vida. Ao contrrio, os relacionamentos apaixonados desse tipo repetem-se com as mesmas peculiaridades - cada qual uma rplica exata dos outros 
- sempre e sempre, nas vidas do homem desse tipo; de fato, devido a ocorrncias externas, como mudana de residncia e de ambiente, os objetos amorosos podem substituir 
uns aos outros, to amide, que se forma uma extensa srie dos mesmos.
         
         (4) O que  mais espantoso, para o observador de amantes desse tipo,  a nsia que demonstram de `salvar' a mulher amada. O homem se convence de que ela 
precisa dele, que sem ele perder todo o controle moral e, rapidamente descer para um nvel lamentvel. Salva-a, portanto, por no a abandonar. Em certos casos 
individuais, a idia de ter de salv-la pode ser justificadas por aluso  sua inconstncia sexual e aos perigos de sua posio social: mas no  menos evidente 
quando isto, na realidade, no possui base. Um homem do tipo que estou descrevendo, que sabia como conquistar suas mulheres, com mtodos inteligentes de seduo 
e argumentos engenhosos, no media esforos, no decorrer dessas aventuras, para manter a mulher, pela qual estava apaixonado no momento, no caminho da `virtude', 
emprestando-lhe traos de sua prpria constituio.
         Se examinarmos as diferentes caractersticas do quadro aqui apresentado - as condies que se impem ao homem, de que sua amada no deve ser desimpedida 
e deve ser semelhante a prostituta, o alto valor que lhe atribui, sua necessidade de sentir cimes, sua fidelidade que, no obstante,  compatvel em ser transgredida, 
em uma longa srie de circunstncias, e a nsia de salvar a mulher - parecer pouco provvel que todas decorram de uma nica fonte. No entanto, a investigao psicanaltica 
da biografia de homens deste tipo tem revelado, facilmente, que no h uma fonte nica. A escolha de objeto, que  to estranhamente condicionada, e esta maneira 
extremamente singular de se comportar no amor, tem a mesma origem psquica que encontramos nos amores das pessoas normais. Derivam da fixao infantil de seus sentimentos 
de ternura pela me e representam uma das conseqncias dessa fixao. No amor normal, apenas sobrevivem algumas caractersticas que revelam, de maneira inconfundvel, 
o prottipo materno da escolha de objeto, como, por exemplo, a preferncia demonstrada pelos homens jovens por mulheres mais maduras; o destacamento da libido da 
me efetuou-se de maneira relativamente rpida. No tipo que descrevemos, por outro lado, a libido permaneceu ligada  me por tanto tempo, mesmo depois do incio 
da puberdade, que as caractersticas maternas permanecem impressas nos objetos amorosos que so escolhidos mais tarde, e todas elas se transformam em substitutos 
facilmente reconhecveis da me. A comparao com a maneira em que  formado o crnio de um recm-nascido vem logo  mente neste ponto: depois de um parto prolongado 
ele toma sempre a forma do molde da parte estreita da pelve materna.
         Vamos agora demonstrar a plausibilidade de nossa afirmao de que os traos caractersticos do tipo que descrevemos - suas condies para amar e seu comportamento 
no amor - realmente decorrem da constelao psquica relacionada  me. Isto pareceria ser mais fcil no que diz respeito  primeira precondio - a condio de 
que a mulher deve ser desimpedida, ou de que haja uma terceira pessoa injuriada. , de imediato, evidente que, para a criana que est crescendo no crculo familiar, 
o fato de que a me, ao pertencer ao pai, torna-se parte inseparvel da essncia da me, e que a terceira pessoa injuriada no  outra seno o prprio pai. Pode-se 
observar a caracterstica de supervalorizar a pessoa amada, e de consider-la como nica e insubstituvel, por recair, tambm, naturalmente no contexto da experincia 
da criana, pois ningum possui mais de uma me, e a relao com ela baseia-se em um acontecimento que no pode ser exposto a qualquer dvida e nem pode ser repetido.
         Se quisermos entender os objetos amorosos escolhidos pelo tipo que descrevemos como sendo, sobretudo, substitutos da me, ento a formao de uma srie 
deles, que parece contradizer to positivamente a condio de ser fiel a um, pode tambm, agora, ser compreendida. Aprendemos pela psicanlise, em outros exemplos, 
que a noo de algo insubstituvel, quando  ativa no inconsciente, muitas vezes surge como subdividida em uma srie infindvel: infindvel pelo fato de que cada 
substituto, no obstante, deixa de proporcionar a satisfao desejada.  esta a explicao do desejo insacivel de fazer perguntas, demonstrado pelas crianas de 
certa idade: tm apenas uma simples pergunta a fazer, mas nunca chegam a formul-la. Explica tambm a garrulice de certas pessoas atingidas pela neurose; vem-se 
sob a presso de um segredo que esto ansiosos por divulgar, mas que, apesar de todas as tentaes, nunca revelam.
         Por outro lado, a segunda precondio para amar - a condio de que o objeto escolhido deva se assemelhar a uma prostituta - parece se opor, energicamente, 
 derivao do complexo materno. O pensamento consciente do adulto apraz-se em considerar a me como uma pessoa de pureza moral inatacvel; e poucas idias so para 
ele to ofensivas, quando partem de outros, ou sente como to atormentadoras, quando surgem de sua prpria mente, como a que proclama esse aspecto de sua me. No 
entanto, exatamente essa relao do contraste agudo entre a `me' e a `prostituta' nos animar a investigar a histria do desenvolvimento desses dois complexos e 
da relao inconsciente entre os mesmos, j que, h muito tempo, descobrimos que o que, no consciente, se encontra dividido entre dois opostos, muitas vezes ocorre 
no inconsciente como uma unidade. A investigao leva-nos, ento, de volta a uma poca na vida do menino em que ele adquire conhecimento mais ou menos completo das 
relaes sexuais entre os adultos, aproximadamente em torno dos anos da pr-puberdade. Partes brutais de informao que so indiscriminadamente destinadas a suscitar 
desprezo e rebeldia, agora, lhe comunicam o segredo da vida sexual e destroem a autoridade dos adultos, que parece incompatvel com a revelao de suas atividades 
sexuais. O aspecto dessas descobertas, que afetam mais profundamente a criana recm-instruda,  a maneira em que so aplicadas a seus prprios pais. Essa aplicao 
, muitas vezes, francamente rejeitada por ela, mais ou menos nestas palavras: `Seus pais e outras pessoas podem fazer coisas como esta entre si, mas meus pais, 
possivelmente, no podem faz-las.'
         Como um corolrio praticamente invarivel desse esclarecimento sexual, o menino adquire, ao mesmo tempo, o conhecimento da existncia de certas mulheres 
que praticam relaes sexuais como um meio de vida e, que, por esse motivo, so mantidas no desprezo geral. O menino, ele prprio, se encontra, evidentemente, longe 
de sentir esse desprezo: to logo aprende que ele tambm pode ser iniciado por essas infelizes na vida sexual, que at ento ele aceitava como estando exclusivamente 
reservadas para `a gente grande', ele, apenas, as considera como um misto de desejo e horror. Quando, depois disto, j no pode mais nutrir qualquer dvida que tornem 
seus pais uma exceo s normas universais e odiosas da atividade sexual, diz-se a si prprio, com lgica cnica, que a diferena entre sua me e uma prostituta 
no  afinal to grande, visto que, em essncia, fazem a mesma coisa. A informao esclarecedora que recebeu, despertou, de fato, traos de lembrana das impresses 
e desejos de sua tenra infncia que, por sua vez, levaram  reativao de certos impulsos psquicos. Ele comea a desejar a me para si mesmo, no sentido com o qual, 
h pouco, acabou de se inteirar, e a odiar, de nova forma, o pai como um rival que impede esse desejo; passa, como dizemos, ao controle do complexo de dipo. No 
perdoa a me por ter concedido o privilgio da relao sexual, no a ele, mas a seu pai, e considera o fato como um ato de infidelidade. Se esses impulsos no desaparecem 
rapidamente, no h outra sada para os mesmos, seno seguir seu curso atravs de fantasias que tm por tema as atividades sexuais da me, nas mais diversas circunstncias; 
e a tenso conseqente leva, de maneira particularmente rpida; a buscar alvio na masturbao. Como resultado da ao combinada, constante, de duas foras impulsivas, 
desejo e sede de vingana, as fantasias acerca da infidelidade da me so, de longe, as que prefere; o amante com o qual ela comete o ato de infidelidade, quase 
sempre exibe as feies do prprio ego do menino, ou, mais extamente, de sua prpria personalidade idealizada, adulta e, assim, elevada ao nvel do pai. O que, em 
outra parte descrevi como o `romance familiar' comprende as vrias ramificaes dessa atividade imaginativa e a maneira pela qual elas se entrelaam com os diversos 
interesses egostas desse perodo da vida.
         Agora que adquirimos a compreenso dessa parte do desenvolvimento psquico, j no podemos mais considerar contraditrio e incompreensvel que a precondio 
de que a pessoa amada se assemelhe a prostituta derive diretamente do complexo materno. O tipo de amor masculino que descrevemos tem os traos dessa evoluo e  
fcil de compreender como uma fixao das fantasias formadas pelo menino na puberdade - fantasias que, afinal, mais tarde, encontraram vazo na vida real. No  
difcil admitir que a prtica assdua da masturbao durante os anos da puberdade desempenhou seu papel na fixao das fantasias.
         A nsia de salvar a pessoa amada parece conduzir a uma relao, apenas, vaga e superficial, e plenamente explicada por motivos conscientes, com essas fantasias 
que acabaram por dominar o amor do homem na vida real. Devido a sua propenso a ser volvel e infiel, a pessoa amada se coloca em situaes perigosas e, assim,  
compreensvel que o amante tenha de se esforar para proteg-la contra esses perigos, vigiando-lhe a virtude e combatendo-lhe as tendncias ms. Entretanto, o estudo 
das lembranas encobridoras das pessoas, fantasias e sonhos noturnos, revela que deparamos, aqui, com uma `racionalizao' especialmente oportuna de um motivo inconsciente, 
um processo que pode ser comparado  elaborao secundria bem- sucedida de um sonho. No fato real, o `tema-salvamento' tem um significado e um histrico prprios, 
e  um derivativo independente do complexo materno ou, mais exatamente, do complexo parental. Quando a criana ouve dizer que deve sua vida aos pais, ou que sua 
me lhe deu a vida, seus sentimentos de ternura aliam-se a impulsos que lutam pelo poder e pela independncia, e geram o desejo de retribuir essa ddiva aos pais 
e de compens-los com outra de igual valor.  como se o desafio do menino o fizesse dizer: `No quero nada de meu pai; devolver-lhe-ei tudo quanto gastou comigo. 
Ele cria, ento a fantasia de salvar o pai de perigo e de proteger-lhe a vida; desse modo ajusta as contas com ele. Essa fantasia, via de regra,  muito deslocada 
em direo a um imperador, rei ou outro grande homem; depois de haver sido assim destorcida torna-se admissvel  conscincia, e pode at ser utilizada pelos escritores 
de fico. Nessa aplicao ao pai do menino, o sentido desafiador da idia de salvamento  de longe o mais importante; no que diz respeito  me, o mais importante 
, geralmente, o sentido da ternura. A me deu  criana a vida, e no  fcil encontrar um substituto de igual valor para essa ddiva sem par. Com uma ligeira modificao 
do significado, tal como  facilmente realizado no inconsciente, e  comparvel  maneira pelaqual os conceitos da conscincia se diluem uns nos outros, salvar a 
me adquire o significado de lhe dar uma criana ou de lhe fazer uma criana -  suprfluo dizer, uma igual a ele. Isso no se afasta muito do sentido original o 
salvamento, e a mudana de significado no  arbitrria. Sua me lhe deu a vida - sua prpria vida - e, em troca, ele lhe d uma outra vida, a de uma criana que 
tem com ele a maior semelhana. O filho demonstra sua gratido desejando ter, com sua me, um filho igual a ele prprio; em outras palavras, na fantasia de salvamento 
ele est se identificando completamente com o pai. Todos os seus instintos, os de ternura, gratido, lascvia, desafio e independncia encontram satisfao no desejo 
nico de ser o prprio pai. Mesmo o elemento de perigo no se perdeu na modificao de significado; pois o prprio ato do nascimento  o perigo de que foi salvo 
pelos esforos da me. O nascimento  tanto o primeiro de todos os perigos de sua vida, como o prottipo de todos os subseqentes que nos levam a sentir ansiedade, 
e a experinmcia do nascimennto, provavelmente, nos legou a expresso de afeto que chamamos de ansiedade. Macduff, da lenda escocesa, que no nasceu de sua me mas 
lhe foi arrancado do ventre, por esse motivo no conhecia a ansiedade.
         Artemidoro, o intrprete dos sonhos da antiguidade, estava certamente com razo ao afirmar que a significao de um sonho depende de quem venha a ser a 
pessoa que sonha. De acordo com as leis que regem a expresso dos pensamentos inconscientes, o significado de salvamento pode variar, dependendo de o autor da fantasia 
ser homem ou mulher. Pode igualmente significar (no caso de um homem) fazer uma criana, isto , causar seu nascimento, ou (no caso de uma mulher) dar  luz uma 
criana. Esses vrios significados do salvamento nos sonhos e fantasias podem ser reconhecidos de maneira especialmente clara, quando so encontrados em conexo 
com a gua. Um homem que salva uma mulher da gua, em um sonho, quer dizer que a torna me, o que, do ponto de vista do comentrio acima, equivale a fazer dela sua 
prpria me. Uma mulher que salva alguma outra pessoa (uma criana) da gua, reconhece ser a me que a gerou, como a filha do Fara na lenda de Moiss (Rank, 1909). 
s vezes, existe tambm um significado de ternura contido nas fantasias de salvamento em relao ao pai. Nestes casos, visam a expressar o desejo da pessoa de ter 
o pai como seu filho - isto , de ter um filho igual ao pai.
         
          devido a todas essas conexes entre o tema-salvamento e o complexo parental que a nsia de salvar a pessoa amada constitui uma caracterstica importante 
do tipo de amor que vimos estudando.
         No creio necessrio justificar meu mtodo de trabalho sobre este assunto; como na minha apresentao a respeito do erotismo anal [Freud 1908b], tambm 
aqui procurei, em primeiro lugar, destacar, do material observado, os tipos extremos e claramente definidos. Em ambos os casos, encontramos um nmero muito maior 
de indivduos nos quais apenas algumas caractersticas do tipo podem ser identificadas, ou apenas caractersticas que no so nitidamente acentuadas, e  evidente 
que no ser possvel avaliar adequadamente esses tipos enquanto todo o contexto a que pertencem no for investigado.
         
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       SOBRE A TENDNCIA UNIVERSAL  DEPRECIAO NA ESFERA DO AMOR
       (CONTRIBUIES  PSICOLOGIA DO AMOR II) (1912)
         
         
         BEITRGE ZUR PSYCHOLOGIE DES LIEBESLEBENS II
         BER DIE ALLGEMEINSTE ERNIEDRIGUNG
         DES LIEBESLEBENS
         
         
         (a)   EDIES ALEMS:
         1912   Jb. psychoan. psychopath. Forsch., 4 (1), 40-50 (`Beitrge zur Psychologie des Liebeslebens' II.)
         1918   S.K.S.N., 4, 213-28 (2 ed. 1922.)
         1924   G.S., 5, 198-211.
         1924   In Beitrge zur Psychologie des Liebeslebens. Leipzig, Viena e Zurique: International Psychoanalytischer Verlag. (Pgs. 15-28.)
         1931   Sexualtheorie und Traumlehre, 80-95.
         1943   G.W., 8, 78-91
          (b)   TRADUES INGLESAS:
         `Contribuitions to the Psychology of Love: The Most Prevalent Form of Degradation in Erotic Life'
         1925   C.P., 4, 203-16. (Trad. Joan Riviere.)
          A traduo inglesa atual, feita por Alan Tyson,  inteiramente nova e com um ttulo diferente `On the Universal Tendenty of Debasement in the Sphere of 
Love' (Sobre a Tendnia Universal  Depreciao na Esfera do Amor).
         A discusso das duas correntes sexuais na primeira parte deste trabalho , na realidade, um suplemento ao Three Essays on the Theory of Sexuality (1905d) 
(Trs Ensaios sobre a Teoria da sexualidade), edio de 1915, na qual est, de fato, includo um pequeno resumo desta (ver em [1]). A anlise da impotncia psquica 
que ocupa a parte central deste trabalho  a contribuio mais importante de Freud nesta matria. A ltima parte do trabalho  uma das suas longas sries de elaboraes 
no tema do antagonismo entre a civilizao e a vida instintiva, do qual mostra um outro exemplo em Five Lectures (Cinco Lies), ver em [2]. Seu argumento mais completo 
neste assunto pode ser encontrado no trabalho sobre `"Civilized" Sexual Ethics and Modern Nervous Illness' (1908d) (`tica Sexual "Civilizada" e Enfermidade Nervosa 
Moderna') e no livro escrito muito mais tarde, Civilization and its Discontents (1930a) (O Mal-Estar na Civilizao).
         
         
         
         NOTA DO EDITOR BRASILEIRO 
         
         A presente traduo brasileira  da autoria de Jayme Salomo (Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanlise do Rio de Janeiro).
         
         SOBRE A TENDNCIA UNIVERSAL  DEPRECIAO NA ESFERA DO AMOR
         (CONTRIBUIES  PSICOLOGIA DO AMOR II)
         
         
         1
         Se o psicanalista clnico indagar a si mesmo qual perturbao leva as pessoas com maior freqncia a o procurarem em busca de auxlio, ele ser compelido 
a responder - deixando de lado as diversas formas de ansiedade - que consiste na impotncia psquica. Esta singular perturbao atinge homens de natureza intensamente 
libidinosa e se manifesta como uma recusa dos rgos executores da sexualidade de levar a cabo o ato sexual, conquanto antes e depois eles possam demonstrar-se como 
ntegros e capazes de pratic-lo e conquanto apresentem forte propenso psquica a realiz-lo. A primeira chave para a compreenso do seu estado se obtm do prprio 
paciente, ao efetuar-se a descoberta de que um malogro dessa espcie s surge quando a tentativa se realiza com determinadas pessoas, enquanto com outras nunca h 
qualquer cogitao de tal insucesso. Ele se d conta, ento, de que constitui alguma caracterstica do objeto sexual que d origem  inibio de sua potncia masculina 
e, s vezes, declara que possui a sensao de um obstculo dentro dele, a sensao de uma vontade contrria que interfere vitoriosamente com a sua inteno consciente. 
No entanto,  incapaz de se representar que obstculo interno  esse e que caracterstica do objeto sexual o pe em funcionamento. Se a experincia do malogro se 
repetiu,  provvel que atribua ao processo habitual de `conexo errnea,' de que a recordao da primeira ocasio evocava a idia de ansiedade perturbadora, e assim 
motivava que o malogro se repetisse todas as vezes; conquanto atribua a primeira ocasio em si a alguma impresso `fortuita'.
         Os estudos psicanalticos da impotncia j foram realizados e publicados por vrios autores. Todo analista pode confirmar as explicaes por eles fornecidas, 
atravs de sua prpria experincia clnica. Trata-se, de fato, de uma questo da influncia inibitria de certos complexos psquicos que so removidos do conhecimento 
do indivduo. Uma fixao incestuosa na me ou na irm, que nunca foi superada, desempenha um papel importante nesse material patognico e constitui o seu contedo 
mais universal. Alm disso, existe a influncia, a se considerar, das impresses penosas acidentais relacionadas  atividade sexual infantil, e tambm aqueles fatores 
que, de maneira geral, reduzem a libido que se deve dirigir ao objeto sexual feminino.
         Quando se investigam, exaustivamente, casos marcantes de impotncia psquica pela psicanlise, obtm-se a seguinte informao sobre os processos psicossexuais 
ativos nos mesmos. Aqui de novo - como muito provavelmente em todas as perturbaes neurticas - a origem da perturbao  determinada por uma inibio na histria 
do desenvolvimento da libido antes que esta assuma a forma que tomamos como sua terminao normal. Nos casos que estamos considerando, duas correntes cuja unio 
 necessria para assegurar um comportamento amoroso completamente normal, falharam em se combinar. Podem-se distinguir as duas como a corrente afetiva e a corrente 
sensual.
         A corrente afetiva  a mais antiga das duas. Contitui-se nos primeiros anos da infncia; forma-se na base dos interesses do instinto de autopreservao 
e se dirige aos membros da famlia e aos que cuidam da criana. Desde o incio, leva consigo contribuies dos instintos sexuais - componentes de interesse ertico 
- que j se podem observar, de maneira mais ou menos clara, mesmo na infncia, e que se descobrem de algum modo mais tarde nos neurticos atravs da psicanlise. 
Corresponde  escolha de objeto, primria, da criana. Aprendemos, assim, que os instintos sexuais encontram seus primeiros objetos ao se apegarem s apreciaes 
feitas pelos instintos do ego, precisamente no momento em que as primeiras satisfaes sexuais so experimentadas em ligao com as funes necessrias  preservao 
da vida. A `afeio' demonstrada pelos pais da criana e pelos que dela cuidam, que raramente deixa de delatar sua natureza ertica (`a criana  um brinquedo ertico'), 
concorre, em grande parte, para erigir as contribuies feitas pelo erotismo s catexias de seus instintos do ego e para increment-la numa medida em que se compele 
a desempenhar um papel em seu desenvolvimento ulterior, principalmente quando algumas outras circunstncias emprestam seu suporte.
         Essas fixaes afetivas da criana persistem por toda a infncia e continuamente conduzem consigo o erotismo, que, em conseqncia, se desvia de seus objetivos 
sexuais. Ento, com a puberdade, elas se unem atravs da poderosa corrente `sensual', a qual j no se equivoca mais em seus objetivos. Evidentemente, jamais deixa 
de seguir os mais primitivos caminhos e catexizar os objetos da escolha infantil primria com cotas de libidos, que so agora muito mais poderosas. Neste ponto, 
no entanto, defronta-se com obstculos que, nesse meio tempo, foram erigidos pela barreira contra o incesto; em conseqncia, se esforar por transpor esses objetos 
que so, na realidade, inadequados, e encontrar um caminho, to breve quanto possvel, para outros objetos estranhos com os quais se possa levar uma verdadeira vida 
sexual. Esses novos objetos ainda sero escolhidos ao modelo (imago) dos objetos infantis, mas com o correr do tempo, atrairo para si a afeio que se ligava aos 
mais primitivos. Um homem deixar seu pai e sua me - segundo o preceito bblico - e se apegar  sua mulher; ento, se associam afeio e sensualidade. O mximo 
de intensidade de paixo sensual trar consigo a mais alta valorizao psquica do objeto - sendo esta a supervalorizao normal do objeto sexual por parte do homem.
         Dois fatores decidiro se esse avano no caminho do desenvolvimento da libido pode falhar. Em primeiro lugar, h a quantidade de frustrao da realidade 
que se ope  nova escolha de objeto e reduz seu valor para a pessoa em questo. Afinal no h qualquer sentido em decidir-se por uma escolha de objeto se nenhuma 
escolha ser de todo permitida ou se no h nenhuma perspectiva de ser capaz de escolher alguma coisa adequada. Em segundo lugar, h a quantidade de atrao que 
so capazes de exercer os objetos infantis, que devero ser abandonados, e que existe em proporo s catexias erticas que se ligam a eles na infncia. Se esses 
dois fatores forem suficientemente fortes, o mecanismo geral, por meio do qual se estruturam as neuroses, entra em funcionamento. A libido afasta-se da realidade, 
 substituda pela atividade imaginativa (o processo de introverso), fortalece as imagens dos primeiros objetos sexuais e se fixa nos mesmos. O obstculo erguido 
contra o incesto, entretanto, compele a libido, que se transferiu para esses objetos, a permanecer no inconsciente. A atividade masturbatria levada a efeito pela 
corrente sensual, que agora  parte do inconsciente, faz sua prpria contribuio, ao fortalecer essa fixao. Nada se altera nesse estado de coisas, se o avano, 
que  abortado na realidade, se completa agora na fantasia e se nas situao que levam  satisfao masturbatria os objetos sexuais originais so substitudos por 
objetos diferentes. Em conseqncia dessa substituio, as fantasias se tornam admissveis  conscincia, mas no se faz qualquer progresso na localizao da libido 
na realidade. Deste modo, pode acontecer que a totalidade da sensualidade de um jovem se ligue a objetos incestuosos no inconsciente, ou para colocar em outras palavras, 
se fixe em fantasias incestuosas inconscientes. O resultado, ento,  a impotncia total que, talvez, mais tarde se reforce pelo incio simultneo de um real debilitamento 
dos rgos que realizam o ato sexual.
         Necessita-se de condies menos graves para dar origem ao estado conhecido especificamente como impotncia psquica. Neste caso, o destino da corrente sensual 
no deve ser o de que sua carga total tenha de se ocultar atrs da corrente afetiva; ela deve ter permanecido suficientemente forte ou desinibida para assegurar 
vazo parcial  realidade. A atividade sexual dessas pessoas apresenta sinais muito evidentes, entretanto, de que no possui a fora impulsiva psquica total do 
instinto por trs dela.  caprichosa, facilmente perturbada, muitas vezes no propriamente executada e no acompanhada de muito prazer. Mas, acima de tudo,  forada 
a evitar a corrente afetiva. A restrio, assim, se colocou na escolha do objeto. A corrente sensual, que permaneceu ativa, procura apenas objetos que no rememorem 
as imagens incestuosas que lhe so proibidas; se algum causa uma impresso que pode levar  sua alta estima psquica, essa impresso no encontra escoamento em 
nenhuma excitao sensual, exceto na afeio que no possui efeito ertico. Toda a esfera do amor, nessas pessoas, permanece dividada em duas direes personificadas 
na arte do amar tanto sagrada como profana (ou animal). Quando amam, no desejam, e quando desejam, no podem amar. Procuram objetos que no precisem amar, de modo 
a manter sua sensualidade afastada dos objetos que amam; e, de acordo com as leis da `sensibilidade complexiva' e do retorno do reprimido, o estranho malogro, demonstrado 
na impotncia psquica, faz seu aparecimento sempre que um objeto, que foi escolhido com a finalidade de evitar o incesto, relembra o objeto proibido atravs de 
alguma caracterstica, freqentemente imperceptvel.
         A principal medida protetora contra essa perturbao a que os homens recorrem nessa diviso de seu amor consiste na depreciao do objeto sexual, sendo 
reservada a supervalorizao, que normalmente se liga ao objeto sexual para o objeto incestuoso e seus representantes. Logo que se consuma a condio de depreciao, 
a sensualidade pode se expressar livremente e podem se desenvolver importantes capacidades sexuais e alto grau de prazer. H um outro fator que contribui para esta 
conseqncia. As pessoas nas quais no houve a confluncia apropriada das corrente afetiva e sensual geralmente no demonstram muito refinamento nas suas formas 
de comportamento amoroso; elas retiveram suas finalidades sexuais perversas, cuja no-realizao  sentida como uma grave perda de prazer e cuja realizao, por 
outro lado, s parece possvel com um objeto sexual depreciado e desprezado.
         Podemos agora compreender os motivos ocultos sob as fantasias do menino, mencionadas na primeira dessas `Contribuies' (ver em [1]), que degradam a me 
ao nvel de uma prostituta. So esforos para transpor a distncia entre as duas correntes amorosas, pelo menos em fantasia e, pela depreciao da me, adquiri-la 
como objeto de sensualidade.
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          No captulo anterior, abordamos o estudo da impotncia psquica do ngulo mdico-psicolgico, ao qual o ttulo deste trabalho no faz aluso. Tornar-se- 
evidente, no entanto, que esta introduo foi por ns requerida para proporcionar acesso a nosso tema propriamente dito.
         Reduzimos a impotncia psquica  falha em se combinar as correntes afetivas e sensual no amor e se explicou essa inibio do desenvolvimento, por sua vez, 
como se devendo a influncias de poderosas fixaes infantis e da subseqente frustrao da realidade atravs da interveno da barreira contra o incesto. H uma 
objeo principal  teoria que desenvolvemos: oferece demasiado. Explica por que certas pessoas padecem de impotncia psquica, mas nos deixa frente ao mistrio 
aparente de como outras foram capazes de escapar a essa perturbao. Visto que devemos reconhecer que todos os fatores relevantes que conhecemos - a forte fixao 
infantil, a barreira ao incesto e a frustrao nos anos de desenvolvimento depois da puberdade - podem ser encontrados em praticamente todos os seres humanos civilizados, 
deve-se justificar a perspectiva da impotncia psquica como uma condio universal da civilizao e no uma perturbao circunscrita a alguns indivduos.
         Seria fcil fugir a esta concluso apontando para o fator quantitativo na motivao da doena - para o maior ou menor grau da contribuio feita pelos vrios 
elementos que determinam se resulta ou no uma enfermidade reconhecvel. Conquanto, porm, eu aceite esta resposta como correta, no  minha inteno transform-la 
no motivo para rejeitar a prpria concluso. Ao contrrio, apresentarei o conceito de que a impotncia psquica est muito mais difundida do que se supe e que certa 
extenso desse comportamento caracteriza, de fato, o amor do homem civilizado.
         Se se ampliar o conceito da impotncia psquica e no se restringir o malogro em realizar o ato do coito, em circunstncias em que esteja presente o desejo 
de obter prazer e o aparelho genital esteja intacto, podemos, em primeiro lugar, acrescentar todos aqueles homens que so descritos como psicanestsicos: homens 
que nunca falham no ato, mas que o realizam sem dele derivar qualquer prazer especial - um estado de coisas que  muito mais comum do que se pensa. O exame psicanaltico 
desses casos revela os mesmos fatores etiolgicos encontrados na impotncia psquica no seu sentido mais estrito, sem antes encontrar qualquer explicao para a 
diferena entre seus sintomas. Uma analogia facilmente justificvel nos leva desses homens anestsicos para o imenso nmero de mulheres frgidas; e no h melhor 
maneira de descrever ou compreender seu comportamento amoroso do que comparando-o  perturbao manifesta da impotncia psquica nos homens.
         Se, no entanto, voltarmos nossa ateno, no para a extenso do conceito de impotncia psquica mas para as gradaes em sua sintomatologia, no poderemos 
fugir  concluso de que o comportamento amoroso dos homens, no mundo civilizado de hoje, de modo geral traz o selo da impotncia psquica. Existe apenas um pequeno 
nmero de pessoas educadas em que as duas correntes, de afeio e de sensualidade, se fundiram adequadamente; o homem quase sempre sente respeito pela mulher, que 
atua como restrio  sua atividade sexual, e s desenvolve potncia completa quando se acha com um objeto sexual depreciado; e isto, por sua vez,  causado, em 
parte, pela entrada de componentes perversos em seus objetivos sexuais, os quais no ousa satisfazer com a mulher que ele respeita. Assegura-se de prazer sexual 
completo apenas quando se pode dedicar sem reserva a obter satisfao, o que, com sua mulher bem educada, por exemplo, no se atreve a realizar.  esta a origem 
de sua necessidade de um objeto sexual depreciado, de uma mulher eticamente inferior, a quem no precise atribuir escrpulos estticos, que no o conhea em seu 
outro crculo de relaes sociais e que ali no o possa julgar.  a esta mulher que prefere dedicar sua potncia sexual, mesmo quando toda sua afeio pertena a 
uma mulher de natureza superior. Tambm  possvel que a tendncia a escolher uma mulher de classe mais baixa para sua amante permanente ou mesmo para sua esposa, 
to freqentemente observada nos homens das classes mais altas da sociedade, nada mais seja que a conseqncia de sua necessidade de um objeto sexual depreciado, 
a quem se vincule psicologicamente a possibilidade de completa satisfao sexual.
         No vacilo em admitir que os dois fatores em atividade na impotncia psquica, no sentido estrito - os fatores de intensa fixao incestuosa, na infncia, 
e a frustrao devida  realidade, na adolescncia - respondam tambm por esta caracterstica extremamente comum do amor dos homens civilizados. Parece no s desagradvel 
mas tambm paradoxal, que deva, no obstante, afirmar que algum, para ser realmente livre e feliz no amor, tem de sobrepujar seu respeito pelas mulheres e aceitar 
a idia do incesto com sua me ou irm. Qualquer pessoa que se sujeite a uma sria introspeco a respeito dessa necessidade certamente se convencer ao descobrir 
que considera o ato sexual, basicamente, algo degradante, que conspurca e polui mais do que simplesmente o corpo. A origem dessa vil opinio, que ele certamente 
no reconhecer de boa-vontade, deve ser procurada no perodo de sua infncia em que a corrente sensual nele existente j estava grandemente desenvolvida, mas sua 
satisfao com um objeto fora da famlia era quase to absolutamente proibida como o era com um objeto incestuoso.
         No nosso mundo civilizado, as mulheres esto sob a influncia de um efeito residual, semelhante, de sua educao e, alm disso, de sua reao ao comportamento 
dos homens. , naturalmente, to desvantajoso para uma mulher se um homem a procura sem sua potncia plena como o  se a supervalorizao inicial dela, quando enamorado, 
d lugar a uma subvalorizao depois de possu-la. No caso das mulheres, h pouca indicao da necessidade de depreciar seu objeto sexual. Isto se liga, sem dvida, 
com a ausncia nelas, geralmente, de nada semelhante  supervalorizao que se encontra nos homens. Porm, sua longa conteno de sexualidade e seu anseio de sensualidade 
em fantasia, tem para elas outra conseqncia importante. So, muitas vezes, subseqentemente, incapazes de desfazer a conexo entre a atividade sensual e a proibio, 
tornando-se psiquicamente impotentes, isto , frgidas, quando tal atividade, finalmente, lhes  permitida. Esta  a origem do empenho realizado por muitas mulheres 
de manter secretas, por certo tempo, mesmo suas relaes legtimas; e da capacidade de outras mulheres para a sensao normal, to logo a condio de proibio se 
restabelea devido a uma relao amorosa secreta: infiis a seus maridos, so capazes de manter um segunda espcie de finalidade em relao a seus amantes [cf. em 
[1]].
         A condio de proibitividade na vida ertica das mulheres  comparvel, creio eu,  necessidade da parte dos homens de depreciar seu objeto sexual. Ambas 
so conseqncias de um longo perodo de demora, que  exigida pela educao, por razes culturais, entre a maturidade sexual e a atividade sexual. Ambas tendem 
a abolir a impotncia psquica que resulta do malogro de se fundirem os impulsos afetuosos e sensuais. O fato de que o efeito das mesmas causas seja to diferente 
nos homens e nas mulheres pode talvez ser atribudo a outra diferena no comportamento dos dois sexos. As mulheres civilizadas geralmente no transgridem a proibio 
de atividade sexual durante o perodo em que tm de esperar e, assim, estabelecem a ligao ntima entre proibio e sexualidade. Os homens geralmente desrespeitam 
essa proibio se podem satisfazer a condio de depreciar o objeto e, em conseqncia, mantm essa condio em seu amor mais tarde, na vida.
         Em vista dos esforos extenuantes que se fazem hoje, no mundo civilizado, para reformar a vida sexual, ser suprfluo advertir que a pesquisa psicanaltica 
est to isenta de tendenciosidade quanto qualquer outra espcie de pesquisa. No h nenhum outro objetivo em vista alm de derramar alguma luz sobre as coisas, 
ao procurar que se revele o que est oculto. Ser bastante satisfatrio se as reformas fizerem uso dessas descobertas para substituir o que  prejudicial por algo 
mais vantajoso; mas no se pode predizer se outras instituies no redundaro em outros sacrifcios, talvez mais srios.
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         O fato de que a restrio feita ao amor pela civilizao envolva uma tendncia universal a depreciar os objetos sexuais pode conduzir-nos, talvez, a desviar 
nossa ateno do objeto para os instintos em si. O prejuzo causado pela frustrao inicial do prazer sexual se evidencia no fato de que a liberdade mais tarde concedida 
a esse prazer, no casamento, no proporcione satisfao completa. Mas, ao mesmo tempo, se no se limita a liberdade sexual desde o incio, o resultado no  melhor. 
Pode-se verificar, facilmente, que o valor psquico das necessidades erticas se reduz, to logo se tornem fceis suas satisfaes. Para intensificar a libido, se 
requer um obstculo; e onde as resistncias naturais  satisfao no foram suficientes, o homem sempre ergueu outros, convencionais, a fim de poder gozar o amor. 
Isto se aplica tanto ao indivduos como s naes. Nas pocas em que no havia dificuldades que impedissem a satisfao sexual, como, talvez, durante o declnio 
das antigas civilizaes, o amor tornava-se sem valor e a vida, vazia; eram necessrias poderosas formaes reativas para restaurar os valores afetivos indispensveis. 
Nessa conexo, pode-se afirmar que a corrente asctica da Cristandade criou valores psquicos para o amor que a antiguidade pag nunca fra capaz de lhe conferir. 
Essa corrente adquiriu sua maior importncia atravs dos monges ascticos, cujas vidas foram quase exclusivamente dedicadas a combater a tentao libidinosa.
         Nosso primeiro impulso consiste, sem dvida, em retraar as dificuldades aqui reveladas s caractersticas universais de nossos instintos orgnicos. Por 
certo tambm  verdade que, em geral, a importncia psquica de um instinto cresce em proporo a sua frustrao. Suponhamos que uma srie de pessoas, totalmente 
diferentes, fossem todas igualmente sujeitas  fome.  medida que sua necessidade imperiosa de alimentos crescesse, todas as diferenas individuais desapareceriam 
e, em seu lugar, observar-se-iam manifestaes uniformes do nico instinto no-saciado. Mas, ser tambm verdade que, com a satisfao de um instinto, seu valor 
psquico sempre cai na mesma proporo? Consideremos, por exemplo, a relao de um beberro com o vinho. No  verdade que o vinho sempre proporciona ao beberro 
a mesma satisfao txica que, na poesia, tem sido to freqentemente comparada  satisfao ertica - uma comparao que tambm  igualmente aceitvel do ponto 
de vista cientfico? Algum j ouviu falar de que o beberro seja obrigado a trocar constantemente de bebida, porque logo enjoa de beber a mesma coisa? Ao contrrio, 
o hbito constantemente refora o vnculo que prende o homem  espcie de vinho que ele bebe. Algum j ouviu falar de um beberro que precise ir a um pas em que 
o vinho seja mais caro ou em que seja proibido beber, de modo que, erguendo obstculos, ele possa aumentar a satisfao decrescente que obtm? De maneira nenhuma. 
Se atentarmos para o que dizem os grandes alcolatras, como Bcklin, a respeito de sua relao com o vinho, ela aparece como a mais harmoniosa possvel, um modelo 
de casamento feliz. Por que a relao do amante com seu objeto sexual ser to profundamente diferente?
         Por mais estranho que parea, creio que devemos levar em considerao a possibilidade de que algo semelhante na natureza do prprio instinto sexual  desfavorvel 
 realizao da satisfao completa. Se considerarmos a longa e difcil histria do desenvolvimento do instinto, nos viro  mente, imediatamente, dois fatores que 
podem ser julgados os responsveis por essa dificuldade. Primeiramente, em conseqncia da irrupo bifsica da escolha de objeto, e da interposio da barreira 
contra o incesto, o objeto final do instinto sexual nunca mais ser o objeto original, mas apenas um sub-rogado do mesmo. A psicanlise revelou-nos que quando o 
objeto original de um impulso desejoso se perde em conseqncia da represso, ele se representa, freqentemente, por uma sucesso infindvel de objetos substitutos, 
nenhum dos quais, no entanto, proporciona satisfao completa. Isto pode explicar a inconstncia na escolha de objetos, o `anseio pela estimulao' que to amide 
caracterizam o amor dos adultos.
         Em segundo lugar, sabemos que o instinto sexual , originalmente, dividido em grande nmero de componentes - ou melhor, desenvolve-se desses componentes 
- alguns dos quais no podem integrar o instinto em sua forma final, mas tm de ser suprimidos ou destinados a outros empregos em uma fase anterior. So eles, principalmente, 
os componentes instintivos coprfilos, que demonstraram ser incompatveis com nossos padres estticos de cultura, provavelmente porque, em conseqncia de havermos 
adotado a postura ereta, erguemos do cho nosso rgo do olfato. O mesmo se aplica a uma grande parte dos impulsos sdicos que constituem parte da vida ertica. 
Mas todos esses processos do desenvolvimento s atingem as camadas mais superiores de estrutura complexa. Os processos fundamentais que produzem excitao ertica 
permanecem inalterados. O excrementcio est todo, muito ntima e inseparavelmente, ligado ao sexual; a posio dos rgos genitais - inter urinas et faeces - permanece 
sendo o fator decisivo e imutvel. Poder-se-ia dizer neste ponto, modificando um dito muito conhecido do grande Napoleo: `A anatomia  o destino.' Os rgos genitais 
propriamente ditos no participaram do desenvolvimento do corpo humano visando  beleza: permaneceram animais e, assim, tambm o amor permaneceu, em essncia, to 
animal como sempre foi. Os instintos do amor so difceis de educar; sua educao ora consegue de mais, ora de menos. O que a civilizao pretende fazer deles parece 
inatingvel, a no ser  custa de uma pondervel perda de prazer: a persistncia dos impulsos que no puderam ser utilizados pode ser percebida na atividade sexual, 
sob a forma de no-satisfao.
         Assim, talvez tenhamos de ser forados a nos reconciliar com a idia de que  absolutamente impossvel harmonizar os clamores de nosso instinto sexual com 
as exigncias da civilizao: de que, em conseqncia de seu desenvolvimento cultural, a renncia e o sofrimento, bem como o perigo de extino no futuro mais remoto, 
no podem ser evitados pela raa humana. Este sombrio prognstico repousa,  verdade, na simples conjectura de que a no-satisfao inerente  civilizao  conseqncia 
necessria de certas peculiaridades que o instinto sexual adotou sob a presso da cultura. A prpria incapacidade do instinto sexual de produzir satisfao completa, 
to logo se submete s primeiras exigncias da civilizao, torna-se a fonte, no entanto, das mais nobres realizaes culturais que so determinadas pela sublimao 
cada vez maior de seus componentes instintivos. Pois, que motivo teria o homem para colocar as foras instintivas sexuais a outros servios se, com qualquer distribuio 
dessas foras, eles poderiam conseguir prazer completamente satisfatrio? No renunciariam nunca a esse prazer e jamais realizariam qualquer outro progresso. Parece, 
portanto, que a diferena irreconcilivel entre as exigncias dos dois instintos - o sexual e o egosta - tornou os homens capazes de realizaes cada vez melhores, 
conquanto sujeitos,  verdade, a um perigo constante, ao qual, sob a forma de neurose, sucumbem hoje os mais fracos.
         O objetivo da cincia no  atemorizar ou consolar. Mas, de minha parte, estou pronto a admitir que concluses importantes, como as que inferi, deveriam 
apoiar-se em fundamento mais amplos, e que, talvez, desenvolvimentos em outras direes possam permitir  humanidade corrigir os resultados dos desenvolvimentos 
que aqui venho considerando isoladamente.
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       O TABU DA VIRGINDADE (1918 [1917])
       (CONTRIBUIO  PSICOLOGIA DO AMOR III)
         
         
         BEITRGE ZUR PSYCHOLOGIE DES LIEBESLEBENS III
         DAS TABU DER VIRGINITT
         
         
         (a)    EDIES ALEMES:
         (1917   Lido como uma comunicao  Sociedade Psicanaltica de Viena, 12 de dezembro de 1917.)
         1918   S.K.S.N., 4, 229-51. (`Beitrge zur Psychologie des Liebeslebens' III. 2 ed., 1922.)
         1924   G.S., 5, 212-31.
         1924   Em Beitrge zur Psychologie des Liebeslebens., Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. (Pgs. 29-48.)
         1931   Sexualtheorie und Traumlehre, 95-115.
         1947   G.W., 12, 161-80.
         (b)   TRADUO INGLESA:
         `Contributions to the Psychology of Love: The Taboo of Virginity'
         1925   C.P., 4, 217-35. (Trad. Joan Riviere.)
         A presente traduo inglesa, completamente nova,  de Angela Richards.
         Este artigo foi escrito em setembro de 1917, mas s foi publicado no ano seguinte. Apesar do espao de vrios anos que separa este artigo dos dois precedentes, 
pareceu acertado reuni-los, visto que o prprio Freud os juntou sob o mesmo ttulo. Totem and Taboo (Totem e Tabu)(1912-13) aparecera no meio tempo, j que o segundo 
artigo da srie, e este terceiro, sob certo ponto de vista, podem ser considerados como acrscimo ao segundo ensaio dessa obra. Por outro lado, entretanto, inclui 
o exame do problema clnico da frigidez nas mulheres e, sob este aspecto,  o equivalente do estudo da impotncia nos homens, no segundo artigo da srie (vide [1]).
         
         O TABU DA VIRGINDADE
         (CONTRIBUIES  PSICOLOGIA DO AMOR III)
         
         POUCAS particularidades da vida sexual dos povos primitivos so to estranhas a nossos prprios sentimentos quanto a valorizao da virgindade, o estado 
de intocabilidade da mulher. O alto valor que o pretendente atribui  virgindade da mulher parece-nos to fortemente enraizado, to natural, que ficaremos quase 
perplexos se tivermos de oferecer razes para justificar essa opinio. A exigncia de que a moa leve para seu casamento com determinado homem qualquer lembrana 
de relaes sexuais com outro nada mais , realmente, que a continuao lgica do direito  posse exclusiva da mulher, que constitui a essncia da monogamia, a extenso 
desse monoplio para incluir o passado.
         Partindo deste ponto, no temos dificuldade em justificar o que a princpio parecia um preconceito, quando nos referimos a nossos pontos de vista sobre 
a vida ertica das mulheres. Seja quem for o primeiro a satisfazer o desejo de amor de uma virgem, longa e penosamente refreado, e que ao faz-lo vence as resistncias 
que nela foram criadas atravs das influncias de seu meio e de sua educao, este ser o homem que a prender num relacionamento duradouro, possibilidade esta que 
jamais se oferecer a qualquer outro homem. Essa experincia cria, na mulher, um estado de sujeio que garante que sua posse permanecer imperturbada e que a torna 
capaz de resistir a novas impresses e tentaes estranhas.
         A expresso `sujeio sexual' foi escolhida, por von Krafft-Ebing, (1892) para descrever o fenmeno de uma pessoa adquirir um grau de dependncia, invulgarmente 
alto, e carente de autoconfiana em relao a outra pessoa com quem mantm um relacionamento sexual. Esta sujeio pode, em certa circunstncia, estender-se bastante, 
ir at a perda de toda vontade independente e at fazer a pessoa sofrer os maiores sacrifcios de seus prprios interesses; o autor, no entanto, no deixa de salientar 
que certa proporo dessa dependncia ` absolutamente necessria, se o lao for destinado a durar um perodo de tempo razovel. Certa medida de sujeio sexual 
, de fato, indispensvel para a manuteno do casamento civilizado e para manter afastadas as tendncias  poligamia que o ameaam e, em nossas comunidades sociais, 
este fator  comumente levado em considerao.
         Segundo von Krafft-Ebing a formao da sujeio sexual decorre da associao de um `grau invulgar da condio de estar amando e da franqueza de carter' 
de uma pessoa, e do egosmo sem limites da outra. A experincia analtica, no entanto, no pode nos deixar satisfeitos com este simples esforo de explicao. Podemos 
observar, antes, que o fator decisivo  a proporo de resistncia sexual que  vencida e, alm disso, o fato de que o processo de vencer a resistncia se concentra 
e ocorre apenas uma vez. Este estado de sujeio , em conseqncia, muito mais freqente e mais intenso nas mulheres que nos homens, conquanto seja verdade que 
ocorra nos ltimos muito mais amide hoje que antigamente. Sempre que se nos ofereceu a oportunidade de estudar a sujeio sexual nos homens, esta se revelou como 
resultante da superao de impotncia psquica, por meio de determinada mulher a quem, subseqentemente, o homem em questo permaneceu sujeito. Muitos casamentos 
estranhos e no poucos acontecimentos trgicos - alguns mesmo de amplas conseqncias - parecem ser explicados por essa origem.
         Voltando  atitude dos povos primitivos,  incorreto descrev-la afirmando que no atribuam valor  virgindade e oferecer como prova disto o fato de que 
realizam o defloramento das moas fora do casamento e antes do primeiro ato de relao sexual marital. Ao contrrio, o defloramento, para eles, parece que tambm 
 um ato significativo; tornou-se, porm, matria de tabu - de uma proibio que se pode descrever como religiosa. Em lugar de reserv-la para o noivo da moa e 
futuro companheiro no casamento, o costume determina que ele se abster de execut-la.
         No  parte de minha inteno fazer uma compilao completa da evidncia literria de que existe esse costume da proibio, aprofundar sua distribuio 
geogrfica e enumerar todas as formas em que ela se manifesta. Limitar-me-ei, portanto, a declarar o fato de que a prtica da ruptura do hmen dessa maneira, fora 
do casamento subseqente,  muito disseminada entre as raas primitivas que vivem ainda hoje. Como diz Crawley, `Essa cerimnia do casamento consiste na perfuraodo 
hmen por uma pessoa designada que no o marido;  muito comum nos estgio mais baixos de cultura, especialmente na Austrlia.' (Crawley, 1902, 347.)
         No entanto, se o defloramento no  para ser conseqncia do primeiro ato de relao sexual marital, ento,  porque deve ter sido executado antecipadamente 
- no importa de que maneira nem por quem. Transcreverei algumas passagens do livro de Crawley, acima mencionado, que fornecem informaes sobre esses pontos, mas 
que tambm do vaza a algumas observaes crticas.
         (Ibid., 191.) `Assim na tribo Dieri e em suas vizinhas (na Austrlia)  costume universal perfurar o hmen da menina quando ela atinge a puberdade (Journal 
of Royal Anthropological Institute, 24, 169). Nas tribos Portland e Glenelg isto  feito  noiva por uma mulher idosa; e, s vezes, com essa finalidade so solicitados 
homens brancos para deflorar as moas (Brough Smith, [1878], 2, 319).'
         (Ibid, 307) `A ruptura artificial do hmen, s vezes, ocorre na infncia, mas, geralmente, na puberdade...  freqentemente acompanhada, como na Austrlia, 
por um ato cerimonial de relaes sexuais.'
         (ibid., 348) (A respeito das tribos australianas entre as quais vigoram as conhecidas restries ao casamento exgamo, segundo Spencer e Gillen [1899]:) 
`O hmen  perfurado artificialmente e, ento, os homens da assistncia tm acesso (cerimonial, bem entendido)  moa em ordem determinada.... O ato se realiza em 
duas partes, perfurao e relao sexual.'
         (Ibid., 349.) `Uma preliminar importante do casamento entre os Masai (da frica Equatorial)  a execuo dessa operao na menina (J. Thomson, [1887], 2, 
258). Esse defloramento  efetuado pelo pai da noiva entre os Sakais (Malsia), os Battas (Sumatra) e os Alfoers das Celebes (Ploss e Bartels, [1891], 2, 490). Nas 
Filipinas, havia determinados homens cuja profisso era deflorar noivas, caso o hmen no houvesse sido perfurado na infncia por uma mulher idosa, s vezes contratada 
para esse fim (Featherman, [1885-91], 2, 474). O defloramento da noiva entre certas tribos Esquims era confiado ao angekok, ou sacerdote (ibid, 3, 406).
         As observaes crticas a que me referi dizem dizem respeito a dois pontos. Em primeiro lugar,  lamentvel que nessas comunicaes no se tenha estabelecido 
uma distino mais cuidadosa entre a simples ruptura do hmen sem relao sexual, e a relao sexual com finalidade de efetuar a ruptura. H apenas uma passagem 
que nos d conta, expressamente, de que o procedimento se faz em dois atos: o defloramento (efetuado  mo ou por meio de algum instrumento) e o ato da relao sexual 
que se lhe segue. O material em Ploss e Bartels 91891), sob outros aspectos to rico,  quase intil para nosso propsito, porque em sua apresentao a importncia 
psicolgica do ato do defloramento  completamente deslocado em favor de suas conseqncias anatmicas. Em segundo lugar, gostaramos de saber de que maneira o `cerimonial' 
do coito (puramente formal, ritual ou oficial), que ocorre nessas ocasies, difere da relao sexual comum. Os autores a que tive acesso, ou se sentiram muito acanhados 
para comentar o assunto, ou mais uma vez subestimaram a importncia psicolgica desses pormenores sexuais. Resta-nos esperar que os relatos de primeira mo de viajantes 
e missionrios possam ser mais completos e menos ambguos; visto que a literatura sobre esta matria, em sua maior parte estrangeira, , no momento, inacessvel, 
nada posso afirmar de definitivo sobre o assunto. Alm do mais, poderemos contornar o problema que surgiu em relao a este segundo ponto, se levarmos em conta o 
fato de que um cerimonial de coito simulado poderia afinal apenas representar o substituto, e, talvez, de modo geral, a recomposio de um ato que anos antes teria 
sido completamente levado a cabo.
         Vrios fatores podem ser acrescentados para explicar esse tabu da virgindade, os quais enumerarei e considerarei brevemente. Quando uma virgem  deflorada, 
de maneira geral, sangra: a primeira tentativa de explicao baseia-se, pois, no horror ao sangue entre as raas primitivas que consideram sangue como a origem da 
vida. Observa-se esse tabu do sangue em numerosos tipos de prticas que nada tm que ver com a sexualidade; est claramente relacionado com a proibio de assassinar 
e constitui uma medida de proteo contra a primitiva sede de sangue, o prazer primevo do homem ao matar. De acordo com esta concepo, o tabu da virgindade se relaciona 
com o tabu da menstruao, que  quase universalmente conservado. Os povos primitivos no podem dissociar esse estranho fenmeno do fluxo mensal de sangue de idias 
sdicas. A menstruao, especialmente, na primeira vez que aparece,  interpretada como a mordedura do esprito de um animal, talvez como um sinal de relao sexual 
com este esprito. Ocasionalmente, alguma informao fornece fundamentos para reconhecer o esprito como o de um antepassado e, ento, apoiados em outras descobertas, 
chegamos  concluso de que a menina que menstrua  tabu porque constitui propriedade desse esprito ancestral.
         Outras consideraes, no entanto, advertem-nos a no superestimar a influncia de um fator como o horror ao sangue. Afinal ele no foi assim to forte para 
impedir prticas tais como a circunciso de meninos e seu equivalente ainda mais cruel nas meninas (exciso do clitris e dos pequenos lbios), que so, em certa 
extenso, costume nessas mesmas raas, nem para abolir a prevalncia de outras cerimnias que envolvem derramamento de sangue. Portanto, tambm no seria surpreendente 
se este horror fosse sobrepujado em benefcio do marido na ocasio da primeira coabitao.
         H uma segunda explicao, que tambm no leva em conta a sexualidade, que tem, no entanto, alcance muito mais geral que a primeira. Sugere que o homem 
primitivo  vtima de perptua apreenso secreta, tal como, na teoria psicanaltica das neuroses, afirmamos ser o caso das pessoas que sofrem de neurose de angstia. 
Esta apreenso se manifestar de forma mais intensa em todas as ocasies que diferem de qualquer forma do habitual, que envolvam alguma coisa nova ou inesperada, 
algo no compreensvel ou misterioso.  esta, tambm, a origem das prticas de cerimoniais, amplamente adotadas por religies subseqentes, relativas ao incio de 
qualquer novo empreendimento, ao comeo de cada novo perodo de tempo, aos primeiros frutos da vida humana, animal ou vegetal. Os perigos que o homem ansioso acredita 
que o ameaam nunca parecem to vvidos em sua expectativa como no limiar de uma situao perigosa e, tambm,  a nica ocasio em que se proteger contra os mesmos 
produz alguma ajuda. O primeiro ato de relao sexual, no casamento, pode certamente requerer, em ordem de importncia, ser precedido dessas medidas de precauo. 
Estas duas tentativas de explicao, baseadas no horror ao sangue e no medo dos primeiros acontecimentos, no se contradizem mas, ao contrrio, se reforam. A primeira 
ocasio de relao sexual , certamente, um ato perigoso, sobretudo se implia fluxo de sangue.
         A terceira explicao - a que Crawley prefere - chama a ateno para o fato de que o tabu da virgindade  parte de uma grande soma que abrange a totalidade 
da vida sexual. No , apenas, o primeiro coito com uma mulher que constitui tabu e sim a relao sexual de um modo geral; quase se pode dizer que a mulher inteira 
 tabu. A mulher no  unicamente tabu em situaes especiais decorrentes de sua vida sexual, tais como a menstruao, a gravidez o parto e o puerprio; alm dessas 
situaes, as relaes sexuais com as mulheres esto sujeitas a restries to solenes e numerosas que temos muitas razes para duvidar da suposta liberdade sexual 
dos selvagens.  verdade que, em ocasies especiais, a sexualidade do homem primitivo pode sobrepujar todas as inibies; mas, de maneira geral, parece ser mais 
fortemente dominada por proibies do que o  nas camadas mais altas da civilizao. Sempre que o homem se lana em um empreendimento especial, como partir para 
uma expedio, para uma caa ou uma campanha,  obrigado a se afastar da mulher e, principalmente, da relao sexual com a mesma; pois, de outra forma, ela pode 
lhe paralisar a fora e lhe trazer m sorte. Nos costumes da vida diria, h, igualmente, uma tendncia inequvoca para manter os sexos separados. As mulheres vivem 
com mulheres, os homens, com homens; a vida de famlia, como a entendemos, parece quase no existir em muitas tribos primitivas. Esta separao vai s vezes to 
longe que no se permite a um sexo pronunciar em voz alta os nomes prprios dos membros do outro sexo e as mulheres criam uma linguagem com um vocabulrio especial. 
As necessidades sexuais podem, de tempos a tempos, derrubar novamente essas barreiras de separao mas, em algumas tribos, mesmo os encontros entre marido e mulher 
tm de se realizar fora de casa e s escondidas.
         Toda vez que o homem primitivo tem de estabelecer um tabu, ele teme algum perigo e no se pode contestar que um receio generalizado das mulheres se expressa 
em todas essas regras de evitao. Talvez este receio se baseie no fato de que a mulher  diferente do homem, eternamente incompreensvel e misteriosa, estranha, 
e, portanto, aparentemente hostil. O homem teme ser enfraquecido pela mulher, contaminado por sua feminilidade e, ento, mostra-se ele prprio incapaz. O efeito 
que tem o coito de descarregar tenses e causar flacidez pode ser o prottipo do que o homem teme; e a representao da influncia que a mulher adquire sobre ele 
atravs do ato sexual, a considerao que ela em decorrncia do mesmo lhe exige pode justificar a ampliao desse medo. Em tudo isso, no h nada obsoleto, nada 
que no permanea ainda vivo em ns mesmos.
         Muitos estudiosos das raas primitivas, que ainda vivem hoje, formularam a teoria de que seus impulsos no amor so relativamente fracos e nunca atingem 
o grau de intensidade que estamos acostumados a encontrar nos homens civilizados. Outros observadores contestaram esta opinio, mas, de qualquer modo, a prtica 
de tabus, que descrevemos, testemunha a existncia de uma fora que se ope ao amor pela rejeio de mulheres por serem estranhas e hostis.
         Crawley, numa linguagem que difere apenas ligeiramente da terminologia habitual da psicanlise, afirma que cada indivduo  separado dos demais por um `tabu 
de isolamento pessoal' e que constitui precisamente as pequenas diferenas em pessoas que, quanto ao resto, so semelhantes, que formam a base dos sentimentos de 
estranheza e hostilidade entre eles. Seria tentador desenvolver essa idia e derivar desse `narcisismo das pequenas diferenas' a hostilidade que em cada relao 
humana observamos lutar vitoriosamente contra os sentimentos de companheirismo e sobrepujar o mandamento de que todos os homens devem amar ao seu prximo. A psicanlise 
acredita que descobriu grande parte do que fundamenta a rejeio narcsica das mulheres pelos homens, a qual est to entremeada com o desprezo por elas, ao chamar 
a ateno para o complexo da castrao e sua influncia sobre a opinio em que so tidas as mulheres.
         Podemos ver, no entanto, que estas ltimas consideraes nos levaram a pesquisar muito alm do nosso tema. O tabu geral das mulheres no deita nenhuma luz 
sobre as regras especiais em relao ao primeiro ato sexual com a virgem. No que lhes diz respeito, no fomos alm das duas primeiras explicaes, baseadas no horror 
ao sangue e no medo das primeiras ocorrncias e, mesmo estas, devemos assinalar, no vo ao mago do tabu em questo.  perfeitamente claro que a inteno que motiva 
este tabu  negar ou repudiar precisamente o futuro marido, o que no pode ser dissociado do primeiro ato sexual, muito embora, de acordo com nossas observaes 
preliminares, exatamente essa relao levaria a mulher a se tornar especialmente ligada a esse nico homem.
         No nos cabe nesta oportunidade examinar a origem e a significao definitiva das observncias de tabus. Fi-lo em meu livro Totem and Taboo (Totem e Tabu) 
[1912-13], em que dediquei a devida considerao ao papel desempenhado pela ambivalncia primitiva na determinao da formao de tabus e em que delineei a gnese 
dos mesmos nos acontecimentos pr-histricos que levaram  fundao da famlia humana. J no podemos mais reconhecer uma significao original desta espcie nos 
tabus observados entre tribos primitivas de nossos dias. Esquecemos tudo muito facilmente, na expectativa de encontrar alguma coisa que, mesmo os povos mais primitivos 
existentes em uma cultura muito distante daquela dos tempos primevos, a qual  to velha quanto a nossa prpria cultura, do ponto de vista do tempo e, como a nossa, 
corresponde a um estgio de desenvolvimento posterior, embora diferente.
         Hoje, encontramos, entre os povos primitivos, tabus j elaborados em um sistema complicado exatamente da mesma espcie dos que os neurticos de nosso meio 
desenvolvem com suas fobias e observamos velhos temas substitudos por novos que se adaptam uns aos outros de forma harmoniosa. Deixando de lado esses problemas 
genticos, ento, podemos voltar ao conceito de que o homem primitivo institui um tabu quando teme algum perigo. De modo geral, esse perigo  de natureza fsica, 
pois o homem primitivo, a essa altura, no  impelido a estabelecer duas distines que, para ns, no podem ser ignoradas. Ele no separa o perigo material do psquico, 
nem o real do imaginrio. Em sua concepo animista do universo consistentemente aplicada, todo perigo decorre da inteno hostil de algum ser dotado de alma como 
ele prprio, e isto se aplica tanto aos perigos que o ameaam, procedentes de alguma fora natural, como aos perigos procedentes de outros seres humanos ou animais. 
Mas, por outro lado, ele est acostumado a projetar seus prprios impulsos internos de hostilidade no mundo exterior, isto , a atribu-los aos objetos que sente 
como desagradveis ou mesmo, meramente, estranhos. Desta maneira, as mulheres tambm so consideradas como sendo desses perigos, e o primeiro ato sexual com a mulher 
destaca-se como um perigo de especial intensidade.
         Eu, por exemplo, acredito que encontraremos alguma indicao sobre o que  esse perigo intensificado e por que ele ameaa, precisamente, o futuro marido, 
se examinarmos mais detidamente o comportamento, nas mesmas circunstncia, de mulheres de nosso prprio estgio atual de civilizao. Submeter-me-ei antecipadamente 
como resultado desse exame, que tal perigo realmente existe, de modo que, no caso do tabu da virgindade, o homem primitivo est se defendendo de um perigo corretamente 
pressentido, apesar de psquico.
         Consideramos como reao normal que a mulher, em subseqncia  introduo do pnis, abrace o homem, apertando-o contra ela no auge da satisfao, e observamos 
essa atitude como expresso de sua gratido e prova de sujeio duradoura. Mas sabemos que no  regra, de maneira alguma, que a primeira ocasio do ato sexual conduza 
a esse comportamento; muito freqentemente significa apenas desapontamento para mulher, que permanece fria e insatisfeita e, geralmente, requer bastante tempo e 
freqente repetio do ato sexual, antes que tambm comece a encontrar satisfao no mesmo. H uma sucesso ininterrupta dos casos de simples frigidez inicial que 
logo desaparece, at a triste manifestao de permanente e obstinada frigidez que nenhum esforo carinhoso da parte do marido pode vencer. Acredito que essa frigidez 
nas mulheres ainda no  suficientemente compreendida e, exceto para aqueles casos que devem ser atribudos  potncia insuficiente do homem, clama por elucidao, 
possivelmente atravs de fenmenos coligados.
         No quero introduzir, a esta altura, as tentativas - que so freqentes - de fugir da primeira ocasio de relao sexual, porque esto abertas a diversas 
interpretaes e so, na maioria das vezes, conquanto nem sempre, compreendidas como expresso da tendncia geral feminina a tomar uma atitude defensiva. Em oposio 
a este conceito, acredito que se pode esclarecer o enigma da frigidez da mulher por determinados casos patolgicos nos quais, depois da primeira, e por certo, depois 
de cada experincia repetida de relao sexual, a mulher d expresso manifesta de sua hostilidade para com o homem, injuriando-o, levantando a mo contra ele ou, 
realmente, batendo-lhe. Em um caso muito evidente deste tipo, o qual logrei submeter a uma anlise completa, isto aconteceu, embora a mulher amasse muito o homem, 
costumasse exigir relaes sexuais com ele e, inequivocamente, encontrasse nas mesmas grandes satisfao. Penso que esta reao, estranha e contraditria,  conseqncia 
dos mesmos impulsos que, comumente, s podem encontrar expresso na forma de frigidez - isto , que podem deter a reao de ternura sem, ao mesmo tempo, lograrem 
eles prprios se colocar em ao. No caso patolgico, encontramos separados, por assim dizer, em seus dois componentes, o que no exemplo bastante comum de frigidez 
se une para produzir um efeito inibidor, tal qual o processo que h muito reconhecemos nos chamados `sintomas bifsicos' da neurose obsessiva. O perigo que assim 
se levanta pelo defloramento de uma mulher consiste em atrair sua hostilidade para si prprio, e o marido em perspectiva  exatamente a pessoa que teria toda razo 
para evitar tal inimizade.
         Desde que a anlise nos permite inferir sem dificuldade quais os impulsos que, nas mulheres, tomam parte na realizao desse comportamento paradoxal eu 
espero encontrar a explicao da frigidez. O primeiro ato sexual mobiliza uma srie de impulsos que esto deslocados na atitude feminina do desejo, alguns dos quais, 
incidentemente, no necessitam tornar a suceder nas relaes sexuais subseqentes. Em primeiro lugar, pensamos na dor que o defloramento causa  virgem e estamos, 
talvez mesmo, inclinados a considerar este fator como decisivo e a abandonar a procura de outros. Mas no podemos atribuir tanta importncia a essa dor; temos, antes, 
de substitu-la pela injria narcsica que decorre da destruio de um rgo e que  mesmo representada de forma racionalizada no conhecimento de que a perda da 
virgindade leva  diminuio do valor sexual. Os costumes do casamento entre povos primitivos, no entanto, contm uma advertncia contra a superestimao deste fato. 
Soubemos que, em alguns casos, o rito recai em duas fases; depois que se rompeu o hmen (com a mo ou algum instrumento), segue-se o ato cerimonial do coito ou do 
ato sexual simulado com os representantes do marido e isto nos prova que a finalidade da observncia do tabu no  cumprida ao se evitar o defloramento anatmico, 
e que o marido deve ser poupado de alguma outra coisa, bem como da reao da mulher  leso dolorosa.
         Encontramos outra razo para o desapontamento experimentado no primeiro ato sexual no fato de que, pelo menos com as mulheres civilizadas, a satisfao 
pode no corresponder s expectativas. Antes disto, a relao sexual fora associada, da maneira mais decisiva possvel, s proibies; a relao sexual legtima 
e permissvel no , portanto, sentida como a mesma coisa. Quo ntima pode ser esta associao se demonstra, de forma quase cmica, atravs dos esforos de tantas 
moas prestes a se casar para conservar seu novo relacionamento amoroso em segredo de todas as outras pessoas, e de certo at mesmo de seus pais, quando no h necessidade 
real de faz-lo e de onde se pode esperar qualquer objeo. As moas freqentemente dizem abertamente que seu amor perde o valor para elas se as outras pessoas souberem 
dele. De vez em quando, este sentimento pode se tornar dominante e impedir completamente o desenvolvimento de qualquer capacidade para o amor do casamento. A mulher 
s recupera sua susceptibilidade aos sentimentos de ternura em um relacionamento ilcito que tenha de se manter secreto, e no qual s ela sabe com certeza que sua 
prpria vontade no  influenciada [cf. em [1]].
         No entanto, tambm este motivo no conduz a um aprofundamento suficiente; alm do mais, sendo limitado por condies civilizadas, falha em prover uma conexo 
satisfatria com as circunstncias entre os povos primitivos. Tanto mais importante, portanto constitui o prximo fator, que se baseia na evoluo da libido. Aprendemos, 
das investigaes analticas, quo universais e quo poderosas so as distribuies iniciais da libido. Nelas nos preocupamos com os desejos sexuais infantis a que 
esto apegados (na mulher geralmente a fixao da libido localiza-se no pai ou em um irmo que o substitui) - desejos que, muito freqentemente, estavam dirigidos 
para outras coisas que a relao sexual ou que a inclua, apenas, como um objetivo vagamente percebido. O marido , quase sempre, por assim dizer, apenas um substituto, 
nunca o homem certo;  outro homem - nos casos tpicos o pai - que primeiro tem direito ao amor da mulher, o marido quando muito ocupa o segundo lugar. Depende de 
quo intensa seja essa fixao e de quo obstinadamente ela seja conservada, quer ou no o substituto seja rejeitado como insatisfatrio. A frigidez inclui-se, assim, 
entre os determinantes genticos das neuroses. Quanto mais poderoso o elemento psquico na vida sexual de uma mulher, maior ser a capacidade de resistncia demonstrada 
por sua distribuio da libido  revolta contra o primeiro ato sexual, e menos esmagador ser o efeito que sua posse corporal pode produzir. A frigidez pode, ento, 
se estabelecer como uma inibio neurtica ou fornecer a base para o desenvolvimento de outras neuroses e, at mesmo, uma pequena diminuio da potncia no homem 
contribuir grandemente para influir nesse processo.
         Os costumes dos povos primitivos parecem levar em considerao esse tema do desejo sexual precoce, confiando a tarefa do defloramento a um ancio, sacerdote 
ou homem santo, isto , a um substituto do pai (vide [1]). Parece-me que existe um caminho direto que leva desse costume para a questo muito debatida do jus primae 
noctis do senhor do castelo dos tempos medievais. A. J. Storfer (1911) apresentou o mesmo conceito e, alm disso, como o fizera Jung (1909) antes dele, interpretou 
a difundida tradio das `noites de Tobias' (o costume da continncia durante as trs primeiras noites do casamento) como o reconhecimento do privilgio do patriarca. 
Ele, portanto, concorda com nossas suposies quando encontramos imagens de deuses includas entre os sub-rogados do pai incumbidos do defloramento. Em algumas regies 
da ndia, a mulher recm-casada era obrigada a sacrificar seu hmen  linga de madeira e, segundo Santo Agostinho, o mesmo costume era observado na cerimnia de 
casamento dos romanos (de seu tempo?), porm modificado de maneira que a jovem esposa tinha apenas de sentar-se no gigantesco falo de pedra de Prapo.
         H outro motivo, que penetra ainda mais fundo, que pode ser demonstrado como o principal responsvel pela reao paradoxal em relao ao homem e que, na 
minha opinio, alm disso, exerce influncia na frigidez da mulher. O primeiro ato de relao sexual ativa na mulher outros impulsos antigos, que como os j descritos, 
e este esto em absoluta oposio a seu papel feminino e  sua funo.
         Aprendemos das anlises de muitas mulheres neurticas que elas passam, em sua infncia, por uma fase em que invejam nos irmos o seu smbolo de masculinidade 
e se sentem em desvantagem e humilhadas devido  falta dele em si mesmas (na verdade devido  sua proporo diminuta). Inclumos essa `inveja do pnis' no `complexo 
de castrao'. Se compreendemos `masculino' como noo que inclui o desejo de ser masculino, ento a designao `protesto masculino' se adapta a esse comportamento: 
a expresso foi cunhada por Adler [1910] com a inteno de proclamar este fator como o responsvel pelas neuroses em geral. Durante essa fase, as meninas, geralmente, 
no fazem segredo de sua inveja, nem da hostilidade para com seus irmos favoritos dela decorrente. Tentam at urinar de p, como seus irmos, a fim de provar a 
igualdade a que aspiram. No caso j descrito [ver em [1]] no qual a mulher costumava mostrar, depois da relao sexual, uma agressividade incontrolvel dirigida 
contra o marido, que alis amava, consegui provar que essa fase existira antes da fase da escolha de objeto. S mais tarde, foi a libido da menina dirigida para 
seu pai e, ento, em vez de desejar ter um pnis, desejou - um filho.
         No deveria me surpreender se, em outros casos, a ordem em que esses impulsos ocorreram fosse invertida e essa parte do complexo de castrao s se tornasse 
efetiva depois que a escolha de objeto se houvesse realizado com xito. Mas a fase masculina na menina, na qual ela inveja o menino por seu pnis , em qualquer 
caso, desenvolvimentalmente a anterior e est mais prxima do narcisismo original do que o objeto de amor.
         H algum tempo tive a oportunidade de obter a compreenso (insight) atravs de um sonho de uma mulher recm-casada, em que era reconhecvel a reao  perda 
de sua virgindade. Delatava, espontneamente, o desejo da mulher de castrar seu jovem marido e guardar o pnis dele para ela. Evidentemente, tambm havia lugar para 
uma interpretao mais inocente de que o que ela desejava era o prolongamento e a repetio do ato, mas vrios pormenores do sonho no se enquadradavam nesse significado 
e, tanto o carter como o comportamento subseqente da mulher que teve o sonho evidenciaram em favor do aspecto mais grave. Por trs dessa inveja do pnis, manifesta-se 
a amarga hostilidade da mulher contra o homem, que nunca desaparece completamente nas relaes entre os sexos e que est claramente indicada nas lutas e na produo 
literria das mulheres `emancipadas'. Em uma especulao paleobiolgica, Ferenczi atribuiu a origem dessa hostilidade das mulheres - no sei se foi ele o primeiro 
a faz-lo -  poca em que os sexos se tornavam diferenciados. A princpio, em sua opinio, a cpula realizou-se entre dois indivduos semelhantes, um dos quais, 
no entanto, transformou-se no mais forte e forou o mais fraco a se submeter  unio sexual. Os sentimentos de amargura decorrentes dessa sujeio ainda persis-tem 
na disposio das mulheres hoje em dia. No creio que haja qualquer inconveniente em utilizar essa especulaes desde que no se empreste a elas demasiado valor.
         Depois desta enumerao dos motivos da reao paradoxal das mulheres ao defloramento, cujos traos ainda persistem na frigidez, podemos resumir dizendo 
que a sexualidade imatura de uma mulher descarrega-se no homem que primeiro lhe faz conhecer o ato sexual. Assim sendo, o tabu da virgindade  bastante razovel 
e podemos compreender a regra que decreta que exatamente o homem que deve ingressar numa vida em comum com essa mulher evite esse perigos. Nos estgios mais altos 
da civilizao, a importncia atribuda a esse perigo diminui em face de sua promessa de sujeio e, sem dvida, de outros motivos e persuases; a virgindade  considerada 
uma propriedade a que o marido no  solicitado a renunciar. Mas, a anlise de casamento infelizes nos ensina que os motivos que procuram levar a mulher a se vingar 
do seu defloramento no esto completamente extintos, mesmo na vida psquica das mulheres civilizadas. Creio que deve chamar a ateno do observador o nmero extraordinariamente 
elevado de casos em que a mulher permanece frgida e se sente infeliz em um primeiro casamento, ao passo que, depois que este se dissolveu, ela se torna uma esposa 
meiga, capaz de fazer feliz o seu segundo marido. A reao arcaica esgotou-se, por assim dizer, no primeiro objeto.
         O tabu da virgindade, no entanto, mesmo independentemente disto, no desapareceu em nossa existncia civilizada.  conhecido da crena popular e oportunamente 
os escritores tm-se utilizado desse material. Uma comdia da autoria de Anzengruber mostra como um simples campons  dissuadido de casar com sua noiva pretendida 
porque ela  `uma rapariga que lhe cobrar primeiro a vida'. Por esse motivo, ele concorda em que ela case com outro homem e est disposto a aceit-la quando ficar 
viva e no for mais perigosa. O ttulo da pea, Das Jungferngift [`O Veneno da Virgem'], traz-nos  lembrana o hbito dos encantadores de serpentes que, primeiro, 
fazem as cobras venenosas morderem um pedao de pano a fim de, depois, lidarem com elas sem perigo. 
         
         O tabu da virgindade, e alguma coisa sobre sua motivao, foi representado, da maneira mais vigorosa, por uma conhecida caracterizao dramtica, a de Judite, 
na tragdia de Hebbel, Judith und Holofernes (Judite e Holofernes), Judite  uma dessas mulheres cuja virgindade  protegida por um tabu. Seu primeiro marido foi 
paralisado na noite nupcial por uma misteriosa ansiedade e nunca mais ousou toc-la. `Minha beleza  como a beladona', diz ela `Seu deleite traz a loucura e a morte.' 
Quando o general assrio est cercando sua cidade, ela concebe o plano de seduzi-lo com sua beleza e de destru-lo, usando assim um motivo patritico, para esconder 
outro, sexual. Depois de haver sido deflorada por esse homem poderoso, que se gaba de seu vigor e de sua insensibilidade, ela encontra foras em sua fria para lhe 
cortar a cabea, tornando-se assim a libertadora de seu povo. A decapitao  nossa conhecida como smbolo substituto da castrao; Judite , assim, a mulher que 
castra o homem que a deflorou, o que constitui justamente o desejo da mulher recm-casada, expresso no sonho que comuniquei.  claro que Hebbel sexualizou intencionalmente 
a narrativa patritica do Apcrifo do Velho Testamento, pois, nela, Judite pode se gabar, depois ao voltar, que no foi violada, e nem existe no texto bblico qualquer 
meno de sua misteriosa noite nupcial. Mas, provavelmente, com a fina percepo de poeta, ele percebeu o velho motivo, que se havia perdido na narrativa tendenciosa, 
e apenas restituiu seu primitivo contedo ao material.
         Sadger (1912) demonstrou, em uma anlise penetrante, como Hebbel foi influenciado em sua escolha do material por seu prprio complexo paterno, e como chegou 
a tomar a defesa da mulher to freqentemente, na luta entre os sexos, e a sentir seu caminho nos impulsos mais ocultos de sua mente. Ele tambm transcreve os motivos 
que o prprio poeta d para as alteraes que fez no material, e corretamente considera-as artificiais e como se pretendessem justificar exteriormente algo de que 
o poeta, ele prprio, no tem conscincia, ao passo que no fundo o esconde. No pretendo contestar a explicao que Sadger d ao fato de Judite, que segundo a narrativa 
da Bblia  uma viva, ter de se transformar em uma viva virgem. Ele se refere  finalidade encontrada nas fantasias infantis de negar as relaes sexuais dos pais 
e de transformar a me em uma virgem ilesa. Mas eu acrescento: depois que o poeta provou a virgindade de sua herona, sua sensvel imaginao frisa-se na reao 
hostil desencadeada pela violao de sua virgindade.
         Podemos ento dizer, em concluso, que o defloramento no tem apenas a nica e civilizada conseqncia de amarrar a mulher permanentemente ao homem; desencadeia, 
tambm, a reao arcaica de hostilidade para com ele, que pode assumir formas patolgicas, bastante freqentemente expressas no aparecimento de inibies no lado 
ertico da vida marital, e s quais poderemos atribuir o fato de que segundos casamentos tantas vezes dem mais certo que o primeiro. O tabu da virgindade, que nos 
parece to estranho, o horror com que, entre os povos primitivos, o marido evita o ato do defloramento, so plenamente justificados por essa reao hostil.
          interessante que, em nossa condio de analista, possamos encontrar mulheres em quem as reaes opostas de sujeio e hostilidade encontrem, ambas, expresso 
e permaneam intimamente associadas entre si. H mulheres dessa espcie que parecem ter-se desavindo completamente com seus maridos e que mesmo assim s podem fazer 
esforos vos para se libertar. Tantas vezes quantas queiram enderear seu amor a qualquer homem, a imagem do primeiro, conquanto no seja mais amado, intervm com 
efeito inibitrio. A anlise, portanto, nos ensina que essas mulheres, de fato, ainda se sentem ligadas a seus primeiros maridos em estado de sujeio, mas no mais 
por afeio. No se podem afastar deles, porque ainda no completaram sua vingana contra eles e, em casos mais acentuados, nem mesmo trouxeram os impulsos de vingana 
para a conscincia. 
         
         
         
         
















A CONCEPO PSICANALTICA DA PERTURBAO PSICOGNICA DA VISO (1910)
         
         
         DIE PSYCHOGENE SEHSTRUNG IN
         PSYCHOANALYTISCHER AUFFASSUNG
         
         (a)   EDIES ALEMES:
         1910   rziliche Fortbildung, suplemento de de rztiliche Standeszeitung, 9, (9), 42-4 (1 de maio).
         1913   S.K.S.N., 3, 314-21. (2 ed., 1921.)
         1924   G.S., 5, 301-9.
         1943   G.W., 8, 94-102.
         (b)   TRADUO INGLESA:
         `Psychogenic Visual Disturbance according to Psycho-Analytical Conceptions'
         1924   C.P., 2, 105-12. (Trad. E. Colburn Mayne.)
         A atual traduo inglesa, com o ttulo diferente, `The Psicho-Analytic View of Psychogenic Disturbance of Vision',  completamente nova, feita por James 
e Alex Strachey.
         Este trabalho  uma contribuio a uma Festschrift em homenagem a Leopold Knigstein, conhecido oftamologista vienense e um dos mais antigos amigos de Freud. 
Descreveu-o, em carta a Ferenczi, escrita em 12 de abril de 1910, como sendo simplesmente uma pice d'ocassion, sem nenhum valor (Jones, 1955, 1955, 274). Contm, 
no entanto, pelo menos uma passagem de interesse muito especial. Pois foi nele que pela primeira vez empregou o termo `instintos do ego', identificou-os, explicitamente, 
com os instintos de autopreservao e atribui-lhes papel vital na funo da represso. Certas considerao a respeito do desenvolvimento das concepes de Freud 
sobre os instintos ser encontrada na Nota do Editor a `Instincts and their Vicissitudes' (Os Intintos e suas Vicissitudes) (1915c), volume XIV da Standard Ed. Tambm 
vale a pena notar que nos ltimos pargrafos deste trabalho (ver a partir de [1]). Freud expressa, com firmeza especial, sua convico de que os fenmenos psquicos 
se baseiam definitivamente nos fsicos.
         
         NOTA DO EDITOR BRASILEIRO
         
         A presente traduo brasileira  da autoria de Paulo Dias Corra (Presidente da Sociedade Brasileira de Psicoterapia de Grupo do Rio de Janeiro. Membro-Associado 
da Sociedade Brasileira de Psicanlise do Rio de Janeiro).
         
         
         
         A CONCEPO PSICANALTICA DA PERTURBAO PSICOGNICA DA VISO
         
         SENHORES, - Proponho tomar o exemplo da perturbao psicognica da viso a fim de lhes mostrar as modificaes que se operam em nossa concepo da gnese 
dos distrbios dessa espcie, sob a influncia dos mtodos de investigao psicanaltica. Como sabem, a cegueira histrica  considerada um tipo de perturbao psicognica 
visual. Acredita-se, de modo geral, como resultado das pesquisas da Escola Francesa (inclusive homens da categoria de Charcot, Janet e Binet), que a gnese desses 
casos j  conhecida. Pois estamos em condies de provocar, experimentalmente, uma cegueira dessa espcie, se dispusermos de algum susceptvel ao sonambulismo. 
Se o submetermos a hipnose profunda e lhe sugerirmos a idia de que ele nada v com um de seus olhos, ele realmente se comportar como se tivesse ficado cego daquele 
olho, como o histrico que, espontaneamente, desenvolveu uma perturbao visual. Podemos, portanto, armar o mecanismo das perturbaes histricas, espontneas, da 
viso, baseados apenas no modelo de sugesto hipntica. No histrico, a idia de estar cego surge, no da insinuao do hipnotizador, mas espontaneamente - pela 
auto-sugesto, como se diz; e em ambos os casos, a idia  to poderosa que se converte em realidade, exatamente como uma alucinao ou paralisia etc., sugerida.
         Isto parece perfeitamente lgico e satisfar qualquer pessoa que no leve em considerao os numerosos enigmas que se escondem por trs dos conceitos da 
hipnose, da sugesto e da auto-sugesto. A auto-sugesto, em particular, levanta outras dvidas. Como e em que condies torna-se uma idia to poderosa a ponto 
de atuar como sugesto e de se converter facilmente em realidade? Uma investigao mais aprofundada nos revelou que no podemos responder a essa pergunta sem nos 
valermos do concurso do conceito de `inconsciente'. Muitos filsofos rebelam-se contra a admisso de um inconsciente mental dessa natureza, porque no tomaram conhecimento 
dos fenmenos que nos obrigam a tal admisso. Os psicopatologistas chegaram  concluso de que no podem evitar trabalhar com elementos tais como processos psquicos 
inconscientes, idias inconcientes e assim por diante.
         Experincias apropriadas demonstraram que as pessoas que ficam cegas em virtude de histeria vem, no obstante, em certo sentido, mas no completamente. 
As excitaes no olho cego podem provocar certas conseqncia psquicas (por exemplo, podem provocar emoes) muito embora no se tornem conscientes. Assim, as pessoas 
histericamente cegas s o so no que diz respeito  conscincia; em seu inconsciente elas vem. So observaes como estas que nos levam a distinguir os processos 
mentais conscientes dos inconscientes.
         Como podem essas pessoas desenvolver a `auto-sugesto' inconsciente de que esto cegas, quando, no obstante, vem em seu inconsciente? A resposta apresentada 
pelas pesquisas francesas pretende explicar que, nos pacientes predispostos  histeria, h uma tendncia inerente  dissociao - a uma desagregao das conexes 
em seu campo psquico - em conseqncia da qual certos processos inconscientes no prosseguem at o consciente. Deixamos de lado, completamente, o valor que essa 
tentativa de explicao possa ter no que diz respeito  compreenso dos fenmenos em questo, e encaremos o problemas de outro ngulo. Como vem, senhores, a identidade 
da cegueira histrica com a cegueira provocada pela sugesto, a que a princpio se deu tanta importncia, foi agora descartada. O paciente histrico fica cego, no 
em conseqncia de uma idia auto-sugestiva de que ele no pode ver, mas como resultado de uma dissociao entre os processos inconscientes e conscientes no ato 
de ver; sua idia de que no v  a expresso bem fundada da condio psquica e no sua causa.
         Mas, se os senhores se queixarem da obscuridade desta exposio, no me ser fcil defend-la. Procurei dar-lhes uma sntese dos conceitos de diferentes 
pesquisadores e, ao faz-lo, talvez os tenha associado muito intimamente. Desejei condensar em forma sinttica todos os conceitos apresentados, a fim de tornar inteligvel 
as perturbaes psicognicas - sua origem das idias excessivamente poderosas, a diferena entre processos mentais conscientes e inconscientes e a admisso de dissociao 
psquica. E no fui mais bem-sucedido, em minha tentativa, do que o foram os escritores franceses, encabeados por Pierre Janet. Espero, portanto, que me perdoem 
no s a falta de clareza como a inexatido da minha exposio e que me permitam explicar-lhes como a psicanlise nos levou a uma concepo das perturbaes psicognicas 
da viso mais lgica e, talvez, mais de acordo com os fatos.
         A psicanlise tambm aceita as hipteses da dissociao e do inconsciente, porm as relacionamos de modo mutuamente diferente. O conceito psicanaltico 
 dinmico e atribui a origem da vida psquica a uma interao entre foras que favorecem ou inibem uma  outra. Se, em qualquer circunstncia, um grupo de idias 
permanece no inconsciente, a psicanlise no infere desse fato, de que h uma incapacidade constitucional para a sntese que se evidencia nessa determinada dissociao, 
mas sustenta que o isolamento e o estado de inconscincia desse grupo de idias foram causados por uma oposio ativa de parte de outros grupos. O processo, devido 
ao qual teve esse destino,  conhecido como `represso' e o consideramos algo anlogo a um julgamento condenatrio nos domnios da lgica. A psicanlise ressalta 
que as represses dessa espcie desempenham um papel extraordinariamente importante em nossa vida psquica, mas que podem tambm, muitas vezes, falhar e que essas 
falhas da represso constituem a precondio da formao de sintomas.
         Ento, se, como aprendemos, as perturbaes psicognicas da viso dependem de certas idias relacionadas com a viso ser suprimida da conscincia, teremos 
de admitir, do ponto de vista psicanaltico, que essas idias entraram em oposio a outras idias, mais poderosas, em relao s quais adotamos o conceito coletivo 
do `ego' - um conjunto que  constitudo de maneira heterognea, em pocas diferentes - e, por esse motivo, se encontram sob represso. Mas qual pode ser a origem 
dessa oposio que provoca a represso entre o ego e os vrios grupos de idias? Sem dvida tero notado que no foi possvel elaborar essa pergunta antes do advento 
da psicanlise, pois nada se sabia anteriormente a respeito de conflito psquico e represso. Nossas pesquisas, no entanto, nos colocaram em posio de nos dar a 
resposta desejada. Nossa ateno foi atrada para a importncia dos instintos na vida ideacional. Descobrimos que cada instintos procura tornar-se efetivo por meio 
de idia ativantes que estejam em harmonia como seus objetivos. Estes instintos nem sempre so compatveis entre si; seus interesses amide entram em conflito. A 
oposio entre as idias  apenas uma expresso das lutas entre os vrios instintos. Do ponto de vista de nossa tentativa de explicao, uma parte extremamente importante 
 desempenhada pela inegvel oposio entre os instintos que favorecem a sexualidade, a consecuo da satisfao sexual, e os demais instintos que tm por objetivo 
a autopreservao do indivduo - os instintos do ego.
         
         Como disse o poeta, todos os instintos orgnicos que atuam em nossa mente podem ser classificados como `fome' ou `amor'. Delineamos o `instinto sexual' 
desde suas primeiras manifestaes nas crianas, at sua forma final, que  descrita como `normal'. Descobrimos que  constitudo por numerosos `instintos componentes' 
que se relacionam com as excitaes de partes do corpo; e chegamos a observar que esse instintos separados tm de passar por um desenvolvimento complicado, antes 
de poderem servir eficazmente aos objetivos da reproduo. A luz projetada pela psicologia sobre a evoluo de nossa civilizao mostrou-nos que ela se origina, 
principalmente,  custa dos instintos sexuais componentes e que estes tm de ser suprimidos, restringidos, transformados e dirigidos para objetivos mais elevados, 
a fim de que de que se possam estabelecer as construes psquicas da civilizao. Conseguimos reconhecer como um resultado valioso dessa pesquisa algo que nossos 
colegas ainda no esto prontos para aceitar, isto , que os padecimentos humanos conhecidos como `neuroses' se derivam das maneiras muito diversas em que esses 
processos de transformao dos instintos sexuais componentes podem malograr. O `ego' sente-se ameaado pelas exigncias dos intintos sexuais e os desvia atravs 
de represses; estas, no entanto, nem sempre produzem o resultado esperado, mas levam  formao de substitutos perigosos para o reprimido e a reaes incmodas 
por parte do ego. Dessas duas classes de fenmenos, tomadas como um todo, emergem o que chamamos os sintomas da neurose.
         Desviamos-nos aparentemente de nosso problema, muito embora ao faz-lo, tenhamos tocado na maneira pela qual as condies patolgicas da neurose se relacionam 
como nossa vida psquica em geral. Retornemos, porm,  questo mais restrita. Tanto os instintos sexuais como os instintos do ego, tm, em geral, os mesmos rgos 
e sistemas de rgos  sua disposio. O prazer sexual no est apenas ligado  funo dos genitais. A boca serve tanto para beijar como para comer e para falar; 
os olhos percebem no s alteraes no mundo externo, que so importantes para a preservao da vida, como tambm as caractersticas dos objetos que os fazem ser 
escolhidos como objetos de amor - seus encantos. Confirma-se, assim, o adgio segundo o qual no  fcil para algum servir a dois senhores ao mesmo tempo. Quanto 
mais estreita a relao em que um rgo, uma funo dupla desta espcie, contra com um dos principais instintos, tanto mais ele se retrai do outro. Este princpio 
no pode deixar de provocar conseqncias patolgicas, caso os dois intintos fundamentais estejam desunidos e caso o ego mantenha a represso do instinto sexual 
componente em questo. Isto pode ser facilmente aplicados ao olho e  viso. Suponhamos que o instinto sexual componente que se utiliza do olhar - o prazer sexual 
em olhar em olhar - o prazer sexual em olhar [escoptofilia] - atraiu sobre si a ao defensiva dos intintos do ego, em conseqncia de suas exigncias excessivas, 
de maneira que as idias atravs das quais seus desejos se expressam sucumbam  represso e sejam impedidas de se tornar conscientes; nesse caso haver uma perturbao 
geral da relao do olho e do ato de ver com o ego e a conscincia. O ego perderia seu domnio sobre o rgo, que ficaria, ento, totalmente  disposio do instintos 
sexual reprimido.  como se a represso houvesse sido exagerada pelo ego, como se tivesse despejado a criana com a gua do banho: o ego se recusa a ver outra coisa 
qualquer, agora que o interesse sexual em ver se tornou to predominante. Mas o quadro alternativo parece mais importante. Este atribui o papel ativo em vez disso 
ao prazer reprimido de ver. O instinto reprimido vinga-se por ter sido impedido de maior expanso psquica, tornando-se capaz de ampliar seu domnio sobre o rgo 
que est a seu servio. A perda do domnio consciente sobre o rgo  o substituto prejudicial para a represso que malogrou e que s se tornou possvel a esse preo.
         Essa relao de um rgo com uma dupla exigncia sobre ele - sua relao com o ego consciente e com a sexualidade reprimida - pode ser encontrada de maneira 
ainda mais evidente nos rgos motores do que no olho: como, por exemplo, a mo que procurou executar um ato de ataque sexual ed ficou paralisada histericamente 
 incapaz, depois da inibio do ato, de fazer outra coisa - como se estivesse insistindo obstinadamente em efetuar uma enervao reprimida; ou como os dedos de 
pessoas que renunciaram  masturbao se recusam a aprender os movimentos delicados indispensveis para tocar piano ou violino. Quanto ao olho, estamos acostumados 
a interpretar os obscuros processos psquicos implicados na represso da escoptofilia sexual e no desenvolvimento da perturbao psicognica da viso, como se uma 
voz punitiva estivesse falando de dentro do indivduo e dizendo: `Como voc tentou utilizar mal seu rgo para prazeres sensuais perversos,  justo que voc nunca 
mais veja nada', e como se, desta maneira, estivesse aprovando o resultado do processo. A idia da pena de talio est implcita nisto e, de fato, nossa explicao 
da perturbao visual psicognica coincide com o que sugerem os mitos e as lendas. A bela lenda de Lady Godiva nos conta como todos os habitantes da cidade se esconderam 
por trs de suas venezianas fechadas, a fim de tornar mais fcil a tarefa da senhora de cavalgar nua pelas ruas, em pleno dia, e como o nico homem que espreitou 
pelas venezianas os seus encantos descobertos foi punido com a cegueira. E este no  o nico exemplo que sugere que a enfermidade neurtica tambm possui a chave 
secreta da mitologia.
         Senhores, a psicanlise  injustamente acusada de apresentar teorias puramente psicolgicas para problema patolgicos. A nfase que ela coloca no papel 
patognico da sexualidade, que, afinal, no  certamente um fator exclusivamente psquico, deveria por si prpria defend-la contra essa acusao. Os psicanalistas 
nunca se esquecem de que o psquico se baseia no orgnico, conquanto seu trabalho s os possa conduzir at essa base e no alm. A psicanlise est, portanto, pronta 
a admitir, e mesmo a postular, que nem todas as perturbaes da viso devem ser psicognicas, como as que so provocadas pela represso da escoptofilia ertica. 
Se um rgo que serve a duas espcie de instintos aumenta seus papel ergeno,  de se esperar, em geral, que tal no ocorra sem a excitabilidade e a inervao do 
rgo, passivo das alteraes que se manifestaro na forma de perturbao de suas funes a servio do ego. De fato, se descobrirmos que um rgo que serve normalmente 
 finalidade da percepo sensorial comea a se comportar como um genital real quando se intensifica seu papel ergeno, no nos parecer improvvel que nele tambm 
estejam ocorrendo alteraes txicas. Na falta de outra melhor, temos de conservar a velha e inadequada expresso, perturbaes `neurticas' para as duas classes 
de perturbaes funcionais - as de origem fisiolgica e as de origem txica - que decorrem do aumento do fator ergeno. De maneira geral, as perturbaes neurticas 
da viso apresentam a mesma relao com as psicognicas que as `neuroses atuais' tm com as psiconeuroses: as perturbaes visuais psicognicas, sem dvida, dificilmente 
se manifestam sem as neurticas, porm estas ltimas podem surgir sem as primeiras. Estes sintomas neurticos, infelizmente, so pouco reconhecidos e compreendidos, 
mesmo hoje em dia; porque no so diretamente acessveis  psicanlise e, alm disso, outros mtodos de pesquisa no levaram em considerao o ponto de vista da 
sexualidade.
         H ainda mais uma linha de pensamento que se estende aos ramos da pesquisa orgnica provenientes da psicanlise. Podemos indagar de ns mesmos se a supresso 
dos instintos sexuais componentes, que  determinada por influncias do ambiente,  suficiente, em si mesma, para provocar perturbaes funcionais nos rgos, ou 
se devem estar presentes condies constitucionais especiais, para que os rgos sejam levados  exagerao de seu papel ergeno;, procurando, conseqentemente, 
a represso dos instintos. Teramos de observar essas condies como a parte constitucional da disposio para adoecer de perturbaes psicognicas e neurticas. 
Este  o fator ao qual, quando aplicado a histeria, dei o nome provisrio de `submisso somtica'.
         
         
         
         




























PSICANLISE SILVESTRE (1910)
         
         BER WILDE PSYCHOANALYSE
         
         (a)   EDIES ALEMS:
         1910   Zbl. Psychoan., 1 (3), 91-5.
         1913   S.K.S.N., 3, 299-305. (2 ed. 1921.)
         1924   Technik und Metapsychol., 37-44.
         1924   G.S., 6, 37-44.
         1943   G.W., 8, 118-25.
         (b)   TRADUO INGLSAS:
         'Concerning "Wild" Psychoanalysis'
         1912   S.P.H., (2 ed.), 201-6. (Trad. A.A. Brill.) (3 ed. 1920.)
         'Observations on "Wild" Psycho-Analysis'
         1924   C.P., 2, 297-304. (Trad. Joan Riviere.)
         A presente traduo inglesa, com o ttulo modificado ' "Wild" Psycho-Analysis' baseia-se na publicada em 1924.
         O tema essencial deste artigo (publicado em dezembro de 1910) j tinha sido tratado por Freud, cerca de seis anos antes, numa conferncia sobre psicoterapia 
(1905a), ver em [1]. Alm de seu tema principal, o artigo  digno de ateno por conter uma das raras ltimas aluses de Freud s 'neuroses atuais', aliada ao lembrete 
da importncia de se distinguir a neurose de angstia da histeria da angstia (ver a partir de [2]).
         
         NOTA DO EDITOR BRASILEIRO
         
         A presente traduo brasileira  da autoria de Paulo Dias Corra (Presidente da Sociedade Brasileira de Psicoterapia de Grupo do Rio de Janeiro, Membro-Associado 
da Sociedade Brasileira de Psicanlise do Rio de Janeiro, Membro da Associao Psiquitrica do Rio de Janeiro).
         
         PSICANLISE SILVESTRE
         
         H POUCOS dias, uma dama de meia-idade, sob a proteo de uma amiga, veio  minha consulta, queixando-se de estados ansiosos. Ela estava na segunda metade 
de sua dcada dos quarenta, razoavelmente bem conservada e, obviamente, no tinha ainda encerrado a sua condio de mulher. A causa precipitante da irrupo de seus 
estados ansiosos fora o divorciar-se de seu ltimo marido; mas a ansiedade tinha-se tornado consideravelmente mais intensa, conforme seu relato, desde que consultara 
um jovem mdico no subrbio onde morava, porque ele a havia informado de que a causa de sua ansiedade era a sua falta de satisfao sexual. Disse-lhe que ela no 
poderia tolerar a falta de relaes sexuais com o marido e, assim, havia apenas trs maneiras pelas quais ela poderia recuperar a sade - ela devia ou voltar para 
o marido, ou ter um amante, ou obter satisfao consigo mesma. Desde ento, tinha ela estado convencida de que era incurvel, pois no voltaria para o marido, e 
as outras duas alternativas eram repugnantes aos seus sentimentos morais e religiosos. Tinha vindo a mim, todavia, porque o mdico dissera que esta era uma nova 
descoberta pela qual eu era responsvel, e que ela teria apenas de vir e me solicitar que confirmasse o que ele lhe dissera, e eu falaria que esta e nada mais era 
a verdade. A amiga que estava com ela, uma mulher mais velha, ressequida e de aspecto doentio, implora-me ento que assegure  paciente que o mdico estava enganado; 
no era possvel que fosse verdade, porque ela prpria tinha ficado viva h muitos anos e permanecia apesar disso respeitvel, sem sofrer de ansiedade.
         No me deterei na desconcertante situao em que estive colocado por esta consulta, mas considerarei ao invs a conduta do clnico que enviou esta senhora 
a mim. Primeiro, no entanto, suportemos uma restrio mental que talvez possa no ser suprflua - em verdade, assim o esperamos. Longos anos de experincia me ensinaram 
- como podem ensinar a qualquer outro - a no aceitar de imediato como verdade o que os pacientes, especialmente os pacientes nervosos, relatam acerca de seus mdicos. 
No apenas facilmente se torna o especialista em doenas nervosas o objeto de muitos dos sentimentos hostis de seus pacientes, qualquer que seja o mtodo de tratamento 
que empregue; ele deve tambm, muitas vezes, resignar-se a aceitar, por uma espcie de projeo, a responsabilidade pelos desejos reprimidos ocultos de seus pacientes 
nervosos.  um fato melanclico, mas significativo, que tais acusaes em nenhum outro lugar encontrem crdito mais prontamente do que entre os outros mdicos.
         Tenho, por conseguinte, razo para esperar que essa dama me forneceu uma narrao tendenciosamente distorcida do que seu mdico havia dito, e que fao a 
um homem, que me  desconhecido, uma injustia, por vincular minhas observaes acerca da psicanlise 'silvestre' com esse incidente. Mas, ao fazer isso, talvez 
eu possa evitar que outros causem dano a seus pacientes.
         Suponhamos, pois, que o doutor falou  paciente exatamente como aludiu. Qualquer pessoa adiantaria imediatamente a crtica de que, se um mdico julga necessrio 
discutir a questo da sexualidade com uma mulher, ele deve fazer isso com tato e considerao. Submeter-se a esta exigncia, todavia, coincide com a prtica de certas 
regras tcnicas de psicanlise. Ademais, o mdico em questo ignorou certo nmero das teorias cientficas de psicanlise ou as apreendeu mal, e assim mostrou quo 
pouco ele havia penetrado na compreenso da natureza e finalidade dela.
         Comecemos pelos ltimos, os erros cientficos. O conselho do doutor  dama mostra claramente em que sentido ele entende a expresso 'vida sexual' - no sentido 
popular, ou seja, em que por necessidades sexuais nada se significa seno a necessidade do coito ou de atos anlogos produtores de orgasmo e emisso das substncias 
sexuais. Ele no deve ter ficado esquecido, no entanto, de que a psicanlise  comumente censurada por haver estendido o conceito do que  sexual muito alm de sua 
posio vulgar. O fato  incontestvel; no discutirei aqui se ele pode ser judiciosamente usado como um reproche. Em psicanlise, o conceito do que  sexual abrange 
bem mais; ele vai mais abaixo e tambm mais acima do que seu sentido popular. Essa extenso se justifica geneticamente; ns reconhecemos como pertencentes  'vida 
sexual' todas as atividades dos sentimentos ternos que tm os impulsos sexuais primitivos como fonte, mesmo quando esse impulsos se tornaram inibidos com relao 
a seu fim sexual original, ou tiveram de trocar esse fim por outro que no  mais sexual. Por essa razo, preferimos falar em psicossexualidade, colocando assim 
nfase sobre o ponto de que o fator mental na vida sexual no deve ser desdenhado ou subestimado. Usamos a palavra 'sexualidade' no mesmo sentido compreensivo que 
aquele em que a lngua alem usa a palavra lieben ['amar']. Temos desde muito sabido tambm que a ausncia mental de satisfao, com todas as sua conseqncias, 
pode existir quando no h falta de relaes sexuais normais; e, como terapeutas, sempre temos em mente que as tendncias sexuais insatisfeitas (cujas satisfaes 
substitutivas na forma de sintomas nervosos ns combatemos) podem amide encontrar apenas uma derivao muito inadequada no coito ou em outros atos sexuais.
         Quem quer que no partilhe desde ponto de vista de psicossexualidade no tem o direito de expor teses psicanalticas tratando da importncia etiolgica 
da sexualidade. Ao acentuar exclusivamente o fator somtico da sexualidade, ele, sem dvida, simplifica grandemente o problema, mas ele apenas dever carregar a 
responsabilidade por aquilo que ele faz.
         Uma segunda e igualmente grande incompreenso se distingue por trs do conselho do mdico.
          verdade que a psicanlise apresenta a ausncia de satisfao sexual como a causa de distrbios nervosos. Mas no diz ela mais do que isso? Deve-se ignorar 
seu ensinamento por ser assaz complicado quando ela afirma que os sintomas nervosos se originam de um conflito entre duas foras - de um lado a libido (que, de regra, 
se torna excessiva) e de outro uma rejeio da sexualidade ou uma represso que  sobremodo intensa? Ningum que se recorde desde segundo fator, que no  de modo 
algum secundrio, em importncia, jamais poder acreditar que a satisfao sexual, s por si, constitua um remdio de universal eficcia para os sofrimentos dos 
neurticos. Um bom nmero nessas pessoas, de fato, tanto em suas circunstncias presentes, como de um modo geral, no  capaz de se satisfazer. Se o fosse, se estivessem 
livres de suas resistncias internas, a fora do prprio instinto lhes indicaria o caminho da satisfao, ainda que nenhum mdico o aconselhasse. Qual o benefcio, 
pois, de conselho mdico tal como o que se admite tenha sido dado a esta senhora?
         Ainda que ele pudesse cientificamente se justificar, este no  conselho que ela possa seguir. Se ela no tivesse tido resistncias internas contra a masturbao 
ou contra uma ligao amorosa, naturalmente que j teria adotado, de h muito, uma dessas medidas. Ser que o mdico acha que uma mulher com mais de quarenta anos 
no se d conta de que pode ter um amante ou ser que superestima ele tanto sua influncia a ponto de julgar que ela nunca chegaria a se decidir sobre tal passo 
sem aprovao mdica?
         Tudo isso parece muito claro, e no obstante deve-se admitir a existncia de um fator que, amide, torna difcil formar uma opinio. Certos estados nervosos 
que chamamos de 'neuroses atuais', tais como a neurastenia tpica e a neurose de angstia simples, obviamente dependem do fator somtico da vida sexual, enquanto 
no temos, at agora, um quadro ntido do papel neles desempenhado pelo fator psquico e pela represso. Em tais casos,  natural que o mdico deva considerar primeiro 
certa teraputica 'atual', certa alterao da atividade sexual somtica da paciente, e ele assim o faz com plena justificativa se o seu diagnstico estiver certo. 
A dama que consultou o jovem doutor queixava-se, sobretudo, de estado de ansiedade e, assim, ele provavelmente sups que ela vinha sofrendo de uma neurose de angstia, 
e se sentiu justificado em recomendar-lhe uma teraputica somtica. Outra vez uma cmoda incompreenso! Uma pessoa padecendo de ansiedade no est por essa razo 
necessariamente sofrendo de neurose de angstia; semelhante diagnstico no se pode fundamentar sobre a designao [do sintoma]; tem-se de saber que sinais constituem 
uma neurose de angstia e ser capaz de distingui-la de outros estados patolgicos que tambm se manifestam por ansiedade. Minha impresso foi que a dama em causa 
estava sofrendo de Histeria de angstia, e todo o valor de tais distines nosogrficas - um que perfeitamente as justifica - est no fato de que elas indicam uma 
etiologia diferente e um tratamento diferente. Ningum que levasse em considerao a possibilidade de histeria de angstia nesse caso teria cado no erro de negligenciar 
os fatores mentais, como este mdico fez com suas trs alternativas.
         Estranhamente bastante, as trs alternativas teraputicas desse assim chamado psicanalista no deixam lugar para a... psicanlise! Esta mulher, aparentemente, 
s se podia curar de sua ansiedade pela volta do marido, ou pela satisfao de suas necessidades atravs da masturbao ou com um amante. E onde entra o tratamento 
analtico, tratamento que consideramos o remdio principal dos estados de ansiedade?
         Isto nos conduz aos erros tcnicos que se vem no comportamento do doutor neste caso citado.  idia h muito superada, e que se funda em aparncia superficiais, 
a de que o paciente sofre de uma espcie de ignorncia, e que se algum consegue remover esta ignorncia dando a ele a informao (acerca da conexo causal de sua 
doena com sua vida, acerca de suas experincia de meninice, e assim por diante) ele deve recuperar-se. O fator patolgico no  esse ignorar propriamente, mas estar 
o fundamento dessa ignorncia em suas resistncias internas; foram elas que primeiro produziram esse ignorar e elas ainda o conservam agora. A tarefa do tratamento 
est no combate a essas resistncias. O informar ao paciente aquilo que ele no sabe porque ele reprimiu  apenas um dos preliminares necessrios ao tratamento. 
Se o conhecimento acerca do inconsciente fosse to importante para o paciente, como as pessoas sem experincia de psicanlise imaginam, ouvir conferncias ou ler 
livros seria suficiente para cur-lo. Tais medidas, porm, tm tanta influncia sobre os sintomas da doena nervosa, como a distribuio de cardpios numa poca 
de escassez de vveres tem sobre a fome. A analogia vai mesmo alm de sua aplicao imediata; pois, informar o paciente sobre seu inconsciente redunda, em regra, 
numa intensificao do conflito nele e numa exacerbao de seus distrbios.
         De vez, no entanto, que a psicanlise no pode abster-se de dar essa informao, prescreve que isto no se poder fazer antes que duas condies tenham 
sido satisfeitas. Primeiro, o paciente deve, atravs de preparao, ter alcanado ele prprio a proximidade daquilo que ele reprimiu e, segundo, ele deve ter formado 
uma ligao suficiente (transferncia) com o mdico para que seu relacionamento emocional com este torne uma nova fuga impossvel.
         Somente quando estas condies forem satisfeitas se torna possvel reconhecer e dominar as resistncias que conduziram  represso e  ignorncia. A interveno, 
portanto, requer de maneira absoluta um perodo bastante longo de contacto com o paciente. As tentativas de surpreend-lo na primeira consulta, inopinadamente lhe 
contando os segredos que foram descobertos pelo mdico, so tecnicamente inadmissveis. E elas, as mais das vezes, trazem sua prpria punio por produzirem uma 
franca inimizade pelo mdico da parte do paciente, e por impedi-lo de ter qualquer influncia ulterior.
         Ao lado de tudo isto, a gente pode algumas vezes fazer uma suposio errnea, e nunca se est numa posio de descobrir a verdade toda. A psicanlise fornece 
essas regras tcnicas definidas para substituir o indefinvel 'tato mdico' que se considera como um dom especial.
         No  bastante, pois, para um mdico saber alguns dos achados da psicanlise; ele deve tambm estar familiarizado com a tcnica se ele deseja que seu procedimento 
profissional se oriente por um ponto de vista psicanaltico. Esta tcnica no pode no entanto ser adquirida nos livros, e ela por certo no pode ser descoberta independentemente, 
sem grandes sacrifcios de tempo, de cansao e de sucesso. Como outras tcnicas mdicas, ela tem de ser aprendida com aqueles que j so experimentados nela.  tema 
de alguma significao, pois, ao formar um julgamento sobre o incidente que tomei como ponto de partida para estes comentrios, que no conheo o mdico que se supe 
ter dado semelhante conselho  dama e nunca ouvi falar em seu nome.
         Nem eu nem meus amigos e colaboradores achamos agradvel reclamar um monoplio desse modo no uso de uma tcnica mdica. Mas, em face dos perigos para os 
pacientes e para a causa da psicanlise inerentes  prtica que se pode antever de uma psicanlise 'silvestre', no tivemos outra escolha. Na primavera de 1910, 
fundamos uma International Psycho-Analytical Association (Associao Internacional de Psicanlise), a que seus membros declararam aderir, pela publicao de seus 
nomes, de maneira a serem capazes de repudiar a responsabilidade por aquilo que  feito pelos que no pertencem a ns e no entanto chamam a seu procedimento 'psicanlise'. 
Pois, em verdade, os analistas 'silvestres' desta espcie causam mais dano  causa da psicanlise do que aos pacientes individualmente. Tenho amide encontrado que 
um procedimento inepto desses, mesmo se a princpio produzia uma exacerbao da condio do paciente, conduzia a uma recuperao ao final. Nem sempre, mas muito 
amide. Quando ele j insultou bastante o mdico e se sente suficientemente distanciado de sua influncia, seus sintomas cedem, ou ele se decide a tomar alguma iniciativa 
que vai no caminho da recuperao. A melhoria final ento advm 'por si' ou  atribuda a certo tratamento totalmente neutro por algum outro doutor para quem o paciente 
tenha mais tarde se voltado. No caso da senhora cuja queixa contra seu mdico ouvimos, eu devia dizer que, apesar de tudo, o psicanalista 'silvestre' fez mais por 
ela do que alguma autoridade altamente respeitada que lhe tivesse dito que ela estava sofrendo de uma 'neurose vasomotora'. Ele forou a ateno dela para a verdadeira 
causa de seu distrbio, ou nessa direo, e no obstante toda a oposio dela, essa sua interveno no pode ter ficado sem resultados favorveis. Mas ele causou 
dano a si prprio e ajudou a intensificar as prevenes que os pacientes sentem, devido a suas resistncias afetivas naturais, contra os mtodos da psicanlise. 
E isto pode ser evitado.
         
         
         
         
         






BREVES ESCRITOS (1910)
         
         CONTRIBUIES PARA UMA DISCUSSO ACERCA DO SUICDIO
         
         I. OBSERVAES INTRODUTRIAS
         Senhores. Todos vs ouvistes com muita satisfao o arrazoado feito por um educador que no admitir que uma acusao injusta se levante contra a instituio 
que lhe  to cara. Mas eu sei que, de todo modo, no estais inclinados a dar fcil crdito  acusao de que as escolas impelem seus alunos ao suicdio. No nos 
deixemos levar demasiado longe, no entanto, por nossa simpatia pela parte que foi injustamente tratada nesse caso. Nem todos os argumentos apresentados pelo iniciador 
da discusso me parecem sustentveis. Se  o caso que o suicdio de jovens ocorre no s entre os aluno de escolas secundrias, mas tambm entre aprendizes e outros, 
este fato no absolve as escolas secundrias; isto deve talvez ser interpretado como significando que no, concernente a seus alunos, a escola secundria toma o lugar 
dos traumas com que outros adolescentes se defrontam em outras condies de vida. Mas uma escola secundria deve conseguir mais do que no impelir seus alunos ao 
suicdio. Ela deve lhes dar o desejo de viver e devia oferecer-lhes apoio e amparo numa poca da vida em que as condies de seu desenvolvimento os compelem a afrouxar 
seus vnculos com a casa dos pais e com a famlia. Parece-me indiscutvel que as escolas falham nisso, e a muitos respeitos deixam de cumprir seu dever de proporcionar 
um substituto para a famlia e de despertar o interesse pela vida do mundo exterior. Esta no  a ocasio oportuna para uma crtica s escolas secundrias em sua 
forma presente; mas talvez eu possa acentuar um simples ponto. A escola nunca deve esquecer que ela tem de lidar com indivduos imaturos a quem no pode ser negado 
o direito de se demorarem em certos estgios do desenvolvimento e mesmo em alguns um pouco desagradveis. A escola no pode ajudicar-se o carter de vida: ela no 
deve pretender ser mais do que uma maneira de vida.
         II. OBSERVAES FINAIS
         Senhores. Tenho a impresso de que, a despeito de todo o valioso material que nos foi exposto, nesta discusso, no chegamos a uma deciso sobre o problema 
que nos interessa. Estvamos ansiosos sobretudo em saber como seria possvel subjugar-se ao extraordinariamente poderoso instinto da vida: isto pode apenas acontecer 
com o auxlio de uma libido desiludida, ou se o ego pode renunciar  sua autopreservao, por seus prprios motivos egostas. Pode ser que tenhamos deixado de responder 
a esta indagao psicolgica porque no temos meios adequado para abord-la. Podemos, eu acredito, apenas tomar como nosso ponto de partida a condio de melancolia, 
que nos  to familiar clinicamente, e uma comparao entre ela e o afeto do luto. Os processos afetivos na melancolia, entretanto, e as vicissitudes experimentadas 
pela libido nessa condio nos so totalmente desconhecidos. Nem chegamos a uma compreenso psicanaltica do afeto crnico do luto. Deixemos em suspenso nosso julgamento 
at que a experincia tenha solucionado este problema.
         
         
         
         
         A CARTA AO DR. FRIEDRICH S. KRAUSS
         SOBRE A ANTHROPOPHYTEIA
         
         MEU PREZADO DR. KRAUSS, 
         Voc me pergunta que valor cientfico, em minha opinio, podem apresentar as colees de piadas, de chistes, de anedotas etc., de natureza ertica. Sei 
que voc no experimentou a menor dvida de poder justificar haver reunido tais colees. Voc simplesmente me pede o testemunho, do ponto de vista do psiclogo, 
para o fato de que material dessa natureza no s  til mas indispensvel.
         H dois pontos, sobre que, principalmente, eu gostaria de insistir. Quando j tudo se disse e se fez, as stiras e anedotas cmicas erticas, que voc colecionou 
e publicou em Anthropophyteia, s foram produzidas e repetidas porque elas causaram prazer tanto a seus narradores quanto a seus ouvintes. No  difcil adivinhar 
que componentes instintivos da sexualidade (composta como  de tantos elementos) encontram satisfao dessa maneira. Essas histrias nos do informao direta quanto 
a que instintos parciais da sexualidade se retm num dado grupo de pessoas por serem especialmente eficientes na produo de prazer; e dessa maneira eles fornecem 
a confirmao mais ntida das descobertas conseguidas pelo exame psicanaltico de neurticos. Permita-me indicar o exemplo mais importante desta natureza. A psicanlise 
nos levou a afirmar que a regio anal - normalmente e no apenas nos indivduos pervertidos -  a sede de uma sensibilidade ergena, e que a certos respeitos, ela 
se comporta exatamente como um rgo genital. Mdicos e psiclogos, quando informados de que h um erotismo anal e um carter anal dele derivado, ficam altamente 
indignados. Neste ponto, a Anthropophyteia vem em auxlio da psicanlise, mostrando quo universalmente as pessoas se demoram com prazer sobre essa parte do corpo, 
suas atividades e mesmo no produto das funes dela. Se isto assim no fosse, todas essas anedotas estariam fadadas a produzir desagrado em seus ouvintes, ou ento 
toda a massa da populao teria de ser `pervertida' no significado em que se usa a palavra nos trabalhos a respeito da `psicopatia sexual', de tom moralizador. No 
seria difcil dar outros exemplos de como o material colecionado pelos autores da Anthropophyteia tem sido de valor para as pesquisas de psicologia sexual. Seu valor 
poderia mesmo aumentar, talvez, pela circunstncia (no uma vantagem em si) de que os colecionadores nada sabem das descobertas tericas da psicanlise e reuniram 
o material sem quaisquer princpios diretivos.
         Outra vantagem de um carter mais amplo se apresenta em particular nos chistes erticos, em senso estrito, exatamente como nos chistes em geral. Mostrei 
em meu estudo sobre os chistes (1905c) que a revelao do que normalmente  o elemento inconsciente reprimido na mente pode, sob certos arranjos, tornar-se uma fonte 
de prazer e, assim, uma tcnica para a construo de chistes. Em psicanlise, hoje, descrevemos um encadeamento de idias e seus efeitos associados como um `complexo'; 
e estamos preparados para afirmar que muitos dos chistes mais apreciados so os chistes `complexivos' e que devem seu efeito hilariante e alegre  engenhosa revelao 
do que, em regra, so complexos reprimidos. Levar-me-ia demasiado longe se eu fosse apresentar aqui exemplos como prova desta tese, mas posso afirmar que o resultado 
de tal exame da evidncia  que os chistes, tanto os erticos como os de outras espcies, que circulam popularmente, fornecem um excelente auxiliar de investigao 
da mente humana inconsciente - da mesma maneira que o fazem os sonhos, os mitos e as lendas, em cuja explorao a psicanlise j est ativamente empenhada.
         Podemos, pois, por certo esperar que a importncia psicolgica do folclore seja cada vez mais claramente reconhecida, e que as relaes entre esse ramo 
de estudo e a psicanlise logo se tornem mais estreitas.
         Subscrevo-me, prezado Dr. Krauss, muito cordialmente, 
         FREUD
         
         26 de junho de 1910
         
         
         DOIS EXEMPLOS DE FANTASIAS PATOGNICAS REVELADAS PELOS PRPRIOS PACIENTES
         
         A
         H POUCO tempo, examinei um paciente com cerca de vinte anos de idade, que apresentava um quadro inconfundvel (confirmado por outras opinies) de demncia 
precoce (hebefrenia). Durante os estgios iniciais de sua doena, ele manifestara mudanas peridicas de humor e experimentara considervel melhoria. Enquanto estava 
nessa condio favorvel, foi removido da instituio pelos pais e, durante cerca de uma semana, regalaram-no com distraes de toda espcie para celebrar seu suposto 
restabelecimento. A recidiva seguiu-se imediatamente a essa semana de festividades. Quando foi levado de volta  instituio, ele disse que seu mdico assistente 
o aconselhara a `flertar um pouco com a me'. No pode haver dvida de que, nesta paramnesia delirante, ele estava dando expresso  excitao que provocara nele 
o fato de estar em companhia da me e que foi a provocao imediata de sua recada.
                                                           B
         H mais de dez anos, numa poca em que as descobertas e hipteses da psicanlise eram conhecidas apenas por poucas pessoas, os seguintes acontecimentos 
me foram referidos por fonte fidedigna. Uma jovem, que era filha de mdico, adoeceu de histeria com sintomas localizados. O pai negou que fosse histeria e providenciou 
que se iniciassem vrios tratamentos somticos que trouxeram pouca melhoria. Certo dia, uma amiga da paciente disse a ela: `Voc nunca pensou em consultar o Dr. 
F.?' Ao que a paciente replicou: `Que benefcio teria isso? Sei o que ele iria me dizer: "Voc alguma vez j teve idia de relao sexual com seu pai?" - Parece-me 
desnecessrio afirmar explicitamente que nunca foi meu costume, e nem  meu costume hoje, fazer tais perguntas. Mas  digno de nota que muito do que os pacientes 
nos contam das palavras e das aes de seus mdicos pode ser entendido como revelaes de suas prprias fantasias patognicas.
         
         
         
         
         
         
         CRTICAS S CARTAS A UMA MULHER NEURTICA,DE WILHELM NEUTRA
         
         Deve tomar-se como um sinal auspicioso do interesse crescente pela psicoterapia que uma segunda edio desse livro tenha sido necessria to depressa. Infelizmente, 
ns no podemos saudar o prprio livro como um fenmeno auspicioso. Seu autor, que  mdico assistente do instituto hidroptico de Gainfarn, perto de Viena, valeu-se 
da forma das Psychotherapeutische Briefe (Cartas Psicoterpicas) de Oppenheim, e deu a esta forma um contedo psicanaltico. Isto , em certo sentido, uma deturpao, 
de vez que a psicanlise no se pode satisfatoriamente combinar com a tcnica da `persuaso'de Oppenheim (ou, caso se prefira, de Dubois); ela busca seus resultados 
teraputicos ao longo de caminhos inteiramente outros. O que  mais importante, porm,  o fato de que o autor no atinge os mritos de seu modelo - tato e seriedade 
moral - e em sua apresentao da teoria psicanaltica, ele, amide, descai para a retrica vazia, e  tambm culpado de algumas afirmaes inexatas. No obstante, 
muito do que ele escreve, expressa-o clara e convenientemente; e o livro se pode aceitar como um trabalho para consumo popular. Numa exposio sria, cientfica 
do assunto, o autor deveria ter indicado as fontes de suas opinies e afirmativas com maior escrpulo.
         
         
         
         



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Cinco lies de psicanlise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  -  Sigmund Freud
